O A cidade educadora exige uma reflexão crítica sobre a interligação das políticas. Falta-nos a visão de que a educação transcende as paredes das escolas, que deve assentar um olhar sistémico e holístico que valoriza o hoje, mas projeta o amanhã.
Perceber e explicar como estão as cidades preparadas para as crianças, da mobilidade à qualidade dos espaços verdes e de brincadeira, passando pela segurança faz-me rebuscar e citar o preâmbulo da Carta das Cidades Educadoras que enuncia que: “De uma forma ou de outra, a cidade apresenta elementos importantes para uma educação integral: é um sistema complexo e, ao mesmo tempo, um agente educativo permanente, plural e poliédrico, capaz de potencializar os fatores educativos e de transformação social. Na Cidade Educadora, a educação transcende as paredes da escola para impregnar toda a cidade. Uma educação para a cidadania, na qual todas as administrações assumem a sua responsabilidade na educação e na transformação da cidade num espaço de respeito pela vida e pela diversidade.”
Essa missiva de cidade educadora exige uma reflexão crítica construtiva sobre a interligação das políticas, em prol de um desenho de cidade de e para todos, no geral, e das crianças no particular.
No que concerne aos espaços verdes e de brincadeira, foco Carlos Neto, relembrando a sua conhecida frase, dita no decurso de uma entrevista ao expresso em 6/4/2019 que “A rua está em vias de extinção. Olhamos para a cidade e já não vemos crianças a brincar. Passeiam-se mais os cães do que as crianças.” Importa assim planear parques infantis apelativos para as crianças e famílias, que não somente sejam instalados, mas garantida a sua manutenção e sensibilizado, pelo poder local, o recurso à sua utilização. Com pouco se pode fazer muito e, em 2010, assisti a práticas sócio educativas na cidade de Guadalajara, México, que mostravam isso mesmo. Redes de andebol, bolas gigantes, balizas portáteis de futebol, umas bolas, “miúdos e graúdos na rua” a fazer atividade física, a se divertirem em conjunto, enquanto estimulavam e treinavam competências pessoais e sociais.

Espaços que sejam para todos, é outro desafio pois a inclusão continua a ser um caminho a percorrer tendo-se muitos locais de brincadeira e laser por adaptar às crianças com necessidades de saúde especiais. Adequar não significa colocar um equipamento para as mesmas, mas sim construir um espaço em que todos possam usufruir de grande parte. Zonas que conjuguem jogos “tradicionais” com ideias e experiências das “modas virtuais” pois vivemos numa sociedade em mudança em que também na área verde e de brincadeira importa modernizar.
Na Noruega visitei inúmeros parques infantis, na cidade de Oslo, com trampolins no chão, elementos de equilíbrio, de trepar, saltar. Espaços simples, sem grandes “equipamentos”, em que se via quem transitava “experimentar o equilíbrio” e seguir o seu caminho. Esta é, na minha opinião, uma questão cultural que temos que sensibilizar, enquanto cidadãos, mas que a política tem de potenciar. Está cruzada com as políticas de habitação e mobilidade, que no nosso pais nem sempre atenderam à inclusão.
Construíram-se vários ciclos de habitação, inclusive social, que não contemplavam espaços verdes e de brincadeira suficientes para a dimensão do edificado. Muitos contextos, de supostas práticas inclusivas como a alta de Lisboa, são compostos por condomínios com parques infantis e piscinas entre quatro paredes, e, algures no redor dos prédios sociais um parque infantil. Na minha prática profissional, que conta com mais de 20 anos, tenho assistido a várias ocupações dos parques das escolas por crianças que querem brincar, pois na comunidade ou não existem, ou estão estragados. Voltamos ao ponto inicial, uma cidade para ser para todos deve englobar todos tendo-se vários contextos urbanos, em plena Lisboa, que me atrevo a dizer que a cidade não está preparada para as crianças (assim como também não está para os idosos, e para as pessoas de mobilidade reduzida).
Falta-nos a visão, política, de que a educação transcende as paredes das escolas, que deve assentar num olhar sistémico e holístico que valoriza o hoje, mas projeta o amanhã. Uma cidade de todos e com todos, que se recrie olhando para os objetivos do desenvolvimento sustentável, declaração universal dos direitos da criança e outros instrumentos norteadores mas, sobretudo, que olhe para as crianças como os adultos de amanhã. Uma cidade que cultive cidadãos, para viver em cidadania!
As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.
Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 44 da Smart Cities – julho/agosto/setembro 2024, aqui com as devidas adaptações.