Os superquarteirões de Barcelona revolucionaram a forma de encarar o espaço público e várias cidades europeias começam a seguir o exemplo, mas Lisboa ainda encara a ideia de forma tímida. Entre iniciativas que mal saem do papel e testes pontuais, o conceito vai colhendo elogios, ainda assim insuficientes para a capital dar um passo em frente.
O coração do bairro acorda diferente. Numa rua dança-se ao som de rumbas e mambos, noutra as crianças desenham no alcatrão e jogam à macaca e ali perto ainda há quem ande de bicicleta ou, simplesmente, aproveite os primeiros raios de sol na preguiça de um pufe. Tudo em plena estrada, mas sem carros, mantidos à distância durante um fim de semana inteiro. Podia ser Barcelona ou Paris, mas, afinal, é Lisboa, que fez da envolvente ao Jardim da Parada, em Campo de Ourique, uma espécie de tubo de ensaio para, quem sabe, um futuro (mas ainda distante) superquarteirão.
A junta de freguesia chama-lhe ação de placemaking porque, afinal, a iniciativa “Há mais bairro no jardim!” só durou alguns dias e não foi tão arrojada como o conceito original. Ainda assim, não esconde alguma inspiração no modelo urbanístico nascido na capital catalã, que limita a circulação de automóveis nas vias principais, devolvendo as outras ruas aos peões.
A ideia de criar um superquarteirão em Campo de Ourique ganhou forma há dois anos quando um grupo de moradores, a propósito das obras do metro de Lisboa, propôs a supressão de todo o tráfego à volta do Jardim da Parada e a transformação dos oito quarteirões circundantes numa zona de acesso local. A junta de freguesia, com o apoio da câmara municipal, testou a ideia pouco depois, embora num modelo diferente, prolongando o espaço público do jardim até às fachadas dos prédios e proibindo a presença de carros naquele local. Este verão, a iniciativa repetiu-se durante nove dias, mas com a circulação automóvel cortada apenas durante um fim de semana e limitada no restante período. Mais uma vez, milhares de pessoas aproveitaram a oportunidade para descobrir aquela nova vida do bairro, efémera é certo, mas cheia de esplanadas, espaços de lazer e atividades ao longo do dia.


Proposta de requalificação do Jardim da Parada apresentada por grupo de cidadãos
Para Rita Castel’ Branco, arquiteta, urbanista e especialista em mobilidade urbana, “ficou provado que os superquarteirões, antes de se tornarem definitivos, também podem ser implementados como uma forma de urbanismo tático, ou seja, com soluções temporárias, de baixo custo e de grande impacto, que permitem perceber a reação das pessoas e fazer com que toda a gente, dos políticos à população, imagine uma cidade diferente, cheia de crianças a brincar na rua e muita alegria, como que ocupando um vazio de forma inesperada”.
A moradora de Campo de Ourique, uma das que propôs o conceito à junta de freguesia, lembra que “só por fazerem parte do processo de decisão, as pessoas já acabam por ficar muito mais recetivas à mudança, até porque percebem que estas e outras soluções não estão a ser impostas”. “Depois, experimentem ir ter com elas e vão ver que até concordam”, acrescenta, em jeito de desafio. Assim fizemos. E, de facto, a maioria dos residentes e comerciantes parece aprovar não só a iniciativa, mas a própria ideia de superquarteirão. É o caso de Jorge Pereira, dono de uma loja de velharias em Campo de Ourique, para quem “até devia haver mais zonas do bairro fechadas durante todo o ano, para haver mais movimento pedonal, porque só se vê carros a toda a hora e apitos, por isso isto é uma coisa super gira de se fazer”. Ou dos moradores Arnaldo Nunes e José da Luz, que lembram “o sossego trazido ao bairro e a segurança para as crianças”, “por certo com mais vantagens e coisas melhores do que o estorvo causado a quem tem carros”. Mas também há quem se queixe, como a septuagenária Maria Vieira, não tanto por ela, mas pelo filho, que “se antes já tinha dificuldade em arranjar estacionamento, com estas ideias ainda pior”. “Mais vale não inventarem!”, conclui.
Para quando em Lisboa?
Gerir interesses e expetativas tem sido tarefa difícil em Campo de Ourique quando se trata de conciliar temas como espaço público, mobilidade, estacionamento e sustentabilidade. E será ainda mais quando começarem as obras do metropolitano de Lisboa, previstas para o início do próximo ano, uma vez que vão roubar espaço à estrada e ao próprio Jardim da Parada. A iniciativa “Há mais bairro do jardim!”, acabou assim por servir de teste a essas alterações, “de modo a permitir perceber qual é o impacto que as alterações de circulação da praça provocam no trânsito do próprio bairro”, explica à Smart Cities o presidente da Junta de Freguesia de Campo de Ourique, Hugo Vieira da Silva.
O responsável admite que, ao mesmo tempo, o evento também começou a preparar o debate sobre o futuro do jardim, ou seja, se depois das obras terminarem volta a haver trânsito de atravessamento e estacionamento ou outra solução. “O que é que eu gostava mesmo? Alargar totalmente a praça, de ponta a ponta, e ter tudo isto pedonalizado. O que é que eu acho que temos de fazer hoje? Garantir que o espaço público fica adaptado para os próximos passos, vendo o que está a ser feito nas grandes capitais europeias e antecipando aquilo que muito provavelmente será a evolução natural da cidade nos próximos 20 ou 30 anos”, defende o presidente da junta.
É aí que pode entrar a ideia de superquarteirão, até porque a malha urbana de Campo de Ourique é muito semelhante à de Barcelona. “De um ponto de vista conceptual, a própria câmara municipal já teve reuniões conosco e disse-nos que se fossem fazer superquarteirões havia três locais em Campo de Ourique, não digo chave na mão, mas mesmo apetecíveis. Mas isso é uma discussão conceptual. Outra coisa é falar com os moradores, estudar a viabilidade destas opções, ver o que queremos fazer e até onde queremos ir”, afirma Hugo Vieira da Silva.
E até onde quererá ir a autarquia? Em declarações escritas à Smart Cities, a vereadora com o pelouro do Urbanismo da Câmara Municipal de Lisboa, Joana Almeida, revelou que a aposta da cidade passa, sobretudo, pelo programa “Há Vida no Meu Bairro”, definido como a aplicação do urbanismo de proximidade aos bairros da cidade. Para a autarca, os objetivos deste modelo – que passam principalmente pela promoção da pedonalidade – “acabam por ser muito semelhantes aos dos superquarteirões de Barcelona, que acima de tudo são áreas da cidade onde o trânsito automóvel é reorganizado de modo a desviar os atravessamentos nos bairros para as ruas principais circundantes”.
Joana Almeida defende que “Lisboa tem seguido princípios semelhantes ao conceito de Barcelona, de aumento do espaço para o peão e promoção da vitalidade das áreas centrais dos bairros” e acrescenta que há intervenções previstas no âmbito do programa “exemplificativas destes princípios”, como a requalificação da Praça das Novas Nações, da Rua Dom José de Bragança, mas também do Bairro de Santa Catarina.
“Todos estes projetos foram selecionados por servirem áreas com concentração de tráfego pedonal, ou problemas de coexistência entre peões e tráfego automóvel, e preveem a valorização e beneficiação de espaços de circulação pedonal e de estadia e encontro para a comunidade”, conclui.
Da utopia à realidade
Há vários anos que a associação Lisboa Possível procura sensibilizar a câmara municipal, as juntas de freguesia e a opinião pública para as vantagens dos superquarteirões ou superbairros, como lhes prefere chamar. Para isso, convidou o designer gráfico e “jardineiro digital” Jan Kamensky a reimaginar (de forma virtual) um local da cidade, a exemplo do que também já tinha feito em Paris, Viena ou Nova Iorque, por exemplo. Escolheu o Largo da Madalena e criou uma utopia visual sem carros, mas com muitas árvores, pessoas a pé, um elétrico e até um lago no meio da rua, mostrando o que poderia ser uma cidade mais sustentável e amiga dos peões.
Além disso, o grupo ativista também trouxe a Lisboa Ton Salvadó, antigo diretor do Modelo Urbano do Município de Barcelona e responsável pelo início das superilles na cidade catalã. Por cá, o arquiteto garantiu que, apesar da topografia complexa de capital portuguesa, é viável implementar o conceito em Lisboa, mesmo que seja necessário fazê-lo de uma forma distinta. Salvadó andou a pé e de bicicleta pela cidade com Ksenia Ashrafullina, da Lisboa Possível, e ambos concordaram que, nesta matéria “o importante é a filosofia e não a geografia”. A representante da associação acrescenta que o principal obstáculo nunca foram as colinas, mas, acima de tudo, a falta de vontade política. “Temos falado com todas as juntas de freguesia e com a câmara municipal e facilmente percebemos que os políticos têm imenso medo de perder os eleitores que andam de carro e, especialmente antes das eleições, preferem manter as coisas como estão, não se atrevem a educar, nem querem liderar”, acusa.
O coletivo aponta o dedo, por exemplo, à junta de freguesia da Misericórdia, lembrando que tentou fechar por um dia o trânsito das ruas à volta da Praça das Flores, mas que a ideia acabou por esbarrar à última hora no “silêncio do poder político”. “Isto porque primeiro autorizou, mas na realidade não deixou fazer nada. Foi uma batota absoluta”, justificou.
Mais recentemente, conseguiu fechar ao trânsito automóvel a Rua e a Travessa dos Mastros, invocando a figura legal da manifestação, embora o evento “Com Gente Dentro” tenha sido mais que isso porque aproveitou para juntar a comunidade à volta de diversas atividades, como música ou até um workshop de fado ativista. Depois de vários fins de semana sem problemas, a iniciativa deixou de ser autorizada, mas Ksenia Ashrafullina garante que a associação, os moradores e comerciantes não vão desistir. E conclui com uma convicção: “os superbairros não são para super-heróis. São para todas as pessoas. Porque, afinal, é para elas que surgiram e ganharam razão de ser”.
Barcelona dá o exemplo
Implementadas em Barcelona a partir de 2016, as superilles, nome em catalão para superquarteirões, nasceram da ideia de juntar blocos de nove quarteirões num só, formando um quadrado de 400 metros. No interior, a prioridade é dada aos peões e às bicicletas (automóveis só para tráfego local), enquanto a maioria dos carros circula pelas vias circundantes desses blocos.
De início, o modelo gerou resistência por parte de alguns moradores e comerciantes, mas a solução acabou por conquistar todos os bairros onde houve intervenções e noutros chegou a haver petições para que, por lá, se fizesse o mesmo. A longo prazo, o objetivo da cidade espanhola é chegar aos 500 superquarteirões.
Este artigo foi originalmente publicado na edição n.º 45 da Smart Cities – outubro/novembro/dezembro 2024