É quase como uma respiração boca a boca a objetos e materiais que tinham como único destino o caixote do lixo. A Porto Ambiente implementou um projeto de reutilização de materiais, que são reparados para serem doados a quem mais precisa. 

Crianças acompanhadas pelos pais juntam-se à volta de uma grande mesa que mais parece uma mesa de operações. Tal como autênticos cirurgiões, preparam os utensílios que vão precisar para reanimar os objetos sem vida, a precisar de manobras de reanimação. Peluches sem enchimento, bonecas com autênticos trapos ao dependuro e até um boneco de neve sem olhos. São vários os objetos inanimados que, com o passar das horas do workshop “Consertos de Halloween”, promovido pela Porto Ambiente, vão ganhando uma nova identidade.

Acompanhado pelo irmão e pela mãe, Santiago Jesus tenta usar a imaginação para transformar uma espécie de joaninha vermelha que tem nas mãos. Com linha e botões, coseu o grande rasgão que lhe tirava a vida e que o colocava em risco de ir parar ao lixo. “O meu brinquedo estava sem vida, estava todo desinchado. Usei a minha criatividade e fiz um arranjo dedicado ao Halloween, com olhos por todos os lados”, explica o pequeno reparador de brinquedos. Depois de finalizada a operação, o brinquedo seguirá o caminho da circularidade até parar nas mãos de outra criança.

Noutra ponta do “bloco operatório” está Kopi Mokgoto, outra das cirurgiãs de palmo e meio que, para além de reparar uma boneca, acrescentou-lhe elementos que a tornam única e mais apetecível para brincadeiras. “Estamos a arranjar bonecos que estavam estragados, para as pessoas pobres que não têm brinquedos. Nós temos e os outros meninos também querem ter. Para eles não ficarem tristes, fazemos isto”, explica entusiasmada a pequena participante.

A sala está repleta de crianças e pais que esgotaram a lotação da oficina promovida pela Porto Ambiente, no âmbito do projeto Eco Porto. Em funcionamento desde 24 de setembro, a iniciativa tem como principal objetivo incentivar os portuenses a evitar o desperdício de materiais e a apostar, em alternativa, na reutilização. “Este projeto é uma grande aposta da Porto Ambiente porque pretende, tal como o nome indica, ser o centro para a circularidade. Queremos combater o modelo tradicional de economia linear e ajudar as pessoas a mudar mentalidades, para terem comportamentos mais responsáveis do ponto de vista ambiental”, explica Helena Tavares, administradora executiva da Porto Ambiente. Através de um programa variado de atividades, a iniciativa chega aos vários públicos, dos oito aos 80 anos.

Em pouco mais de um mês, foram doados cerca de 100 objetos reparados, o que equivale a 580 quilos de resíduos. Para além dos workshops de capacitação, que ensinam os participantes a reparar, foi desenvolvido um site que agrega toda a informação para os utilizadores. “A plataforma pretende não só dar a conhecer que objetos temos disponíveis para doar, mas também colocar em contacto as pessoas que precisam e as que querem doar. Não pretendemos só reparar, a parte da doação é uma parte essencial do projeto. O objetivo aqui é maximizar os recursos e minimizar os resíduos, através da doação e reintegração na economia para quem mais precisa”, afirma Helena Tavares.

Embora a iniciativa possa vir a ser alargada a outros públicos, para já, destina-se apenas aos utilizadores do cartão Ponto., ou seja, aos residentes ou trabalhadores na cidade do Porto.


Este artigo foi originalmente publicado na edição n.º 45 da Smart Cities – outubro/novembro/dezembro 2024