Líderes e representantes de quase todo o mundo e mais de 80 mil delegados reúnem-se a partir desta quinta-feira e até 12 de dezembro na 28.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, a COP28. O Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (um dos maiores produtores de petróleo do Mundo), recebe uma Cimeira do Clima à procura de consensos e soluções, mas em que um acordo final deverá ser “tarefa árdua”, como admitiu há poucos dias o Comissário Europeu para o Clima, Wopke Hoekstra.
O encontro vai avaliar a ação climática mundial nos últimos oito anos, desde 2015 (ano da Cimeira de Paris) até 2023, analisando diferentes matérias sensíveis. Entre elas estão a redução de Gases com Efeito de Estufa (GEE) e a adaptação às alterações climáticas, mas também o mercado de carbono à escala global e o mecanismo de financiamento de “perdas e danos”, que permita aos países mais pobres lidar com as catástrofes climáticas. Simultaneamente, deverão ser discutidos temas como as metas das energias renováveis e o fim dos combustíveis fósseis, o combate às emissões de metano e o aumento de produção da energia nuclear que, segundo a França, poderia ajudar a cumprir a meta da redução de GEE.
Antevendo compromissos difíceis, o presidente da COP28, Ahmed Al Jaber, já afirmou que a cimeira “é uma excelente oportunidade para repensar e reorientar a agenda climática”, apelado a todos que priorizem “os esforços para acelerar as reduções de emissões por meio de uma transição energética pragmática”. Também António Guterres, Secretário-Geral da ONU lembrou que se trata de uma hipótese única para decidir “a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis num prazo adequado”, respeitando o objetivo do acordo de Paris em manter o aquecimento abaixo de 1,5 graus celsius. O líder das Nações Unidas apelou ainda a um maior compromisso com a energia renovável e à melhoria da eficiência energética das redes e das tecnologias existentes.

Portugal ganha visibilidade
Pela primeira vez numa COP, Portugal marca presença na cimeira com um pavilhão próprio. O stand luso, organizado pelo Ministério do Ambiente e Ação Climática, estará situado na Zona Azul, administrada pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (UNFCCC) e deverá acolher mais de três dezenas de iniciativas durante a cimeira. Vai juntar um conjunto de entidades nacionais públicas e privadas, sem esquecer as ONGs ambientais, fundações e representantes da sociedade civil, bem como receber vários eventos organizados por outros países de língua oficial portuguesa, como Cabo Verde.
A decisão de Portugal ter um espaço próprio tinha sido anunciada durante a COP27, que decorreu em Sharm el-Sheikh, no Egito, e justificada com o objetivo de criar um local de partilha de experiências e resultados nacionais na área da transição energética, da mobilidade e da biodiversidade.
A inauguração do pavilhão de Portugal está marcada para 1 de dezembro (sexta-feira), numa cerimónia com a presença do primeiro-ministro, António Costa, e do ministro do Ambiente e Ação Climática, Duarte Cordeiro, além de outros membros do Governo. Nesse dia, o pavilhão de Portugal vai centrar-se nas temáticas da energia, com destaque para o lançamento da versão portuguesa do sumário executivo do relatório da Agência Internacional de Energia sobre financiamento das energias limpas em África. Nos dias seguintes, irão suceder-se inúmeras iniciativas, sobre temas como a transição colaborativa e a participação pública na ação climática, os desafios da neutralidade carbónica nos Açores, o papel das mulheres pelo clima nos países de língua portuguesa ou o turismo e os oceanos.
O espaço luso também servirá de montra a várias empresas portuguesas, como a Fidelidade, que organiza um evento no dia 3 de dezembro com o tema “De mim para nós: Transição Colaborativa”, onde estarão presentes diversos especialistas e atores nacionais e estrangeiros. A agenda da empresa inclui ainda a apresentação de diversos projetos, como o Net Zero Plan ou o Center for Climate Change, um centro de conhecimento sobre os riscos das alterações climáticas. Já a EDP levará à COP vários projetos desenvolvidos em Portugal, como a central Solar Flutuante do Alqueva, mas também noutros países, caso de um projeto de energia limpa no deserto do Arizona (Estados Unidos).
A temática da mobilidade estará, igualmente, em destaque, contando com a presença de diversas entidades, como o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), o CEiiA – Centro de Engenharia e Desenvolvimento, e a rede nacional de carregamento de veículos elétricos, a Mobi.e. O programa nacional integra também iniciativas e eventos de fundações, como a Gulbenkian ou a Oceano Azul, e de associações ambientalistas, nomeadamente a ANP/WWF (Associação Natureza Portugal/World Wildlife Fund) e a ZERO.
Ambientalistas com expetativas moderadas
Em vésperas do arranque da cimeira, a Smart Cities falou com o presidente da ZERO, Francisco Ferreira, sobre as expectativas que leva para o Dubai, onde estará de 5 a 14 de dezembro (dado que o encontro poderá estender-se para além do inicialmente previsto). O dirigente antecipa que os resultados finais “fiquem longe do desejável”, mas, ainda assim, acredita que “possam surgir avanços importantes, mesmo que pequenos”.
O ambientalista sublinha, desde logo, a urgência de limitar o aquecimento global a 1,5 graus celsius, invertendo a tendência de aumento da temperatura até 2025, mas também de se imporem metas mais ambiciosas aos combustíveis fosseis. Nessas, como em outras matérias, Francisco Ferreira diz que “vamos ficar muito longe do que seria necessário, mas marcar passo, ou seja, ficarmos iguais, acho que não acontecerá”. “Provavelmente, vamos só acelerar um bocadinho, mas se conseguirmos ter conclusões que depois possam ser utilizadas noutra concertação à escala mundial, isso já seria muito positivo e até há alguma esperança que possa venha a acontecer”, concretiza.
Para ele, as ausências do presidente norte-americano, Joe Biden, e do líder chinês, Xi Jinping, poderão ser sintomáticas da ausência de consensos. Já sobre a presença nacional da cimeira, diz que a existência de um pavilhão português na COP “é um passo muito significativo, porque permite proporcionar um conjunto de iniciativas muito alargado e contribuir para se mostrarem bons exemplos e soluções”. Sobre o papel de Portugal nas negociações, entende que “era importante, pela sua própria ambição climática, que o país pudesse ter um papel mais ativo, mas dadas as circunstâncias políticas e o próprio tempo de preparação para esse papel, ainda não vai ser possível nesta conferência do Dubai”.
Notícia atualizada às 11h10 do dia 29/11
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