No início era o mito libertário da internet, uma internet primordial ao serviço dos cidadãos e dos seus bens comuns. Porém, muito rapidamente, assistimos à emergência de uma internet das grandes plataformas tecnológicas ao serviço do hipercapitalismo e dos grandes conglomerados tecnológicos, a maioria de origem norte-americana. Esta grande bifurcação mantém-se ainda hoje. De um lado, a multidão anónima e os inocentes cidadãos utilizadores, capturados por um número crescente de dispositivos tecnológicos, de outro, os gigantes tecnológicos administrando uma imensa economia das multidões e gerando lucros monumentais que canalizam para paraísos ficais e sociedades offshores. Meio século depois, o mito libertário da internet já se esfumou. O problema hoje reside em saber, em primeiro lugar, como regular estes mercados transnacionais e quase monopolistas em benefício das sociedades e dos cidadãos e, em segundo lugar, como retomar o curso de uma internet primordial, bem distribuída, que nos possa conduzir até à sociedade colaborativa, aos ambientes inteligentes e aos bens comuns da humanidade.
Este é, hoje, o grande desafio das sociedades confrontadas com o gigantismo do capitalismo das plataformas. As suas manifestações são conhecidas. A virtualização da sociedade, a uberização e a plataformização das atividades, a automação, a robotização e a inteligência artificial, a smartificação dos ambientes e dos territórios, uma nova divisão do mercado de trabalho, a emergência de um quarto setor de economia criativa e solidária. Todos estes fatores de inovação acrescentam realidade à realidade já existente (realidade aumentada), inteligência à inteligência já existente (inteligência artificial) e homem ao homem já existente (homem aumentado).
Esta revolução do capitalismo digital significa, ainda, que temos de estreitar o abismo que se abre entre territórios com e sem acesso às tecnologias digitais, mas, também, entre sociedades com e sem coesão social e territorial. No futuro próximo a evolução dirá respeito à generalização das redes 4G e 5G, isto é, estamos a fazer o caminho que nos levará da democracia representativa à democracia participativa e à democracia interativa. Assim, quanto maior for o espaço ocupado pelas redes distribuídas maior será a conetividade e a interatividade entre os cidadãos. No final, o desenvolvimento e a coesão territorial de uma comunidade dependerão, em cada momento, do equilíbrio dinâmico entre estas três geografias e geometrias democráticas.
A revolução do capitalismo digital significa que temos de estreitar o abismo entre territórios com e sem acesso às tecnologias digitais, mas também entre sociedades com e sem coesão social e territorial
Se olharmos à nossa volta, observamos que, nos últimos anos, foram criadas em muitas regiões do país, com o apoio de fundos europeus e nacionais, o que poderíamos denominar de embrião de comunidades inteligentes: parques de ciência e tecnologia, centros de investigação e desenvolvimento, polos tecnológicos, ninhos de empresas, incubadoras e aceleradoras de startup, espaços de coworking, redes de smart cities, de living labs, de associações de desenvolvimento local, sociedades de capital venture, uma associação de business angels, hubs tecnológicos e criativos, para além de muitas associações empresariais de geometria muito variável. Pensemos, por um momento, nos inúmeros efeitos difusos e dispersivos, de duvidosa sustentabilidade, com origem em todas estas presumidas comunidades inteligentes, no seu impacto sobre a coesão dos territórios de baixa densidade e ficamos, de imediato, com um amargo de boca no que diz respeito à sua eficácia, eficiência e efetividade. Com algumas exceções, como é evidente. E porque é que isto acontece? Por faltar, justamente, um ator-rede e uma curadoria que cuidem de saber e praticar que o todo é maior que a soma das suas parcelas. Não há coesão territorial e smartificação de redes ou comunidades intermunicipais que resistam a estes efeitos difusos e descontinuados. Muitos dos efeitos externos destas entidades não são monitorizados e capitalizados e, mais tarde ou mais cedo, acabam por perder-se na fragilidade dos tecidos empresariais municipais e regionais.
As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.
Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 43 da Smart Cities – abril/maio/junho 2024, aqui com as devidas adaptações.
