No Verão de 2023, o meu filho mais novo fazia a sua primeira grande viagem internacional para conhecer a família na distante província de Gansu, na China. Viajar com bebés de tenra idade é sempre um desafio e as preocupações são muitas, sobretudo no que respeita às rotinas de alimentação e sono.

Contudo, chegados à cidade de Hangzou, foi fácil encontrar atividades indoor e outdoor (apesar do intenso calor) para crianças de todas as idades, mas especialmente para as de tenra idade. A adaptação foi relativamente fácil e, mesmo na parte mais complexa, relacionada com a alimentação, conseguimos ir encontrando soluções para minimizar a aversão aos diferentes sabores, paladares, texturas dos produtos chineses.

Mesmo para um adulto, sem orientação local, comer bem na china é uma certeza, contudo, a imensa variedade de pratos pode ser labiríntica e facilmente podemos perder-nos no meio de tantas opções, ou no pior dos casos, escolher a errada.

Após alguns dias em Hangzou, fomos para uma pequena cidade remota no interior da província de Gansu, uma das mais afastadas da capital. A forma como as crianças se adaptam de região para região, de ambiente para ambiente diz mais da resiliência da nossa espécie do que parece à primeira vista. Muitas das preocupações nascem do próprio subconsciente dos pais que tentam balizar tudo de forma que a aprendizagem e a caminhada da sua prole decorra sem o mínimo de contrariedades nem sobressaltos.

Pese embora a bondade deste pensamento, a necessidade de as crianças “sofrerem” (moderadamente, claro) com impactos de mudanças, viagens ou outras circunstâncias do nosso quotidiano, permite que ganhem resistência, experiências e novos estímulos que de outra forma seriam impossíveis de proporcionar.

Relatar este meu caso particular é também uma forma de refletir sobre o que as nossas cidades e a nossa sociedade está a proporcionar, nos dias de hoje, às novas gerações. Há décadas, na minha infância, por exemplo, jogava-se à bola nas ruas, às escondidas e jogos tradicionais, andava-se de bicicleta, skates, etc. Mas também já havia tecnologia. Já existiam os jogos, as máquinas de árcade, os parques de diversões, etc.

Em 2024, com a popularidade da Inteligência Artificial camuflada de Chat-GPT a ganhar uma tração nunca antes vista, alguns pais começam a ponderar se o efeito da tecnologia em excesso na vida diária das crianças não irá provocar danos irreparáveis na nossa sociedade futura. Na Suécia, e noutros países nórdicos, foram abolidos os meios digitais nas salas de aula e voltou-se ao tradicional papel depois de uma experiência piloto com conclusões preocupantes, nomeadamente após a introdução de tablets nos jardins-de-infância, que terá levado a um declínio das competências básicas.

Um dos sinais de alerta partiu dos resultados do último estudo internacional sobre Literacia em Leitura que revelou que as crianças suecas estavam com mais dificuldades nesta área.

As opiniões dividem-se, mas é um facto, existe uma tendência para que muitos pais “sosseguem” as suas crianças com recurso a meios eletrónicos. Eu próprio recorri a esse método, confesso, especialmente durante as refeições fora de casa ou em viagens. É de facto uma ajuda preciosa, mas que deve ser utilizada de forma equilibrada e moderada e com muita atenção aos conteúdos. Também devem ser alternados com momentos offline e de interação com o meio ambiente que rodeia as crianças, afinal de contas desde tenra idade, elas crescem e desenvolvem-se através da experimentação e dos estímulos.

Mas serão assim tão diferentes as crianças nas mais diversas geografias, uma vez que os telemóveis e os tablets já estão disseminados por todo o mundo e presentes de forma incontornável no nosso quotidiano? Afinal de contas, os adultos também não largam os ecrãs…podemos julgar um pai ou mãe que, para sossegar uma criança num momento social e de interação familiar ou até de negócios, recorre a esta ferramenta de babysitting? Podemos mesmo afirmar que estes momentos serão prejudiciais ao seu desenvolvimento social e humano futuros?

Ou, porventura, o alheamento dos próprios adultos que não largam os ecrãs, é ele mesmo o fator de influência de novas gerações que, através do exemplo irão mimetizar o comportamento dos seus progenitores alheados que estão da vida e com uma interação social desligada ou intermitente.

Será que nos países ocidentais seremos assim tão exemplares ao ponto de criticar altivamente o excesso de tecnologia nos países asiáticos, por exemplo? Quem é que está realmente viciado nas tecnologias desde tenra idade? E porquê?

Talvez se observarmos as cidades e conhecermos as realidades e as ofertas teremos respostas mais assertivas. Na China, por exemplo, na minha própria experiência, existem espaços para as crianças brincarem e aprenderem com legos, brinquedos, livros, cubos, piscinas de bolas, piscinas de areia, etc. Mas também têm espaços de eletrónica com jogos digitais e máquinas. Os espaços são utilizados de maneira diferente e por idades diferentes, isso é óbvio.

E como é na Europa e no mundo ocidental? Também temos de tudo, embora espaços mais pequenos ajustados aos nossos números como é obvio. Mas são utilizados? Ou, eventualmente, as famílias fazem elas próprias os seus programas de tempo com as crianças e, neste caso, haverá um pouco de tudo (excesso, equilíbrio ou minimalista)?

Um dos grandes desafios que se colocam às cidades nos dias de hoje, prende-se com o tipo de cidadãos que as irão habitar no futuro. Já na atualidade é possível observar este fenómeno de interação com eventos, concertos, etc. sempre com mais interesse na partilha do que no conteúdo. E depois temos raros exemplares que estão a desfrutar do conteúdo. São formas diferentes de viver a vida e os nossos jovens e crianças não podem ser culpabilizadas pela atual devastação de valores e moral transversal sobretudo no ocidente.

Passando, por exemplo, para África, observamos uma juventude inquieta com muitas necessidades e carências básicas, mas a florescer! Com sorrisos, corridas, saltos, bicicletas e brinquedos rudimentares. Também muita fome, muita pobreza, muita infelicidade, e poucos recursos. Mas pergunto-me se não será isso que irá fazer da geração africana uma fortaleza de resiliência, criatividade, vontade, em contraste com a parte rica da civilização que cresceu com tudo, híper-protegida e neste momento, até a ser encaminhada para deixar de fazer coisas básicas como escrever ou estudar, podendo, em vez disso, recorrer ao Chat-GPT e, de forma rápida e duvidosa, passar a ser a caixa de ressonância de algoritmos mal programados, conteúdo absurdo, ideologias abjetas e enviesamentos sociais. Estaremos na véspera do nascimento da geração artificial? Aqueles que não pensam, não decidem, não vivem?

No que a mim me diz novamente respeito, irei sempre buscar o erro, a dificuldade, o desafio, o pensamento critico, a cultura e o conhecimento pelos inevitáveis clássicos que nunca serão extintos e, infelizmente, repetidos. Irei mostrar aos meus descendentes o mundo nas suas diferentes dimensões e estou certo de que terão as ferramentas certas para encontrar a autenticidade, a genuinidade, a humanidade e a criatividade necessárias para saber destacar-se de uma geração de país que, infelizmente, devido às condições de vida e às necessidades básicas (emprego, habitação, solidez económica, etc.) que não são possíveis de ultrapassar, ceder à facilidade tecnológica que também os aprisionou.

Resta saber se todo este processo foi deliberadamente arquitetado pela indústria do consumismo ou se se tratou apenas de um infeliz efeito secundário do desenvolvimento capitalista.

As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 44 da Smart Cities – julho/agosto/setembro 2024, aqui com as devidas adaptações.