Cada vez mais, a Humanidade interpreta a realidade em frente à TV ou nas redes sociais. Com um conflito bélico em curso na Europa e a ascensão de uma máquina de inteligência artificial (IA), que se tornou popular pela facilidade com que pode enganar humanos – que já pouco ou nada leem além das “gordas”, do Twitter ou de outros ‘copy’ simples – , a Humanidade tornou-se, possivelmente, num alvo fácil para quem está no ‘comando’ das ditas ferramentas e dos respetivos conteúdos.

Também no que diz respeito à governação, parecemos estar numa encruzilhada. As filosofias opostas do multilateralismo vs. globalismo estão ao rubro, muito por culpa da ação russa na Ucrânia.

Se antes apenas conseguíamos ver a ponta do icebergue, este começa agora a emergir a uma velocidade estonteante. Mistura-se tudo nas águas do “politicamente correto”, da “participação cidadã”, da necessária “discussão científica” ou da evolução tecnológica que faz perigar os sistemas democráticos tradicionais em direção a lideranças e governos autocráticos e cada vez mais limitadores dos direitos e das liberdades dos cidadãos, que, recorde-se, vivem, muitos deles, numa letargia mediática e assombrados pelo custo de vida e pelas dificuldades de ter uma casa condigna, de constituir família, de criar filhos e de manter uma carreira. Há exceções, claro. Haverá sempre exceções. Contudo, estas exceções caminham na sombra e muitas delas abusam do poder e do estatuto, que, em muitos casos, lhes é conferido pelo voto, ou, então, pelas alegadas competências e qualificações ou pelo reconhecimento.

Tenho vindo a tentar escrever mais sobre as questões éticas e filosóficas deste “admirável novo mundo”, que, afinal, parece ter mais anos do que as sesmarias, e esbarro-me sempre neste conflito entre mundos que muitos querem em sintonia com os “valores ocidentais” e que outros afirmam de que ninguém é dono ou proprietário. Só que, sim, há donos e proprietários, e são conhecidos. A escravatura foi abolida, mas existirão sempre escravos e alguns de forma voluntária.

Nas últimas semanas, os maiores gigantes tecnológicos de Silicon Valley (e não só) anunciaram despedimentos em massa. Alphabet (dona da Google), Amazon, Meta (Facebook), Twitter e Microsoft irão despedir milhares de funcionários “para reduzir custos e prepararem-se para uma possível recessão”. A estas grandes empresas, juntaram-se muitas outras mais pequenas, mas influentes, que irão juntar mais alguns milhares de funcionários despedidos. Refira-se que todas estas empresas estão representadas (e financiam) no World Economic Forum (WEF), essa entidade supranacional, transformada numa espécie de think-tank que ninguém se atreve a criticar – numa mistura de lobismo com uma influência cada vez maior no mundo ocidental, sobretudo, nas democracias da Europa e da América do Norte, mas também com influência, em tempos, na China e na Rússia. Ou, pelo menos, tentativa.

A agenda dos despedimentos não esteve em discussão certamente no último fórum de Davos, que a WEF organiza anualmente em Janeiro, mas, garantidamente, os presentes estiveram empenhados em encontrar soluções para “um mundo melhor”, com alguns, inclusive, a arvorarem-se “alienígenas” e “especiais”, por exemplo, no combate às alterações climáticas. Foi o caso de John Kerry – sem dúvida, um portentoso representante da divindade e virtuosismo. Outros mais comedidos enfatizaram a necessidade de retomar o processo dos “Certificados de Vacinação” como opção tecnológica relevante para controlar quem pode e quem não pode fazer algo num mundo distópico em que as máquinas serão incorruptíveis e infalíveis (pelo menos, para alguns).

O ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, do alto da sua honrada e histórica verdade sobre as “armas de destruição massiva” no Iraque, quer, pelos vistos, ser o novo chefe do WEF, que já não aguenta mais a má imagem do Klaus Schwab e do seu “Great Reset”. Blair é mais “polido”, uma figura mais esponjosa e popular que pode contribuir para influenciar estas novas medidas e iniciativas distópicas junto de governos e nações, muitas delas, também governadas por Young Leaders, autênticos Frankensteins “paridos” em Davos e imbuídos do espírito de missão para “salvar o mundo”. Sem dúvida de que esta é uma missão honrosa e que, naturalmente, recolhe aplausos e apoios das massas – as mesmas que irão ser despedidas e com direito a um subsídio dos respetivos Estados que já tinham entregado (em alguns casos, a fundo perdido) às mesmas empresas biliões em incentivos para promoverem a criação de empregos. Este deve ser, afinal, o real significado de precariedade.

Poderemos assistir, nos próximos anos, ao lançamento da smart city num processo autoritário e voltado para o controlo e a limitação de liberdades ao invés do oposto, que seria o seu original objetivo.

Chegados aqui, sobra a tecnologia. No limite, como se observou recentemente na China e durante a pandemia, haverá portas trancadas à distância, estradas e acessos cortados, contas bancárias congeladas (que também existiram no Canadá), associadas à hipervigilância de dados e locais. As cidades serão o palco.

Assim sendo, poderemos assistir, nos próximos anos, ao lançamento da smart city num processo autoritário e voltado para o controlo e a limitação de liberdades ao invés do oposto, que seria o seu original objetivo. Afinal, quantos de nós não encheram a boca de “smart cities para as pessoas” ou de “primeiro as pessoas”?! Pois, efetivamente, as pessoas são o principal problema porque, ao contrário de uma qualquer IA, as pessoas sofrem, têm sonhos, têm depressões e explosões de felicidade. Têm sentimentos, que, pelos vistos, alguém, a todo o custo, quer moldar, limitar ou cancelar.

Os factos de termos tido uma pandemia, de termos uma guerra, de nos acenarem novamente com o fim do mundo por causa da ação humana são apenas o combustível para fomentar medos, culpa, divisões e distrações. E, entretanto, cancelam cartões e contas bancárias, cortam a água, a eletricidade e o gás remotamente, retiram acesso a crédito bancário e, podem, inclusive, proibir os carros elétricos de circular (os outros já o proíbem em certas zonas). Tudo para o “nosso bem”.

Os futuros governos estão nesta encruzilhada e não conseguimos dizer qual o melhor modelo, por enquanto. Uns preferem ter, no futuro, um governo apoiado pelos dados, pelas máquinas, pela desresponsabilização dos eleitos enquanto executores, do que os “dados nos dizem” manipulando os resultados, garantindo credibilidade sustentada por modelos e projeções matemáticas sobre cenários hipotéticos no futuro que nunca se concretizarão. Este tipo de governação iniciou-se em 2020 e vai progredir, crescer, talvez, mas desejo, sinceramente, que não tenha futuro.

O segundo modelo, humanizado e respeitador dos valores e das liberdades individuais irá promover educação e debate entre todos os cidadãos em condições de igualdade. Será um modelo que aproveitará ao máximo a tecnologia para, realmente, concretizar os sonhos dos visionários e dos génios que engrandecerão a ciência respeitando a diferença e aceitando o debate, a crítica e a contradição normal de quem não sabe tudo. Um processo mais longe do tal “socialismo woke” gerado em Davos e mais próximo da rebeldia dos grandes anarquistas que debatem valores humanos de igual para igual e respeitam a diferença a todos os níveis e onde a única condição e o único propósito é não fazer o mal. Ou, para os mais puristas, apenas praticar o bem com respeito da moral, dos valores e das tradições.

A novidade é que nada disto é novo. Tudo está escrito, romanceado, filmado e pensado. Há séculos. Mesmo tudo! Os ratos na roda estão demasiado ocupados e focados em chegar a um destino que nunca mais chega. Esperamos que exista bom senso e que se crie uma nova corrente de pensamento alternativo àquilo que todos parecem ver e aceitar, porque alguém, supostamente mais qualificado ou importante, lhes diz para aceitar.

É um caminho tortuoso entre influenciadores, patrões, familiares e outros que se julgam “do lado certo da História”. O problema é que ninguém, no presente, sabe que lado é este, nem ninguém o pode afirmar perentoriamente. A menos que já tenha tido acesso à última das tecnologias, a máquina do tempo. E isso parece muito pouco provável!

As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.