As serras do Algarve têm boas condições para serem renaturalizadas, mostra um estudo recentemente publicado na revista Current Biology. Elaborado pelos investigadores portugueses Miguel Bastos Araújo e Diogo Alagador, o trabalho conclui que quase 25% da paisagem europeia – mais de 117 milhões de hectares – apresenta potencial de renaturalização (rewilding, em inglês), ou seja, revela aptidão para retomar a condição natural primitiva.

Em Portugal, essa oportunidade surge, sobretudo, em duas zonas: numa faixa raiana que vai de Trás-os-Montes ao Alto Alentejo, e no Algarve, onde as serras de Espinhaço de Cão e do Caldeirão oferecerem uma área contígua de mais de 100 mil hectares com bom potencial. “No mapa que criámos, esta zona algarvia é a que mais se evidencia devido à sua dimensão, ou seja, do ponto de vista nacional é a área maior de renaturalização que existe disponível, daí estar categorizada na classe mega-rewilding”, explica Diogo Alagador, professor catedrático de Biodiversidade na Universidade de Évora.

O investigador acrescenta que não deixa de haver outras zonas aptas no país, mas nesse caso “os processos de conservação ou gestão não podem existir apenas numa lógica de deixar a Natureza funcionar por si só”. Isto porque necessitam, provavelmente, de algum tipo de uma gestão humana ao nível da fauna, tanto no que diz respeito aos animais carnívoros como herbívoros.

O estudo revela também que as iniciativas de rewilding poderão ajudar várias nações a alcançar as metas da Estratégia Europeia para a Biodiversidade 2030, ano em que cada país já deve ter destinado pelo menos 30% do território a áreas protegidas. Portugal até já superou este valor, mas não da melhor forma, acusa Diogo Alagador: “há pouco tempo houve uma resolução do Conselho de Ministros que, de uma forma quase política e infelizmente não guiada por critérios científicos, definiu que 34% do território continental já está coberto por áreas protegidas. O problema é que muitas delas não estão associadas a razões ecológicas, mas sim a uma questão de oportunidade”.

Associada a esta meta principal surge outra ainda mais exigente, segundo a qual os países devem alocar 10% do território a áreas protegidas, mas geridas estritamente com vista à conservação da biodiversidade. Neste caso, Portugal terá mais dificuldades em atingir este objetivo, o que poderá trazer uma importância acrescida aos projetos de rewilding. “É aqui que a renaturalização sobressai, porque ao ser feita em áreas com pouca pegada humana acaba por propiciar de forma natural esse fim”, refere o investigador.

Vontade política exige-se, dizem os especialistas, não só a nível nacional, mas também entre países, uma vez que, como mostra o estudo, há várias áreas com potencial de renaturalização que atravessam fronteiras, incluindo entre Portugal e Espanha. É o que acontece, por exemplo, com a cordilheira algarvia, que, ligada a terras da Estremadura e da Andaluzia espanhola, poderia dar origem a um grande corredor selvagem.

De acordo com o estudo dos investigadores portugueses, as principais oportunidades para renaturalização na Europa encontram-se na Escandinávia, no norte da Escócia e nos países bálticos, mas também em algumas terras altas da Península Ibérica.

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