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Jorge Máximo, diretor central no sector bancário e ex-vereador da CM Lisboa (2013-17), e Januário Rodrigues, investigador Doutorando em Sistemas de Energia Sustentável.

“A crise da inflação foi causada por super gastos, e por isso que hoje eu também vou declarar uma emergência energética nacional, vamos perfurar e perfurar… a América será novamente uma nação produtora, e temos algo que nenhuma outra nação produtiva tem, a maior massa de petróleo e gás, e vamos usá-lo, vamos usá-lo.” Donald Trump, discurso de tomada de Posse como 47º Presidente dos EUA.

Como muitos anteviam, o primeiro dia do segundo mandato de Donald Trump serviu para enviar várias mensagens fortes ao mundo sobre mudanças significativas nas prioridades e orientações políticas norte americanas, incluindo em termos de política ambiental e energética. Nesse dia, assinou decretos que retiram os EUA do Acordo de Paris e revertem políticas ambientais restritivas à perfuração de combustíveis fósseis ou de incentivo à descarbonização. O seu objetivo é acelerar a produção de combustíveis fósseis que, acredita, irá revitalizar a economia americana, reduzindo os preços da energia e fortalecendo a sua independência energética.

De imediato, as reações de preocupação e condenação ecoaram em todo o mundo, entendendo a decisão como uma ameaça ao desenvolvimento sustentável e ao combate às mudanças climáticas.

Na ONU, o secretário-geral António Guterres classificou a decisão como “dececionante para a humanidade”, na Europa como “irresponsável” e “um retrocesso perigoso” na luta contra o aquecimento global e até a China aproveitou a oportunidade para reafirmar o seu papel como líder global em energias renováveis.  Mesmo nos EUA, estados como a Califórnia ou Nova York declararam a sua autonomia política, assumindo que irão manter medidas de redução de emissões e a promoção da mobilidade elétrica.

Apesar de Trump possuir convicções firmes, legitimidade eleitoral e poder financeiro para impulsionar o retorno ao modelo económico baseado em combustíveis fósseis, será ele capaz de reverter décadas de esforços, negociações multilaterais e investimentos na transformação do paradigma energético?

Ou, pelo contrário, as medidas já implementadas, somadas aos avanços tecnológicos, aos compromissos e investimentos do setor privado e às tendências e exigências de mercado, tornam a transição energética amplamente irreversível, independentemente da “Vaga Trump”?

Caminho é já irreversível

A história da humanidade está pejada de avanços e retrocesso, as políticas de Trump podem ser mais um novo obstáculo, mas, acreditamos, não impedirão que se volte atrás no objetivo de cumprimento das metas e compromissos ambientais e energéticos para evitar o agravamento das alterações climáticas. Ao contrário do que deu a entender, o longo caminho já percorrido por um modelo de desenvolvimento económico mais sustentável e suportado em energias limpas não é errado, nem empobrecedor, nem inflacionista.

Ora vejamos!… Na última década, o desenvolvimento económico focou-se na descarbonização, influenciando mentalidades e atraindo biliões em investimentos públicos e privados. Estados importadores buscam reduzir a dependência energética de produtores de energia fóssil, devido à instabilidade geopolítica e especulação de preços. A reversão desse caminho é improvável, a menos que se prove que a “alternativa Trump” é mais vantajosa e cientificamente sustentada, o que as evidências climáticas refutam.

A Agência Internacional de Energia prevê que a procura global por eletricidade duplique até 2050, impulsionada pela transição energética. Até 2030, quase metade das vendas de automóveis serão de veículos elétricos, com a China a liderar. O pico na procura de combustíveis fósseis deve ocorrer antes de 2030 devido à expansão das energias renováveis e da mobilidade elétrica.

Vejamos alguns dos números que desmentem mitos alimentados pelos negacionistas das alterações climáticas:

  • Mito 1: A energia limpa é mais cara no consumidor final!…

Os hidrocarbonetos, como o carvão, o petróleo e o gás natural têm sido fundamentais para a produção de energia desde a Revolução Industrial. No entanto, o custo real da dependência dessas fontes vai além do preço pago por tonelada de carvão, barril de petróleo ou metro cúbico de gás.
De acordo com a GlobalPetrolPrices.com, o preço médio da eletricidade para famílias em países fortemente dependentes de hidrocarbonetos varia significativamente, podendo atingir até 0,445 €/kWh em alguns mercados. As razões para essas diferenças são múltiplas e complexas, mas os dados indicam que o custo da eletricidade depende mais da estrutura do mercado do que do preço das fontes de energia. Os dados indicam que Portugal, Espanha, França ou a Suécia, que utilizam mais de 50% de energia renovável na geração elétrica, apresentam preços no ranking da tabela, mais baixos para os consumidores finais do que países mais dependentes de fontes fósseis, como Alemanha, Irlanda e Itália os mais caros da EU. Embora haja exceções, como a Polónia, onde a eletricidade de origem fóssil mantém um preço relativamente baixo, a partir de fontes fósseis, não há uma correlação clara que comprove que a dependência dos combustíveis fósseis resulta em eletricidade mais acessível para os consumidores. Mercados mais diversificados e menos dependentes de hidrocarbonetos, conseguem oferecer preços mais competitivos de eletricidade.

Além dos custos diretos da energia, existem impactos ambientais e de saúde pública associados à queima de combustíveis fósseis. Esses custos indiretos ainda não estão totalmente refletidos no preço final da eletricidade, mas têm um impacto económico significativo. Se não forem colocados no custo da energia fóssil, poderão vir a representar aumentos de impostos, taxas ambientais, custos sanitários e de seguros de saúde, tornando a dependência dos hidrocarbonetos mais onerosa para as economias a longo prazo.

  • Mito 2: A produção de energia limpa não é competitiva!…

Esta afirmação pode ser contrariada pelo retorno do investimento em energias renováveis, cujos custos de produção caíram drasticamente nos últimos anos, com a China a liderar a expansão desta nova capacidade. Segundo a Bloomberg New Energy Finance, o custo da energia eólica on-shore diminuiu 60% na última década e o da energia fotovoltaica caiu 90%.

Estas reduções tornam as energias renováveis muito competitivas, sendo na maioria dos mercados maduros, já hoje mais baratas do que a energia fóssil. Este fator é particularmente relevante regiões importadoras de energia, como é o caso da União Europeia.
De acordo com a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), em 2023 registou-se um aumento sem precedentes, de 473 GW (gigawatts) de capacidade adicional, representando um crescimento de 13,9%. Este aumento elevou a participação das renováveis na capacidade global instalada para 43% do total da eletricidade produzida.

Além disso, os investimentos em energias renováveis aumentam a resiliência energética dos países. A diversificação da matriz energética reduz a dependência de importações e mitiga os riscos associados a interrupções no fornecimento, causadas por instabilidades políticas das regiões produtoras de hidrocarbonetos.

Conclui-se por isso, que os investimentos globais em tecnologias limpas continuam a crescer exponencialmente, refletindo a confiança na transição para a economia verde e gerando um movimento imparável.

  • Mito 3: A energia limpa condiciona um crescimento económico mais rápido!…

O desenvolvimento acelerado de tecnologias de captura de carbono e armazenamento de energia, adicionada à redução dos custos de produção de VE, turbinas eólicas e painéis solares, aceleraram a transição para fontes de energia mais limpas. Adicionalmente, a economia verde está a criar milhões de novos empregos no setor.

As conclusões do World Energy Outlook 2024 da AIE fornece evidências claras de que a transição para energias renováveis não impede o crescimento económico e até o promove, oferecendo vantagens em termos de custos, segurança energética e desenvolvimento industrial.

A União Europeia onde em 2023, a energia renovável já representou 50% da produção de eletricidade, tem afirmado e comprovado recorrentemente que a descarbonização e a transição para a energia verde não é à custa do crescimento económico e da prosperidade, e vai prosseguir de forma consistente com a substituição dos combustíveis fósseis poluentes, por alternativas limpas, assegurando um crescimento do PIB alinhado aos objetivos do Pacto Ecológico Europeu.

Na China, um colosso da economia mundial, a transição energética mundial é um dos pilares da sua estratégia de competitividade, posicionando parte do crescimento económico e social futuro, pela liderança mundial na produção de painéis solares, baterias e uma forte conquista do mercado de mobilidade elétrica (espera-se que 70% das suas vendas de automóveis novos sejam elétricos até 2030). A China visa atingir emissões líquidas zero até 2060.

Apesar da resistência de alguns setores, os dados indicam que a transição para renováveis é viável e economicamente vantajosa, especialmente para países dependentes de importação de hidrocarbonetos.

Os dados e as evidências de países e blocos económicos como a União Europeia e a China mostram que a transição para energias renováveis não é um obstáculo para o crescimento económico, mas sim um catalisador de novos negócios, tecnologias e empregos. As energias limpas estão a criar uma nova era de prosperidade e desenvolvimento sustentável, contrariando o mito de que a transição energética prejudica o crescimento. Pelo contrário, ela está a redefinir o futuro económico e social a nível global de forma mais resiliente e sustentável.

Donald Trump pode ser o homem mais poderoso do mundo e com uma capacidade única de influência à escala global. Pode até reverter anos de investimento público americano na transição energética e apoiar agressivamente a expansão dos combustíveis fósseis nos Estados Unidos, mas não pode travar um verdadeiro tsunami de mentalidades, aspirações e investimentos já consolidados globalmente.

O seu “dique” poderá até proteger, de forma temporária, alguns interesses nacionais específicos, mais não conseguirá alterar uma direção irreversível da economia mundial em direção à transição energética. Nisso, os mercados já tomaram a sua decisão.

Se ainda acredita no contrário, então não está a ser Smart!…

As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 46 da Smart Cities – janeiro/fevereiro/março 2025, aqui com as devidas adaptações.