Programa aloja estudantes deslocados em casas de idosos que moram sozinhos no Porto. Em 20 de anos atividade, iniciativa ajudou 281 a arranjar casa na cidade e garantiu companhia e afeto a outros tantos seniores.
Sentados lado a lado, no sofá da sala do quinto andar soalheiro onde aconchego é muito mais do que o nome do programa que junta estudantes e idosos debaixo do mesmo teto, Maria de Fátima e Caio Venâncio deixam-se embalar pelo samba que sai da guitarra dedilhada pelo brasileiro. O momento tem estatuto de ritual há dois meses, desde que a mulher, de 90 anos, abriu as portas de casa ao estudante de mestrado, que aos 27 anos suspendeu o trabalho de professor no Brasil para passar dois anos no Porto. “Toca aquelas músicas de que gosto muito bem”, partilha a dona da casa da Foz que é hoje o lar de Caio.
“Gostei logo dele, à primeira vista… É meiguinho”, recorda Maria de Fátima, da primeira conversa que teve com Caio, agendada pela equipa municipal do programa Aconchego. “Não me lembro do dia certo, mas foi em outubro… Cheguei aqui, sentei nesse sofá e começamos a conversar. No momento em que a gente começou a conversar foi mais fácil”, conta Caio. “É como se já nos conhecêssemos. Criou-se uma empatia e um laço assim, automático… Tanto que a gente teve até um lapso de perceção temporal”, explica, dizendo sentir estar a viver com a “avó” portuense há já muitos meses.
A vida é simples em casa de Maria de Fátima, feita de samba, conversa, afetos e gelado de morango, uma das maravilhas que Caio cozinha. “Gostaram da comida e desde então cozinho pelo menos uma vez por semana, ao sábado. Mas acabo fazendo no meio da semana também porque eu gosto de fazer. Cozinhar para mim é um prazer”, explica Caio. “Variamos um pouco a comida, é bom”, avalia. “Mas acredito que o principal motivo pelo qual criamos uma conexão tão forte foi a música”, partilha o mestrando da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, que ficou a saber do programa Aconchego num pé de página do site da UP.
“A dona Fátima tem ascendência brasileira e escuta música brasileira. Quando cheguei vi que a Alexa tocava todo dia música brasileira. Graças a Deus, lá no Brasil, fui criado escutando músicas mais antigas. Conheço músicas novas, claro, mas o meu repertório musical diria que está dos anos 80 para trás”, explica Caio. Pediram uma guitarra, chamada de violão na casa do quinto andar soalheiro, e a música fez dos acordes afetos para a vida: “Entendemo-nos a 100%, porque gostamos das mesmas músicas, mesmos estilos… Todas as músicas que toco, ela gosta… Todas as músicas que eu mostro, ela gosta… E isso aí foi talvez o facto mais importante”, conta o jovem estudante de mestrado.
Para Maria de Fátima, Caio está sempre bem disposto. “É simpático comigo. É amiguinho. Os meus pais eram brasileiros. Os avós eram brasileiros. Tenho uma certa simpatia por brasileiros… Passa parte do dia a estudar no quarto e eu fico aqui, é para não perturbar. Se é hora de lanche, eu chamo. Se é hora de jantar, eu chamo. Pergunto sempre se correram bem as aulas, se não correram”, afirma, explicando a rotina que ensaiam ao longo dos dias.
A irmã de Caio, Jamili, também embarcou na aventura europeia e vive com uma vizinha de Maria de Fátima, ao abrigo do programa Aconchego. Desde o início da iniciativa, há duas décadas, o programa juntou 281 estudantes nas casas de seniores portuenses. Atualmente, há nove estudantes, quatro portugueses e cinco brasileiros, com média de 27 anos, acolhidos por sete idosas, com uma média de idade de 90 anos.
Veja também a reportagem vídeo sobre o programa Aconchego.
Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 42 da Smart Cities – Janeiro/Fevereiro/Março 2024, aqui com as devidas adaptações.
