Depois de comprovados os efeitos da urbanização na temperatura, os cientistas sugerem agora que os ambientes urbanos também podem afetar a precipitação. Um estudo recente, publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, analisou os dados de 1056 cidades em todo o mundo e descobriu que 63% recebeu mais chuva que as zonas rurais circundantes.

Os investigadores da Universidade do Texas em Austin (EUA) dizem por isso que, a exemplo do que acontece com as ilhas de calor, as cidades também estão diretamente associadas ao que chamam de “ilhas húmidas urbanas”. E defendem que a sua magnitude quase duplicou nos últimos 20 anos.

“Em geral, descobrimos que mais de 60% destas cidades globais têm mais precipitação do que as zonas rurais envolventes. Em seguida, comparámos com diferentes zonas climáticas e descobrimos que, se o clima local for mais quente e mais húmido, poderá haver uma maior anomalia de precipitação comparativamente com as cidades em zonas mais frias e secas”, afirmou uma das autoras do estudo, Xinxin Sui.

Mas por que razão este fenómeno acontece mais nas cidades? Para os investigadores, a explicação pode estar diretamente relacionada com a presença de edifícios altos, que provocam uma convergência de ar em direção aos centros urbanos. “As cidades tendem a ter edifícios, especialmente edifícios altos, que fazem convergir ou amontoar o ar”, disse o meteorologista e coautor do estudo Marshall Shepherd, citado pelo jornal USA Today. “Pense em dois comboios a colidir; as suas extremidades dianteiras sobem. Isso é convergência”, concretizou.

Depois de analisarem as anomalias de precipitação durante quase duas décadas (de 2001 a 2020), os investigadores verificaram que estas variam consideravelmente entre continentes. Por exemplo, 85% das cidades África e 71% da Oceânia têm mais precipitação média anual do que zonas rurais à volta.

Já na Europa, os dados de satélite revelam duas realidades diferentes. Enquanto a maior parte das cidades do norte e do centro não têm precipitações extremas mais frequentes e de maior magnitude que as zonas rurais, “algumas grandes cidades do sul da Europa, como Milão, Nápoles e Barcelona, registam anomalias de precipitação extrema urbana notáveis”.

Para os autores do estudo, este fenómeno deve deixar em alerta todas as cidades mundiais, cada vez mais afetadas pelos efeitos das alterações climáticas. Isto porque além de estarem mais expostas e propensas a um aumento da precipitação, também têm os seus solos cada vez mais impermeabilizados. “A combinação destes dois fatores significa que temos de desenvolver formas inovadoras de nos prepararmos para as inundações repentinas”, conclui Zong-Liang Yang, também professor da Universidade do Texas em Austin.

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