Uma plataforma criada no âmbito do projeto VERA, desenvolvida em parceria com entidades portuguesas, deteta zonas de risco e valores de vulnerabilidade, durante a ocorrência de eventos meteorológicos extremos. Através do mapeamento do território e da recolha de dados de localização, a ferramenta permite prevenir perdas humanas e materiais.

A ferramenta foi criada para facilitar a atuação dos meios de proteção civil em caso de desastres naturais como incêndios, terramotos, cheias ou até acidentes industriais ou desastres nucleares. Através do mapeamento do território, desenvolvido com imagens de satélite e com dados geográficos disponibilizados pelas autarquias locais, a plataforma identifica elementos como casas ou indústrias em risco. Por outro lado, com recurso a informações do sistema global de navegação por satélite, a plataforma também permite identificar aglomerados de pessoas que, em caso de desastre natural, podem estar em perigo.

O projeto está a ser desenvolvido por entidades portuguesas, espanholas e uma instituição francesa, que começaram o trabalho de gestão de risco com o projeto VESPRA, que mereceu o reconhecimento e investimento da União Europeia. Desde fevereiro de 2024 que o projeto evoluiu para o VERA – Vulnerable Elements and Risk Assessment – financiado pelo mecanismo europeu de proteção civil da União Europeia, que acredita nas potencialidades da plataforma.

Miguel Almeida, investigador sénior da ADAI – Associação para o Desenvolvimento da Aerodinâmica Industrial – é um dos elementos portugueses envolvidos no projeto europeu. “Com esta ferramenta podemos antecipar os problemas, no caso do incêndio, por exemplo. Se for necessária uma intervenção dos meios da proteção civil, trata-se de perceber para onde se deve enviar mais meios, perceber onde é que o fogo vai ser mais intenso. No fundo, perceber quais são as áreas que merecem uma intervenção preventiva prioritária”, explica o professor e investigador.

A plataforma poderá vir a revolucionar a atuação dos meios de socorro, nomeadamente no âmbito do DG-ECHO, o mecanismo europeu de proteção civil, que acredita nas potencialidades dos valores da vulnerabilidade, que permitem quantificar o grau de perda, em função da severidade da ocorrência. “É com grande satisfação que me apercebo que a União Europeia mudou um bocadinho a sua perspetiva. Penso que se está a dar passos para que efetivamente este investimento seja aproveitado e que o projeto venha a ter continuidade”, afirma Miguel Almeida.

Como exemplo, o investigador refere as inundações em Valência, que poderiam ter tido uma melhor resposta por parte das entidades espanholas. “Imagine que tínhamos uma ferramenta onde se dizia claramente onde é que os meios de proteção civil se deveriam dirigir. Poderíamos ter salvado muitas vidas, muitos bens. Só a nível europeu, estamos a falar de 900 milhões de euros de prejuízo”, diz o investigador.

O projeto VERA tem a duração de dois anos, com prazo previsto de conclusão em fevereiro de 2026, e tem 85% de financiamento europeu. O projeto centra-se em duas zonas fronteiriças, a primeira localizada entre Espanha e Portugal e a segunda, entre Espanha e França. Destina-se a três grupos de utilizadores finais: as autoridades locais, a população em geral e instituições relevantes de proteção civil.


Este artigo foi originalmente publicado na edição n.º 45 da Smart Cities – outubro/novembro/dezembro 2024