Falar de cidades ou comunidades digitais não é mais do que abordar apenas um dos pilares da evolução dos territórios. Os adjetivos alteram-se com os tempos e com as pessoas e oscilam entre dimensões mais humanas, mais inteligentes ou mais analíticas. Quando pensamos em smart cities ou em smart communities instintivamente associamo-las a comunicações, sensores, dados, dashboards e, mais recentemente, inteligência artificial.

Partilhar e debater diversas formas de construir comunidades digitais mais inteligentes foi mote do Encontro de Comunidades Digitais, que a INOVA-RIA, no quadro das comemorações dos seus 20 anos, e a Amado Maker promoveram no passado dia 3 de maio em Águeda. Este encontro procurou confrontar realidades diferentes em geografias e culturas diversas, procurando trazer a realidade de municípios portugueses reconhecidos pela inovação, de cidades e regiões da União Europeia reconhecidas pelos seus percursos e, também, fazer pontes para o Brasil, um país onde convivem diversos paradigmas de desenvolvimento e de acesso aos meios.

Cidades ou comunidades inteligentes são bem mais do que dados e tecnologia – mas não os excluem. São territórios pensados por e para as pessoas e, se algo ficou claro com a pandemia, devem ser ágeis a adaptar-se, promover a sustentabilidade e, assim, tornarem-se resilientes.

Amsterdão, Curitiba, Guimarães ou a região da Flandres, na Bélgica, partilharam a sua forma de construir e governar as diferentes comunidades. Diferentes culturas, diferentes dimensões, diferentes recursos financeiros e infraestruturas influenciam não apenas as soluções, mas a forma de construir as comunidades e as soluções.

Tudo começa com uma Visão e uma Liderança, mas constrói-se em plena cooperação e articulação entre os atores da hélice onde, além das entidades públicas, da academia e das empresas, assumem agora importância a sociedade civil e o ambiente natural. Todos se preocuparam em ter as pessoas no centro das decisões, sem, no entanto, se esquecerem da necessidade de recolher factos, geri-los e decidir com base neles.

Questões com a soberania dos dados, a interoperabilidade ou a adoção de standards fazem parte das preocupações na tomada de decisão sobre os sistemas e as tecnologias a implementar. Mas cidades como Amsterdão ou até Guimarães procuram devolver dados aos cidadãos, trazendo transparência e utilidade aos processos. Se em Amsterdão a preocupação é usar a contratação pública como indutor de inovação, já a Flandres procura incentivar a reutilização de soluções, concentrando numa estrutura regional as decisões de financiamento aos municípios e, de alguma forma, sugerindo a adoção de soluções interoperáveis e baseadas em standards. Em todos os casos, as cidades são vistas como excelentes testbeds para soluções inovadoras e laboratórios vivos que ajudam a comunidade de empresas a terem soluções que possam ser escaladas para cenários de diferentes dimensões.

Mas foquemo-nos nas pessoas, o princípio e o fim das comunidades inteligentes. Falámos de educação, criatividade e tecnologia. Trouxemos Águeda, Albergaria-a-Velha, Aveiro, o País Basco, São Paulo e a Amado Maker. São cenários muito diferentes, sobretudo no acesso às
tecnologias de informação, comunicação e eletrónica. As cidades portuguesas mostraram o que têm feito na promoção de educação mais inclusiva, com recurso a meios tecnológicos, e, também, na qualificação dos seus equipamentos e profissionais de educação. Todas, de
formas diferentes, integram desde cedo as competêcias STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Arte e Matemática) na oferta ao nível do Ensino Básico. Aveiro apresentou o seu projeto Aveiro STEAM City, onde, além das escolas, abordou a requalificação profissional, a criação de um laboratório de experimentação à escala da cidade com base no 5G e a sua aposta na cultura e na criatividade. O País Basco focou-se na dinamização económica das atividades criativas, nomeadamente através da atração e capacitação de artistas e artesãos através
de um programa ambicioso de formação e mentoria.

A Amado Maker apresentou os seus kits educativos (incluindo desconetados) para estimular o espírito maker e sensibilizar para as tecnologias de informação. Mas foi São Paulo que nos mostrou que a falta de recursos tecnológicos e financeiros não é motivo para desinvestir nas pessoas. Em cenários onde quadros interativos são ficção porque não existem infraestruturas básicas, são os professores os responsáveis por trabalharem com os alunos, estimulá-los e procurar que estes venham a ter acesso a melhores condições de vida. Falámos também de sustentabilidade e de direitos digitais. Famalicão, Maceió, Dublin e Sófia partilharam as suas visões de crescimento e desenvolvimento sustentável, mas também de como abordam os direitos digitais. Cada vez mais as decisões serão influenciadas por dados recolhidos por “sensores” que não são apenas equipamentos eletrónicos, mas serão também cidadãos que participam ativamente no dia-a-dia da sua comunidade. Uma comunidade inteligente assenta na capacidade de os seus membros “serem cidadãos” e na de construir uma cidadania responsável, participativa, capaz de criticar e escrutinar decisões.

A digitalização deve, assim, contribuir para dignificar e desenvolver os territórios e comunidades de forma sustentável. De facto, nenhum território será inteligente se não for sustentável (os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas são chave). Todos falaram de flexibilidade e adaptabilidade, e também de parcerias com entidades locais vizinhas, de fomentar a partilha de experiências e de conhecimento, bem como de recursos e dados. Cocriar, testar com a população, envolvê-la nos processos e nas soluções potencia a democracia, contribui para que as pessoas cuidem do espaço comum, cria uma cultura de responsabilidade e transparência, fomenta a autonomia, a liberdade e a autodeterminação.

No fim, sobressai a necessidade de invocar o pensamento crítico (voltámos à educação) e um mote que Frans-Anton Vermast (Amsterdão) trouxe no início: mais vale pedir desculpa do que pedir permissão. É necessário agir, fazer, medir e, depois, regular. No fim de uma longa jornada, falámos de mobilidade. Mobilidade de pessoas e mobilidade de bits, ou seja, de como as tecnologias de informação e comunicação influenciam os fluxos e o povoamento dos territórios. Falámos de mobilidade ciclável e de como a sua eletrificação alarga conceitos como o da Cidade dos 15 minutos, de como a mobilidade contribui para atrair pessoas, de como temos de mudar e adaptarmo-nos, nomeadamente aceitando que “não há tempo mau, há é roupa inadequada” (e logo adotando modos de transporte mais saudáveis e sustentáveis).

Por outro lado, o desafio da demografia é premente: é necessário atrair migrantes, incluindo os nómadas digitais. É possível trabalhar a partir de qualquer local para qualquer local e isso criará desafios às cidades, enquanto cria oportunidades para os territórios de baixa densidade. Se, por um lado, sabemos que o despovoamento do território leva à sua desertificação, por outro, a falta de aposta nos territórios de baixa densidade agudizará os problemas das cidades. Por último, é fundamental apostar em serviços de qualidade em proximidade e/ou digitais, sendo importante ter dados para racionalizar e adequar a oferta.

Foi um dia longo, onde se procuraram abordar dimensões diferentes de inteligência e de digitalização, falando pouco da tecnologia em si, mas mostrando como ela ocupa um lugar importante no desenvolvimento e na dignificação das pessoas. Mostrou-se, também, com nos tornámos exigentes em relação aos meios, muitas vezes em procurar a melhor forma de atingir os fins.

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