Portugal voltou a tremer esta segunda-feira com um sismo de 5.3 na escala de Richter, levantando de novo a questão: os edifícios das nossas cidades estão preparados para resistir a eventos sísmicos de média e grande magnitude?

Na opinião de Humberto Varum, especialista em construção sísmica e presidente do Colégio Nacional de Engenharia Civil da Ordem dos Engenheiros, o maior risco está relacionado, sobretudo, com as construções anteriores à legislação sísmica. “Atualmente, aquilo que encontramos nas nossas cidades são um conjunto muito diverso de estruturas com características sismo-resistentes distintas e por isso temos com certeza muitos edifícios mais antigos que não foram construídos e preparados para resistir aos níveis de ação sísmica que eventualmente podem ocorrer”, disse à Smart Cities o Professor Catedrático do Departamento de Engenharia Civil da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP).

As cidades históricas e mais antigas apresentam, assim, uma fragilidade maior, como é o caso de Lisboa e da sua área metropolitana, onde quase 68% dos edifícios foram construídos antes de existir legislação de proteção sísmica eficaz, como avançou o jornal Público.

Quando às novas construções, Humberto Varum está mais otimista, embora admita que poderá haver “edifícios construídos mais recentemente com níveis de segurança não adequados”, nomeadamente quando os donos de obra ou outros agentes tiveram níveis de exigência menores. E se em vez de um sismo de 5.3, como o desta segunda-feira, tivesse ocorrido um maior, por exemplo de 6.5? “Nesse cenário, já poderíamos ter danos severos e até alguns colapsos em alguns edifícios”, acrescenta o especialista.

Para ele, o papel dos municípios é fundamental neste processo, por exemplo “aplicando os regulamentos antissísmicos com rigor e em políticas de renovação urbana, além das necessárias avaliações da segurança”, até porque, como faz questão de concluir “o conhecimento já existe, tem é de ser aplicado com mais rigor”.

Cuidado com as intervenções nos edifícios

Também António Tadeu, presidente do Itecons e responsável científico da área das Construções no Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Coimbra, considera que os maiores riscos estão associados aos edifícios mais antigos. “A evolução [na construção sísmica] tem sido muito positiva e há cada vez mais preocupações em dimensionar os edifícios. A minha grande preocupação são os edifícios construídos há muito tempo, diria há 40, 50 anos e mais velhos ainda, alguns dos quais não estão dimensionados para ações sísmicas adequadas”, afirmou o responsável do Instituto de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico para a Construção, Energia, Ambiente e Sustentabilidade.

Para o especialista, sempre que se fazem intervenções deve haver uma avaliação da vulnerabilidade sísmica das edificações. “Muitos dos donos de obra, nomeadamente municípios, acabam por tentar evitar fazer essas avaliações e, na realidade não o devem fazer. Elas devem ser feitas e com rigor”, considera.

António Tadeu acredita mesmo que alguns edifícios antigos ficaram em situação de maior fragilidade depois de intervencionados. “Toda a gente considera que as intervenções em Lisboa que utilizaram as ditas “gaiolas” foram intervenções muito bem cuidadas à data. Contudo, as intervenções que se fizeram posteriormente, nomeadamente substituindo pisos de madeira por pisos de betão armado, abrindo nas fachadas vãos para a inserção de caixilharias de grande dimensão, tornaram esses edifícios, em muitos casos, com pior comportamento sísmico”, exemplificou António Tadeu à Smart Cities.

O país acordou esta madrugada de segunda-feira (26 de agosto) às 05h11 com um sismo de magnitude de 5.3 na escala de Richter, cujo epicentro localizou-se a 60 quilómetros a oeste de Sines. Depois disso, aconteceram quatro pequenas réplicas. A Proteção Civil não tem registo de vítimas nem danos de maior.

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