A pressão do sistema alimentar sobre os recursos do planeta, a pegada ambiental da alimentação, o desperdício, a fome, a subnutrição e os problemas de saúde humana ligados à alimentação são inegáveis e tem sido crescente o destaque dado à importância de produzir mais e melhor localmente, fortalecendo os circuitos curtos e as redes alimentares locais, comendo de forma mais saudável, com menos proteína animal e desperdício.   

As evidências da insustentabilidade do sistema alimentar global são cada vez mais alarmantes e estão amplamente comprovadas e divulgadas em estudos académicos e relatórios produzidos pelas mais diversas organizações nacionais e internacionais, tanto políticas como de investigação, com destaque para o International Food Policy Research Institute (IFPRI), o Consultative Group on International Agricultural Research (CGIAR), a Food and Agriculture Organization (FAO), a Organização Europeia de Cooperação Económica (OCDE) e a União Europeia (UE), assim como por movimentos alimentares e ambientais, como o Food First ou o Slow Food.  

Por outro lado, são hoje numerosos os exemplos demonstrativos da possibilidade de trilhar vias de transição para a sustentabilidade, com pensamento sistémico, articulando segurança alimentar, eficiência energética, qualidade ambiental, adaptação às alterações climáticas, novas formas de ver a produção, a comercialização e o consumo, e modelos de governança democráticos e empoderadores.   

Trata-se de colocar as pessoas, o direito humano a uma alimentação adequada e o ambiente no centro das atenções. Por isso, há que tornar os sistemas alimentares mais resilientes, com iniciativas inovadoras que partam do diagnóstico dos territórios, vistos como espaços de negociação e de co-construção, e permitam chegar a pactos para uma alimentação saudável, sustentável e acessível, e que sejam agregadores de diversos atores.  

A construção de alternativas tem mobilizado um vasto leque de intervenientes e gerado numerosas iniciativas e projetos em todo o mundo, bem como a alteração de políticas, como a Estratégia do Prado ao Prato da UE, no âmbito do Pacto Ecológico Europeu. As cidades têm assumido um papel de relevo nestes processos, sendo exemplo o Pacto de Milão, lançado em 2015, que junta cidades de todo o mundo comprometidas com o desenvolvimento de sistemas alimentares sustentáveis, inclusivos, resilientes, seguros e diversos, que forneçam alimentos saudáveis e acessíveis, minimizando o desperdício, conservando a biodiversidade e mitigando os impactos das alterações climáticas. Este Pacto reúne 290 cidades, que representam 490 milhões de habitantes, sendo Lisboa e Torres Vedras signatárias.  

Em Portugal, outras cidades e regiões têm-se mobilizado por esta causa, sendo de destacar: a Área Metropolitana de Lisboa, que definiu uma estratégia de transição alimentar para a sustentabilidade, assente na organização da produção, distribuição e consumo e na valorização dos resíduos alimentares; o Porto, que tem em curso o projeto “Good Food Hubs – Asprela + Sustentável”, sob o mote “Muda a tua alimentação. Transforma o mundo”; e a Região do Algarve, que está a implementar o projeto REVITALGARVE, com intervenções nas áreas de produção, processamento, distribuição, abastecimento, organização, comercialização e consumo de alimentos, tendo também criado a Rede de Mercados Municipais.  

Mais exemplos poderiam ser citados, refletindo intervenções muito diversas e espalhadas por todo o País, desde a criação de hortas comunitárias e sociais ao abastecimento de cantinas escolares e outras por produtores locais, passando pela revitalização de mercados e feiras de venda direta, pela dinamização da agricultura de proximidade e pela educação alimentar de crianças e jovens.  

Neste quadro desafiante foi criada, em 2022, a Alimentar Cidades Sustentáveis Associação(ACSA), com o objetivo contribuir para a construção coletiva de conhecimento fundamentado e plural e para informar einfluenciar as decisões e políticas públicasque conduzam a sistemas alimentares mais sustentáveis, comimpactos ambientais, económicos e sociais positivos. 

 

Foto de Destaque: Good Food Hubs


Este artigo foi originalmente publicado na edição n.º 46 da Smart Cities – janeiro/fevereiro/março 2025