Portugal poderá ser um dos países da Europa mais atingidos pelo aumento de mortalidade associada ao calor, diz um estudo científico publicado na revista The Lancet Public Health. O trabalho, que recolheu e comparou dados de 854 cidades europeias projeta que, a manterem-se as atuais políticas climáticas globais, as mortes por calor no nosso país poderão subir de 1.008 para 2.284 por cada 100 mil pessoas até ao ano de 2100. Isto, tendo em consideração o cenário de um aquecimento global de 3°C.

Partindo da mesma previsão, em toda a Europa o número de mortes até ao final do século poderá triplicar, passando das atuais 43.729 para 128.809 e atingindo sobretudo os países do Sul, como Portugal, Espanha, Itália, Grécia e algumas partes de França. Tal como já acontece atualmente, os idosos e doentes vão continuar a ser os mais afetados, o que leva ao alerta dos especialistas. “Há uma necessidade crítica de desenvolver políticas mais específicas para proteger estas áreas e os membros da sociedade mais vulneráveis às temperaturas extremas”, afirmou o investigador do Centro Comum de Investigação (CCI) da Comissão Europeia, David García-León.

Os autores do estudo lembram ainda que “as cidades são particularmente afetadas pelos fatores de stress ambiental e pelas alterações climáticas”, e preveem que as diferenças socioambientais, económicas e climáticas entre elas “conduzam a maiores variações da vulnerabilidade aos riscos associados às temperaturas”.

Atualmente, morrem oito vezes mais pessoas de frio do que de calor na Europa, mas a proporção de mortes causadas pelo frio e pelo calor “vai mudar drasticamente durante este século, com um aumento das mortes atribuídas às altas temperaturas em todas as partes da Europa”, alertou Juan Carlos Ciscar, também investigador do CCI.

Já no que diz respeito às baixas temperaturas, e partindo do mesmo cenário, as mortes atribuídas ao frio na Europa poderão baixar ligeiramente, passando de 363.809 para 333.703 em 2100. No caso específico de Portugal, o decréscimo é mais acentuado, diminuindo de 7.345 (nas condições atuais) para 4.682 (subida de 3°C).

Em sentido contrário, países nórdicos como a Noruega ou a Suécia, mas também a Irlanda, poderão ver aumentar o número de mortes devido às baixas temperaturas. Também neste caso, os investigadores acreditam que este aumento estará diretamente relacionado com o envelhecimento da população nestas regiões.

Fotografia de destaque: © Shutterstock