As partes do peixe que não chegam ao prato, como espinhas, cabeças, caudas, escamas ou até mesmo vísceras, podem ser reaproveitadas e, mais do que isso, valorizadas. Se antes este tipo de coprodutos eram maioritariamente utilizados para rações animais, hoje podem ser transformados em produtos de valor acrescentado.

As várias aplicações possíveis estão neste momento a ser estudadas, mas já se fala em materiais de construção, como argamassa feita à base de conchas de bivalves, cascas de crustáceos que são transformadas em bioplástico ou simplesmente o colagénio que é altamente cobiçado pela indústria cosmética.

O projeto “Fish Matter, da cabeça à cauda”, liderado pelo Laboratório Colaborativo para a Bioeconomia Azul (B2E CoLAB), promete transformar partes descartadas do pescado em produtos de alto valor. Para isso, estabeleceu parcerias com várias entidades como o CIIMAR, o IPMA e o ISEP, que estão a avaliar o perfil nutricional dos coprodutos, e com a Universidade de Aveiro e do Minho, que estão a fazer a bioprospeção e a avaliar a aplicabilidades deste tipo de matéria-prima.

“Este projecto surge de uma necessidade eminente, não só portuguesa, mas também europeia, de combater o desperdício dos coprodutos de origem marinha. Existem coisas incríveis que já se podem fazer, como a extração de enzimas, de fatores muito particulares, que depois podem ser utilizados ou em cosmética ou na farmacêutica, por exemplo. A nossa vontade é dar o pontapé de saída para todas estas possibilidades”, explica Maria Coelho, coordenadora do B2E CoLAB.

O arranque está dado e vai no sentido de uma aproximação entre a academia e o mercado. Estão a ser identificadas as indústrias que geram este tipo de coprodutos de origem animal, as tecnologias disponíveis para os transformar e as principais indústrias interessadas na utilização deste produto de valor acrescentado. “Estamos muito empenhados em trabalhar de acordo com as diretrizes europeias, que vão ao encontro do zero desperdício, com políticas de sustentabilidade e circularidade. Já vimos a trabalhar com esta questão da valorização dos coprodutos há bastante tempo e esta é uma oportunidade para alavancar ainda mais este nosso fito da circularidade e da sustentabilidade, dentro do que é a bioeconomia azul”, afirma Maria Coelho.

Projeto com foco na valorização

No leque de parceiros, empenhados em identificar as potencialidades das sobras de pescado, está um grupo de investigadores do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). Forte em química analítica, o conjunto de especialistas analisa o que de melhor se pode retirar das sobras de peixe que chegam em forma de amostras.

Para além da caracterização nutricional, é em laboratório que se garante a segurança alimentar destes produtos. Tal como explica Cristina Delerue Matos, coordenadora do departamento de engenharia química do ISEP: “Era um volume muito grande de produtos que não estava a ser aproveitado e que apenas era dirigido para a produção de rações de animais. Queremos fazer muito mais do que isso e estamos a trabalhar com diferentes subprodutos, diferentes extratos, que podem ser incorporados quer na indústria alimentar, que é a grande vertente do projeto, mas não ignorando a possibilidade de alargar a outras aplicações diferentes”, diz.

Tendo a indústria alimentar como foco principal do projeto, a equipa de investigadores, que integra a associação REQUIMTE – Laboratório Associado para a Química Verde – está a trabalhar na identificação de propriedades ou extratos que podem ser utilizados noutro tipo de indústrias. Produtos enriquecidos em vitaminas podem servir a indústria de cosméticos, mas também os biopolímeros podem ser aplicados em embalagens de pescado, por exemplo. “Estamos a explorar ao máximo, a aproveitar estes coprodutos ou subprodutos de uma forma mais rentável economicamente. Podemos fazer propriedades bioativas, anti-inflamatórias, antioxidantes. Há de facto uma caracterização muito forte neste tipo de coprodutos”, diz a professora e investigadora do ISEP.

É em contexto laboratorial que se consegue tirar partido e rentabilizar as partes menos nobres do peixe que chegam de diferentes indústrias. Os dados consultados pela B2E CoLAB indicam que no top três de geradores de coprodutos estão as salmouras de bacalhau, as empresas de congelados e de transformação, mas sobretudo as conserveiras.

É na preparação de conversas de peixe que está muito do desperdício alimentar que pode ser evitado. Só na Conservas Pinhais, em Matosinhos, são produzidas cerca de 20 toneladas mês de coprodutos. “A Pinhais desde sempre, desde a fundação em 1920, procura o zero desperdício. É aquilo que, no dia a dia, nos desafia, uma vez que procuramos que tudo que é gerado internamente seja reaproveitado”, afirma Marco Ferreira, diretor de operações e qualidade da Pinhais.

A empresa, que até então transformava as sobras de peixe em farinha para animais, passou a trabalhar na valorização, através da integração no projeto B2E CoLAB. Como geradora de coprodutos, será uma das empresas envolvidas na plataforma inteligente que está a ser desenvolvida no âmbito do projeto. “Por um lado há geradores de coprodutos em Portugal que ainda não sabem que podem vender os seus produtos, portanto, ainda pagam para que sejam descartados. Por outro lado, algumas empresas ainda não têm presente que, se investirem neste tipo de inovação, podem estar a pôr o seu pé numa nova área de negócio muito interessante e muito rentável, de nicho, mas muito interessante e sempre muito alinhada com as políticas de sustentabilidade”, sublinha a coordenadora do B2E CoLAB. 

A primeira versão da plataforma já está concluída e, depois de um período de testes e de definição de algoritmos de matchmaking, estará disponível para ser lançada no final de 2025, início de 2026.  

O projeto Fish Matter, liderado pelo B2E CoLAB, está a ser desenvolvido no âmbito do Pacto da Bioeconomia Azul (PBA), Agenda Mobilizadora financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), e terminará no final de 2025.