As miniflorestas urbanas estão há poucos anos em Portugal, mas o terreno fértil que fornecem às cidades para a renovação ambiental e social tem atraído cada vez mais atenção. Na esfera académica, o fenómeno não passa despercebido, e chega, agora, ao campus do ISEG.
Num terreno baldio do campus do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) antecipa-se a criação de uma minifloresta urbana. Ao longo dos próximos dois ou três anos, o espaço vai ser transformado num ecossistema de diversas árvores nativas e em equilíbrio com o meio ambiente. Tudo isto num espaço de 300 m2 e pela mão da comunidade.
O objetivo é co-desenhar e co-desenvolver um espaço que promova não só a descarbonização, a biodiversidade e a permeabilidade da cidade, como também a ligação de quem frequenta o ISEG à natureza e, em última análise, o bem-estar. A situar-se ao lado da biblioteca, a futura minifloresta visa ainda ser também um lugar de criação e partilha de conhecimento e uma fonte de inspiração para a ambição climática.
“Em vez de tentarmos só reduzir a destruição [ambiental] que causamos, tentamos regenerar, ter um impacto positivo, criativo”, elucida Oriana Rainho Brás, antropóloga e investigadora no SOCIUS – Centro de Investigação em Sociologia Económica e das Organizações, do ISEG. A ideia é acolhida no âmbito do projeto TERRARE: investigação-ação para a regeneração eco-social, de que Oriana é coordenadora, a que se aliaram os interesses do ISEG Sustainability e a experiência pioneira da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) na implementação de miniflorestas em Portugal, e da empresa de serviços de adaptação às alterações climáticas 2adapt e a parceria da Valorsul.
PENSAR E FAZER
De uma “tarefa zero”, interna, de análise inicial do terreno (plantas existentes, tipo de solo, exposição solar, disponibilidade hídrica), até à plantação de espécies autóctones, criar uma minifloresta inclui uma série de passos. E, no caso da minifloresta do ISEG, na freguesia da Estrela, inclui também um conjunto de oficinas eco-sociais para envolver a comunidade nesse processo. A primeira, aberta a todos os interessados, aconteceu no dia 25 de outubro. Começou com nove pessoas a apresentarem-se como um “elemento” da futura minifloresta através da seleção de um cartão-retrato de uma espécie, por exemplo, um sobreiro, e a ficarem a conhecer melhor o conceito e o projeto, e terminou no terreno, com alguma limpeza de espécies invasoras.
“Quando soube que íamos pôr as mãos à obra e participar na floresta, fui logo aproveitar”, sublinha Alexandre Sacramento, aluno de management do ISEG e representante do Departamento de Responsabilidade Social da Associação de Estudantes. Oriana Rainho Brás aponta para esta forma de “pensar e fazer ao mesmo tempo” como a metodologia escolhida para o projeto: “Há aqui este trabalho de tentar integrar várias dimensões no processo da oficina para que seja uma aprendizagem incorporada. Ou seja, em que o meu corpo está envolvido em aprender – qual a espécie que estou a ver, a folha que estou a cheirar, como a árvore reage.”
As próximas sessões serão ainda mais práticas, com o trabalho de co-desenhar a minifloresta, percebendo quais os desejos dos participantes para o espaço. Além das plantações, serão incluídas zonas sociais que poderão ser usadas para estar, comer, ler ou até para ter aulas, por exemplo. “Os professores poderiam fazer uma ligação com o espaço e com a matéria ou poderíamos estar simplesmente sentados lá fora. Acho que isso seria uma iniciativa muito saudável e que teria uma grande adesão”, realça o aluno de 22 anos, das Caldas da Rainha.
As expectativas são elevadas. “Podermos fazer uma pausa, ir a um espaço verde, respirar ar puro, ler um livro à sombra de uma árvore são pequenas coisas que na cidade acabamos por não conseguir fazer tanto. No meu caso, e no de muitos dos meus colegas que não são de Lisboa, estamos habituados a espaços mais verdes. Conseguirmos ter este contacto com a natureza vai ter um efeito positivo na nossa saúde mental”, antecipa Alexandre Sacramento.

© Oriana Rainho Brás
A par do co-desenho do espaço, António Alexandre, biólogo da FCUL, descreve que será necessário preparar o terreno para iniciar a plantação em Dezembro. Como é que isto se faz? Primeiro, eliminando espécies invasoras e “preservando [e podando] as espécies que já lá estão, especialmente as arbóreas, até pela sombra”. Depois, delimitando as zonas de plantação e as zonas sociais que foram definidas nas oficinas. Na fase seguinte, será importante melhorar e enriquecer o solo, com algum composto e uma manta morta (uma cobertura feita de folhas e uma “espécie de palha”), para, então, plantar as espécies nativas nos locais delimitados.
A plantação seguirá o método do botânico Akira Miyawaki, cujos princípios orientam para a “abundância” e para a “aleatoriedade na plantação”, a “imitar a natureza”, indica o biólogo. Através desta técnica de arborização, será possível fazer em 30 anos aquilo que, pela reflorestação tradicional, demora cerca de 200 anos. É uma espécie de “hack” da natureza, como lhe apelida Alexandre Sacramento.
Não obstante estes princípios, a minifloresta vai ter alguma “plantação mais controlada” no sentido de se cingir aos espaços delimitados para não danificar infraestruturas nos arredores e possibilitar as zonas sociais definidas pela comunidade e um caminho. “É um exercício também de visão para o futuro”, diz António Alexandre, ao adiantar que o objetivo é tornar o espaço autossuficiente.
Após a plantação, a minifloresta contará com um trabalho de manutenção de dois ou três anos, que envolve rega, algum controlo de aparecimento de espécies invasoras e alguma limpeza e eventual replantação, para, no final desse período, se cortar a rega. “Achamos que [nessa altura] já vamos ter um espaço resiliente que se consiga aguentar com as ondas de calor”, refere António, acrescentando que o terreno no ISEG, ao ser plano, não carece da criação de zonas de retenção de água.
LABORATÓRIOS VIVOS QUE “TREINAM O OLHAR”
Em Portugal, as miniflorestas urbanas são uma abordagem recente, com dois a três anos, mas atraem cada vez mais atenção pela capacidade de ajudar a colmatar alguns desafios que as cidades enfrentam. “A plantação de miniflorestas é uma clara ação climática”, sublinha David Avelar, também biólogo da FCUL, apontando para o contributo destes pequenos “locais de atração e catalisação da biodiversidade [plantas, insetos, micromamíferos, passeriformes]” também para o sequestro de carbono atmosférico e para a adaptação às alterações climáticas, com a atenuação do efeito ilha de calor e de cheias, por exemplo, já que os espaços verdes facilitam a regulação das temperaturas e a infiltração de água no solo, e com a melhoria da qualidade do ar. Já a nível social, “as miniflorestas, quando pensadas e implementadas pela comunidade, reforçam os laços da mesma a cada obstáculo ultrapassado, como trabalhos duros de preparação do solo, rega e manutenção, conquistas partilhadas, como a transformação e requalificação de um espaço, e criam locais de reunião, lazer e usufruto pela comunidade”, destaca David Avelar.
Há ainda um potencial educacional. “Podem ser vistas como laboratórios vivos, sobretudo quando implementadas em ambientes escolares, e, por isso, utilizadas como objeto de estudo de experiências científicas, locais de transmissão de conhecimento (…) ou mesmo espaços de exploração”, acrescenta.
“São um terreno fértil”, afirma Gabriel Londe Medeiros, responsável por projetos de implementação de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no ISEG. Além de prestarem “serviços de ecossistema”, podem servir de instrumento de análise para estudantes de mestrado e doutoramento de diferentes áreas e instituições que queiram estudar, por exemplo, o impacto destas iniciativas nas emissões de CO2, no bem-estar, na valorização económica de edifícios adjacentes, nos custos que acarretam, na vida de determinada espécie ou na possibilidade de integrar outros mini-projectos de hotéis de insetos ou de ciência cidadã.

© Oriana Rainho Brás
Mas o impacto vai além do ISEG. O “valor agregado” deste tipo de iniciativas reside, segundo o responsável, no conhecimento adquirido que não é obtido na sala de aula. “Isto treina o olhar. As pessoas que participam começam a olhar para a cidade de outra forma e começam a perceber que espaços poderiam ser alocados a este tipo de iniciativas.”
Com a vantagem, adiciona Oriana Rainho Brás, de que, neste tipo de “laboratórios abertos” se pode “começar pequeno” e expandir a partir daí. “A questão ecológica é tão grande que até pode ser bloqueadora. Isto dá uma capacidade de ação muito grande porque percebemos que não é preciso fazermos uma super ação ou uma super mudança. Podemos fazer pequenos espaços com muito impacto positivo, com capacidade de criação.”
“INVESTIMENTO É BAIXO PARA UM GANHO MUITO GRANDE”
Quanto é preciso investir para cruzar o verde, o humano e a cidade? No caso da minifloresta do ISEG, ainda não há valores que possam ser adiantados, mas, na experiência de António Alexandre, a resposta depende do número de parcerias, podendo variar, para um espaço de 300 m2, “entre 500 euros e até um valor muito mais alto”. “Quantas mais parcerias existirem, mais barato se torna implementar espaços como estes” e há interesse dos agentes, como câmaras municipais, juntas de freguesia e empresas de valorização de resíduos, em contribuir para os tipos de recursos necessários a estes projetos (plantas, composto, manta morta e materiais). “Na FCULresta [em que David Avelar e António Alexandre participaram], sete de nove meses foram dedicados a angariar pessoas. Tivemos 27 parceiros, e a nível de materiais, incluindo plantas, incluindo tudo, gastámos 600 euros”, conta António Alexandre para advogar em favor destas soluções: “Isto pode ser algo que é muito económico e que pode ser replicado a uma escala gigantesca”.
No ISEG, as parcerias ainda estão a ser estabelecidas para tornar o projeto mais resiliente e atrativo economicamente, mas a instituição mostra-se disponível para cobrir os custos necessários. “O investimento é baixo para um ganho muito grande”, considera Gabriel Londe Medeiros.
Reiterando que “há uma contribuição deste tipo de projetos para os objetivos do desenvolvimento sustentável”, António Alexandre remata que essa visão tem de ser suportada pela comunidade. “A comunidade somos todos. Todas as pessoas, com os vários papéis que têm, podem ter um impacto real no aparecimento de mais espaços como este”, conclui.
No que aos agentes locais como autarquias, empresas, entidades públicas e escolas diz respeito, David Avelar reforça o “papel ativo” que podem ter para desbloquearem, em partes do território desaproveitados, “um potencial de contágio enorme, naquilo que poderá vir a ser uma rede de miniflorestas local, regional, nacional ou mesmo internacional”.
FCULRESTA
A minifloresta pioneira da FCUL, com mais de dois anos, já apresenta resultados: uma taxa de sobrevivência das plantas de 69%, bastante regeneração espontânea, um aumento de biodiversidade animal, em particular de macroinvertebrados, e várias visitas de diferentes agentes, descreve David Avelar. Tem também apoiado projetos similares, incluindo a criação de 13 novas miniflorestas na grande Lisboa, em contexto
escolar e não só. Neste contributo à disseminação, no âmbito do projeto 1Planet4All, que serviço de berço à FCULresta, David Avelar e António Alexandre editaram o guia MiniFlorestas para MegaAprendizagens – Um guia para a integração da biodiversidade urbana no ensino, disponível para consulta gratuita.
Fotografia de destaque: © ISEG
Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 41 da Smart Cities – Outubro/Novembro/Dezembro 2023, aqui com as devidas adaptações.
