Cada vez mais jovens portugueses assumem protagonismo no setor da inovação, apostados em lançar ideias disruptivas, mas também em fazê-las vingar no mercado. Desta nova geração nasceram vários projetos criativos e revolucionários, que antecipam o futuro enquanto fazem do Planeta um lugar melhor.

Aproveitar as cascas do camarão para criar um bioplástico impermeabilizante parece tarefa quase impossível, só à medida de investigadores experimentados, mas dois jovens portugueses decidiram meter mãos à obra quanto tinham apenas 17 anos. Frederico Maurity e Madalena de Castro Filipe lançaram o projeto HidroQapa ainda no liceu e começaram por procurar o apoio de universidades e centros de investigação, mas, nessa altura, quase todas as portas se fecharam. “Mais de 95% das respostas foram negativas, dizendo-nos que a nossa ideia não era possível, porque nem estava cientificamente consensual. Mas tivemos a sorte do Instituto Superior Técnico aceitar o nosso desafio e, a partir daí, foi sempre a melhorar”, recorda Frederico.

Nos últimos dois anos, a solução passou das aulas de biologia no Colégio Valsassina, em Lisboa, para os principais eventos de inovação e empreendedorismo, recebendo inúmeros prémios nacionais e internacionais. Começou por estar entre os vencedores da Mostra Nacional de Ciência, que lhe valeu o acesso para a maior feira de ciência e engenharia do mundo, a Regeneron, realizada nos Estados Unidos, onde ficou em segundo lugar no Prémio Mary Kay para a Inovação, destinado a cientistas do ensino secundário. Depois, ganhou a Youth Start-Up Competition, promovida pela Comissão Europeia, o Prémio Inovação e Saúde e a Mostra Nacional de Jovens Empreendedores na categoria de Sustentabilidade Ambiental.

Os benefícios para o Planeta são, de resto, um dos pilares desta inovação, por ser “capaz de substituir de uma forma mais ecológica os atuais impermeabilizantes da indústria têxtil, ainda bastante poluentes, tanto para os ecossistemas, como para a saúde humana”, explica o agora estudante universitário do curso de enfermagem. Isto porque é uma solução sustentável e biodegradável, que ajuda a reduzir a poluição ambiental e o desperdício de recursos, ao mesmo tempo que favorece a economia circular.

Na prática, Frederico e Madalena aproveitam uma substância presente nas cascas de camarão, o quisotano, para desenvolver um bioplástico impermeável que pode ser utilizado, por exemplo, em toalhas de mesas, onde já foi testado com sucesso. Mas a sua aplicação tem potencial para chegar a outros artigos têxteis, como t-shirts ou colchões, por exemplo.

Encontrar financiamento é o próximo passo do HidroQapa, que integra o programa BlueBio Value Ideation, dedicado ao desenvolvimento de projetos inovadores e sustentáveis na área da economia azul. Algumas marcas nacionais e investidores internacionais já demonstraram curiosidade com esta inovação, por isso o futuro poderá passar por parcerias com outras empresas. “Queremos fazer a diferença e, quem sabe, ajudar a revolucionar o mundo da indústria têxtil. Para nós, o futuro já começou!”, afirmam os dois jovens inovadores.

Inovação descarboniza cidades

E se for possível desenvolver uma solução capaz de capturar e quantificar o dióxido de carbono (CO₂), transformando-o depois em valor económico? Durante um mês, a pergunta não saiu da cabeça de quatro jovens que participaram na 3.ª edição do Sustainable Living Innovators (SLI), um programa criado pelo CEiiA com o objetivo de estimular futuros líderes tecnológicos. Dito e feito. A partir daí, começaram a trabalhar a ideia e criaram o Herbi, um biodispositivo que utiliza a natureza para sequestrar o CO2 em ambientes urbanos, contribuindo para acelerar a neutralidade carbónica das cidades.

Primeira apresentação pública do Herbi aconteceu na Web Summit 2024

Este utiliza um arbusto que pode ser integrado, por exemplo, em paragens de autocarro ou fachadas e coberturas de edifícios, otimizando e medindo, com a ajuda de sensores, o dióxido de carbono resgatado. “Através da sua aplicação em infraestruturas urbanas, o Herbi captura, quantifica e comunica o CO2 em tempo real, permitindo converter o CO2 sequestrado em créditos ambientais transacionáveis e proporcionando uma oportunidade económica alinhada com metas ambientais”, explica Nuno Figueiredo, que tem desenvolvido o dipositivo em conjunto com Marco Cunha, Mafalda Mendes e Matheus Costa.

Quando começaram o projeto, os quatro jovens ainda eram estudantes universitários, mas, entretanto, passaram a integrar o CEiiA com a missão de fazer evoluir o produto. Em breve vão iniciar testes e demonstrações em hubs de mobilidade de várias cidades pertencentes à rede BE.Neutral, um consórcio que junta oito municípios e dezenas de empresas e entidades com a missão de reduzir 600 mil toneladas de CO2 na região norte do país. Também para este ano está prevista a implementação de protótipos do Herbi, juntamente com o refinar do modelo de negócio e a criação de parcerias.

“Esta plataforma permite que os nossos futuros clientes, como as cidades, as empresas de construção ou os escritórios de arquitetura, obtenham uma vantagem competitiva em matéria de sustentabilidade. Isto porque conseguirão demonstrar de uma forma mais transparente o seu processo de compensação das emissões de carbono, incluindo os resultados nos relatórios de sustentabilidade”, sublinha Mafalda Mendes. Ambições para o futuro? Industrializar o produto, escalar e contribuir de forma efetiva para a descarbonização das cidades. 

Salvar vidas na estrada

A partir de um susto também podem surgir boas oportunidades. André Azevedo conduzia às 4 horas da manhã numa autoestrada quando adormeceu ao volante e, por instantes, o carro desviou para outra faixa. Pior ficou o sócio, Filipe Monteiro, envolvido num acidente pela mesma razão que resultou em dois carros totalmente destruídos, depois de embater contra um veículo estacionado. Ambos os episódios viriam a estar na origem da startup WindDriver, que desenvolveu uma tecnologia baseada em inteligência artificial, capaz de detetar sinais de fadiga e de falta de concentração e emitindo alertas que podem evitar acidentes.

Utilizamos a câmara dos smartphones para analisar a face do condutor em tempo real, recorrendo a visão computacional para detetar se os olhos estão abertos e para onde estão a olhar. No caso de surgir uma distração durante mais de dois segundos, ou se o condutor adormecer, é emitido um alerta sonoro e visual que vai ajudá-lo a focar-se na estrada”, explica o CEO da empresa. Para isso, o utilizador só tem de instalar uma aplicação que, em breve, também passará a analisar os níveis de stresse ao volante.

Desde que foi lançada, em 2021, a empresa já recolheu mais de 200 mil quilómetros de dados e constatou que os alertas de distração surgem, em média, a cada seis quilómetros, enquanto os de adormecimento rondam os 25 quilómetros. “Estimamos já ter salvo, pelo menos 52 vidas, só durante o ano de 2024. Além disso, temos recebido muito bom feedback, como aconteceu com uma condutora de TVDE que nos ligou às 9 horas, agradecendo muito, depois da app a ter acordado e evitado um acidente”, diz André Azevedo. A estes números junta outros oficiais, do Conselho Europeu da Segurança dos Transportes, segundo o qual Portugal foi o sexto país (entre 32) com mais acidentes rodoviários em 2023, cerca de 35 mil, que resultaram em 468 vítimas mortais. 

Empreendedor desde cedo, André Azevedo lembra-se bem dos tempos em que ele e o sócio deixaram de trabalhar numa empresa de projetos de inovação para se aventurarem por conta própria no setor tecnológico. Em boa hora o fizeram, acrescenta, lembrando o crescimento da WingDriver, que em Portugal já trabalha com a Bolt, a Galp ou a Brisa, por exemplo, e no estrangeiro está a negociar com “o segundo maior ride-hailing [transporte a pedido através de uma aplicação] do mundo, que é basicamente três vezes maior que a UBER”, ao mesmo tempo que se prepara para chegar ao mercado da Austrália e da Nova Zelândia. Um percurso sempre a crescer, sem se desviar da rota prevista, que quer conquistar o mundo salvando vidas e tornando as estradas mais seguras. 

Tecnologia sub-18 que faz bem

Inspirado num caso real foi também o Healthcare Support Center, uma das soluções vencedoras da 10.ª edição do programa Apps for Good, que desafia estudantes do 5.º ao 12.º ano a desenvolverem aplicações para smartphone capazes de transformar o mundo e as comunidades. Criado por três alunos da Escola Secundária de Tondela, é um sistema de monitorização e apoio remoto médico em tempo real, que recorre a sensores de humidade colocados na cama ou nos lençóis de uma pessoa hospitalizada ou acamada. “Uma vez fui visitar a minha avó ao hospital e ela estava urinada na cama. Fiquei  a pensar nisso e, mais tarde, em conversa com o nosso professor, tentámos encontrar uma solução para esse problema”, conta Joel Dias, de 17 anos, um dos criadores desta inovação, juntamente com os colegas Matilde Machado e Carlos Soares e o docente Paulo Nogueira.

Através da app que os jovens desenvolveram, tanto enfermeiros como cuidadores podem receber alertas sempre que a roupa está molhada, melhorando a saúde e o bem-estar dos doentes, ao mesmo tempo que se otimiza o tempo das equipas de enfermagem. Complementarmente, o Healthcare Support Center pode estar associado a um sinal luminoso junto à cama que serve de alternativa ou reforça a informação. O sistema, ainda em protótipo, foi testado e validado no Hospital Tondela/Viseu, o que ajudou a acrescentar alguns melhoramentos. Por exemplo, ao serem informados sobre a elevada mortalidade nos idosos associada a ondas de calor, os criadores decidiram juntar um sensor de temperatura que aciona o ar condicionado sempre que o quarto fica muito quente.

Também com 17 anos, Matilde Castro sonha ver este equipamento noutros hospitais do país, até porque é “um projeto com capacidade para ajudar muita gente e hoje em dia não há nenhum equipamento igual”. Até lá, o Healthcare Support Center “vai mostrando que tem capacidade para ser útil, mas também que os jovens são capazes de ter ideias inovadoras e importantes para a sociedade”, conclui.

 


Este artigo foi originalmente publicado na edição n.º 46 da Smart Cities – janeiro/fevereiro/março 2025