A estufa comunitária de Alvalade transforma-se num espaço de aprendizagem ao receber um grupo de meninas da comunidade cigana. Enquanto plantam e brincam, nasce um terreno fértil para a integração social e, no final, todos crescem: os legumes, mas também as crianças, que contribuem para uma cidade mais saudável e solidária.

Ana, Joana e Maria, chamemos-lhe assim, vivem no centro de Lisboa, mas estão habituadas a mexer na terra. Dizem que gostam de aproveitar os espaços verdes do bairro para construir castelos, mexer na lama e brincar às hortas. Mas nunca tinham plantado um legume a sério até entrarem na estufa comunitária de Alvalade, um espaço de agricultura urbana criado pela associação Upfarming, no parque hortícola Aquilino Ribeiro Machado. 
 
A timidez das primeiras visitas já lá vai e, desta vez, nem elas, nem as outras sete meninas do grupo hesitam à pergunta da praxe: “Querem mexer na terra?” Siiiim!, respondem quase todas em uníssono, até porque já sabem o que aí vem. Enquanto uma parte separa a salsa, os rabanetes, os espinafres e os canónigos, a outra vai preparando a terra, para depois fazer a plantação nas prateleiras metálicas que compõem a estrutura desta horta vertical. Segue-se a rega, uma das tarefas preferidas da maioria e, depois, é só repetir o processo. Na última visita apenas tinham conseguido plantar duas filas, mas desta vez foram cinco, sinal de que estão a aperfeiçoar a técnica. Gosto muito de aqui vir, principalmente de fazer os buracos na terra e depois pôr a água”, conta Ana, de sete anos, enquanto Joana, com a mesma idade, diz que “é muito divertido sujar as mãos, regar e separar as plantas, que um dia vão crescer para depois comermos”.  

Pequenas agricultoras aprendem a distinguir as plantas na estufa comunitária de Alvalade

Além de dois técnicos da Upfarming, as crianças são acompanhadas por vários adultos, entre eles uma assistente social do Centro Social e Paroquial do Campo Grande. Andreia Carvalho revela que “ao início o grupo visitava a estufa de vez em quando, mas as crianças gostaram tanto que ficou acordado passarem a vir uma vez por mês. Elas acham isto incrível, adoram mexer na terra, tocar e perguntar, sempre cheias de curiosidade” Além disso, “algumas também vão ao nosso banco alimentar com os pais e quando eles escolhem as alfaces e outros legumes, fazem questão de lhes dizer, com uma pontinha de orgulho, que deram uma ajuda na plantação”, acrescenta.  

A par do entusiasmo, durante as quase duas horas de visita, sobressai ainda o afeto que as pequenas agricultoras sentem pelos legumes – algumas fazem-lhes festinhas, “para crescerem melhor” -, mas também pela equipa da Upfarming, que retribui com boa disposição e uma dose de informação didática, explicando-lhes os benefícios da agricultura biológica e da proteção da natureza. De forma simples, mostramos-lhes as diferentes partes das plantas, como crescem e absorvem os nutrientes, além dos benefícios da alimentação saudável. E, claro, queremos que ponham as mãos na terra, como já se vê pouco na cidade”, afirma a gestora de projeto Madalena Horta, que sublinha ainda o impacto gerado pela atividade na comunidade jovem. Afinal, tal como os legumes e aromáticas desta estufa, também a dimensão social do projeto ganhou raízes e vai crescendo devagar, quase sem se dar por isso, de forma natural.


Este artigo foi originalmente publicado na edição n.º 46 da Smart Cities – janeiro/fevereiro/março 2025