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	<title>Pablo Sánchez Chillón, autor em Smart Cities</title>
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		<title>O SÉCULO DAS CIDADES</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Pablo Sánchez Chillón]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 06 Mar 2017 18:22:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Opinião / Entrevista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>PROJEÇÃO GLOBAL, CONFLITOS DE FUNÇÃO E ARTEFACTOS NARRATIVOS NA DIVULGAÇÃO DO NOVO PODER URBANO</p>
<p>O conteúdo <a rel="nofollow" href="https://smart-cities.pt/opiniao-entrevista/oseculo-das-cidades0603pablochillon/">O SÉCULO DAS CIDADES</a> aparece primeiro em <a rel="nofollow" href="https://smart-cities.pt">Smart Cities</a>.</p>
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<p><i><b>PROJEÇÃO GLOBAL, CONFLITOS DE FUNÇÃO E ARTEFACTOS NARRATIVOS NA DIVULGAÇÃO DO NOVO PODER URBANO</b></i></p>
<p><strong><i><br />
I. A Cidade dos mil nomes</i></strong></p>
<p><i>Smart Cities, Start-up Cities, Lab Cities, Slow Cities, Green Cities, Sharing Cities, Cidades Resilientes, Inovadoras, Humanas, Circulares e até Afetuosas. O desfile de epítetos para a condição urbana não conhece limites nos nossos dias. </i></p>
<p><i><br />
Tal como num Baile de Máscaras, as cidades, procurando projetar o melhor de si mesmas, escondem-se atrás de brilhantes artefactos narrativos, rótulos memoráveis e doses generosas de </i><a href="https://urban360.me/2016/02/03/maquillaje-negocio-y-relato-ciudades-que-son-una-cosa-y-quieren-parecer-otra/"><b>storytelling</b></a><i> contemporâneo, reivindicando a sua quota de notoriedade, poder e influência numa fase da História universal, na qual se antecipa a chegada de um novo statu quo para a Governação mundial. </i></p>
<p><i><br />
Se levarmos a sério o emergente coro de peritos que o afirmam (e outros que não o são, mas que o querem parecer), este novo tempo – reflexo de uma novíssima ordem mundial que se consolida dia após dia – caracteriza-se pela crescente abertura de agendas, pelo surgimento de novas lideranças políticas às custas da deterioração do poder de outros (especialmente os de natureza urbana face ao escasso poder dos Estados) e pela identificação de desafios coletivos para a espécie humana que se manifestam com especial intensidade no &#8220;grande teatro das cidades&#8221;. </i></p>
<p><i>Perante esta janela de oportunidade e no contexto atual de </i><i>comercialização &#8220;total e por entregas&#8221; </i><i>dos ativos e na divulgação das cidades, muitos reclamam um papel principal para uma nova geração de líderes locais, ungidos pelo dom da globalidade, da audácia e do pragmatismo. </i></p>
<p><i><br />
</i><i>Vencedores, estrelas e estrelados;</i><i> </i><i>esta é a sua história.</i></p>
<p><strong><br />
II. Quem sou?: Cidades, divulgações globais e o novo choque de identidades</strong></p>
<p>Se analisarmos o estado atual da concorrência entre territórios, as suas marcas e as suas divulgações, parece chegado o momento de nos preocuparmos com os danos irreparáveis que algumas estratégias de comunicação e marketing e a aposta numa abordagem narrativa híper-entusiasta e crescentemente estandardizada estão a provocar a inúmeras cidades à nossa volta, que, num contexto global de mudança e de questionamento permanente da sua própria identidade, navegam sem rumo num agitado mar de identidades, rótulos e divulgações superficiais.</p>
<p>Falamos, em todo o caso, do uso indiscriminado e acrítico de conceitos como <i>Smart Cities, Sharing Cities, Circular Cities, Open Cities, Lab Cities e</i> um amplo (e aberto) <i>etecetera</i> de polissémicas categorias do urbano que acabaram por desnortear os nossos governantes, que, à custa de procurarem o seu espaço na cintilante galáxia de <i>&#8220;Something –Cities&#8221;, </i>acabam<i> </i>prostrados no divã do psiquiatra, incapazes de entenderem e de desempenharem um papel que não lhes diz respeito e para o qual não foram preparados.</p>
<p>Ali, onde acabam os clarões do Powerpoint do assessor de comunicação e a sedutora gíria do consultor de inovação, começa a dura realidade do desempenho como cidade/presidente Empreendedor, Inteligente ou Circular, exigindo a tomada de decisões estratégicas e de investimento, a criação de consensos e apoio dos cidadãos e a sujeição ao escrutínio público, implacável com os conflitos de funções e com os erros nos orçamentos dos municípios.</p>
<p>Este <i>choque de identidades</i>, que obriga as cidades a um exercício permanente de reflexão e comparação com as suas concorrentes sobre <i>o que são e o que querem ser</i>, leva-as, em muitas ocasiões, a um estado de uma inquietante impostura e, por vezes, também a uma reação de personalidade excessiva, cujos primeiros sintomas costumam manifestar-se na edificação indiscriminada de ícones que as tornem <i>memoráveis.</i> Pensemos, por exemplo, nas dispendiosas e pouco funcionais <a href="http://www.dezeen.com/2014/01/02/santiago-calatrava-city-of-arts-and-sciences/"><i>Cidade das Artes</i></a> de Santiago Calatrava em Valência ou na <a href="https://www.theguardian.com/artanddesign/2011/jan/11/galicia-city-of-culture-opens"><i>Cidade da Cultura</i></a><i> </i>de Eisenman em Santiago de Compostela, discutíveis testemunhos de uma mistura de megalomania, delírio e arrogante vocação para notoriedade mundial baseada na especialização icónica (nos nichos da inovação/cultura) de duas cidades médias espanholas, incapazes de promover, por conseguinte, uma divulgação autêntica de si mesmas.</p>
<p>De igual modo, na raiz deste <i>conflito global de personalidade</i> que muitas das nossas cidades sofrem de forma crescente e que se manifesta na adoção acrítica de rótulos semânticos que as definam e particularizem, encontra-se também um grupo de razões que remetem para certos padrões de inércia e<i><b> </b></i>mimetismo (deixar-se levar), para a pura rivalidade (tantos municípios que todos conhecemos que encontraram na comparação superlativa com os seus vizinhos a forma de identidade que os define por contraste) e, <i>last, but not least</i>, a indispensável necessidade que certos presidentes de municípios e equipas de governo sentem de revigorar mandatos e carreiras políticas <i>flácidas e fragilizadas</i> com a compra indiscriminada de <i>esteróides narrativos </i>que os fazem parecer muito mais fortes, modernos e dinâmicos do que aquilo que na realidade são. Deixo à imaginação e memória do leitor a tarefa de identificar exemplos recentes de divulgações que não passariam num controlo comum <i>anti-doping.</i></p>
<p>Obviamente, nem todos os esforços de uma cidade para exercer uma influência e relevância globais são vãos e controversos. A história recente é generosa em exemplos edificantes de construção honesta de uma reputação e narrativa urbana globais que projetam os seus efeitos positivos para além da vigência temporal da estratégia e do plano de <i>branding</i> territorial.</p>
<p>Em algumas ocasiões, a vocação universal de um território é sustentada pela genuína crença nas suas capacidades para competir na <i>liga das grandes cidades mundiais</i>, assente na base de um forte consenso local, numa liderança aberta e partilhada e na reflexão sossegada e crítica sobre o modelo e o papel que o futuro reserva à cidade, em coerência com a sua identidade e trajetória.</p>
<p>A ninguém deverá surpreender, por exemplo, que Copenhaga e Amsterdão, históricos exemplos da hierarquização inteligente dos espaços urbanos a favor de uma relação harmónica entre veículos e ciclistas, retenham, em <i>ex aequo</i>, o cetro de capitais mundiais da mobilidade sustentável (dando, por exemplo, o seus nomes a inventos e produtos relacionados com a bicicleta, como a interessante <a href="http://senseable.mit.edu/copenhagenwheel/"><b>Copenhagen Wheel</b></a> desenvolvida pelo MIT de Massachusetts, contribuindo para reforçar a divulgação, a competitividade e a reputação dos seus ecossistemas urbanos).</p>
<p>Do mesmo modo, é quase unânime o aplauso coletivo para a excelente estratégia coletiva de transformação reputacional da cidade de <a href="http://www.bbc.com/news/world-latin-america-21638308"><b>Medellín</b>,</a> que deixou de ressoar na mente de todos como um <i>lugar</i> <i>obscuro </i>universalmente conhecido pela sua vinculação à criminalidade e aos cartéis mais sangrentos de droga para se tornar num modelo exemplar e reconhecido de cidade fértil para a inovação e desenvolvimento. Baseada numa forte liderança política próxima do cidadão, na indispensável dotação orçamental e no design e na execução de interessantes políticas que incidiram sobre a própria trama urbana da cidade e, também, no exercício de uma inteligentíssima Diplomacia Urbana que levou os seus líderes e representantes a defender, com argumentos e astúcia, o presente e o futuro da Medellín inovadora em incontáveis fóruns mundiais.</p>
<p>Em circunstâncias diferentes, porventura mais conjunturais, não foi por acaso que Sadiq Khan, que sucedeu a Boris Johnson como presidente da câmara de Londres, &#8211; até hoje uma das capitais mundiais com maior projeção global &#8211; decidiu, depois de conhecer o resultado do referendo <i>post-Brexit</i>, pôr fim à emergente retórica protecionista e provinciana, apressando-se a concertar um <a href="http://www.bbc.com/news/uk-england-london-37182769">encontro</a> com a mediática presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, para reivindicar a vocação universal e aberta da cidade (e a sua <i>discutível</i> posição como centro financeiro mundial).</p>
<p><b><br />
</b><strong>III. Inovação, Inteligência, Resiliência: os novos minerais narrativos para as Cidades Globais</strong></p>
<p>O impulso generalizado das novas divulgações para as cidades sob formatos estandardizados (agora são intensamente inovadoras, inteligentes, funcionam como Labs, são empreendedoras, etc.) e a ausência de uma interrogação preliminar sobre a própria identidade do território estão a transformar muitas das cidades em <i>engenhos narrativos vazios</i> ou em<i> zombies errantes</i>. Estas cidades projetam uma imagem que as torna irreconhecíveis para os seus cidadãos, visitantes e governantes e, tal como no conto <i>&#8220;O rei vai nu&#8221;</i> de Hans Christian Andersen, ninguém se atreve a denunciar a verdade (esperando, talvez, que a inocente imprudência de uma criança acabe por rebentar com a bolha narrativa).</p>
<p>À inquestionável tentação coletiva de brilhar no firmamento das capitais globais, soma-se o desejo de posteridade de presidentes e vereadores, que é inversamente proporcional à duração dos seus mandatos políticos. Por este motivo, dominadas por um estado de delírio coletivo e recorrendo abertamente ao logro, ao artefacto kitsch e à cópia indiscriminada, inúmeras cidades abraçaram, sem grandes hesitações, uma estratégia de reinvenção total da sua forma de estar (e parecer) no mundo. Para o efeito, exploram <i>novas divulgações e minerais narrativos</i> para sua projeção global, o que as torna vulneráveis perante o escrutínio global e os ritmos de um mundo que se move ao ritmo de agendas digitais inconstantes que mudam <i>a cada cinco minutos</i> .</p>
<p>Desde o <i>delirante</i> e <i>viciante</i> tópico das Ghost Towns chinesas (retratado brilhantemente por <a href="http://biancabosker.com/">Bianca Bosker</a>, em “<i>Original Copies:</i><i> Architectural mimicry in contemporary China</i>”, paradigma da <i>duplitectura</i> (essa cultura da descarada cópia na edificação e no urbanismo chinês que nos leva a encontrar cópias à escala de Paris no Extremo Oriente) até à enésima proclamação de uma cidade como a <i>&#8220;Capital Mundial da Inovação&#8221;,</i> a &#8220;Silicon-something&#8221; ou o <i>&#8220;Território Universal do Empreendimento&#8221;</i>, a divulgação do crescente logro urbano revela-se sempre apaixonante.</p>
<p>Se observarmos em nosso redor, vamos conseguir detetar uma crescente legião de capitais que, partindo de estratégias e reflexões frequentemente sensatas, abraçaram a arte do storytelling urbano e a nova diplomacia de cidade, procurando destacar-se em territórios ideais para a <a href="http://www.innovation-paris.com/">inovação</a> (Paris, Buenos Aires, Lisboa), o <a href="http://www.wired.co.uk/magazine/archive/2015/09/features/100-hottest-european-startups-2015-amsterdam">empreendedorismo</a> (Amesterdão), a <a href="http://www.elmundo.es/economia/2015/03/03/54f4c31aca4741f5268b456c.html">inteligência urbana</a> (Barcelona), a nova <a href="http://www.shareable.net/blog/sharing-city-seoul-a-model-for-the-world">economia colaborativa</a> (Seul) ou a abordagem <a href="http://e360.yale.edu/feature/copenhagens_ambitious_push_to_be_carbon_neutral_by_2025/2638/">low carbon</a> (Copenhaga), por citar algumas. A aposta na narrativa <i>fácil</i> coloca-nos perante os riscos da comercialização do produto e da fadiga argumental, pois poderá parecer que todos oferecem o mesmo produto ao mesmo tempo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>IV. Cidades que jogam ao <i>Risco</i> no tabuleiro da nova Governação Global</strong></p>
<p>O processo de <i>universalização</i> <i>urbana</i> foi impulsionado nos últimos tempos pela <a href="http://urban360.me/2014/08/19/the-cities-diplomacy-series/">crescente atenção</a> mundial no que toca ao papel das cidades na proposta e execução de soluções face aos desafios deste século XXI <i>(sejam estes populacionais, ambientais, económicos etc., mas todos de natureza eminentemente urbana)</i> e pelo reconhecimento universal da capacidade dos governos municipais utilizarem o Soft-Power para implementarem políticas ágeis face aos referidos desafios, sem a morosidade, solenidade e o inevitável esforço transacional (negociação com múltiplos atores e esferas de interesse) que costumamos atribuir à ação dos Estados-nação.</p>
<p>Agora que <i>o Poder já não é o que era, </i>ressoa com intensidade a chamada global aos líderes urbanos para que exerçam uma certa quota de influência política nos grandes centros de decisão mundial, especialmente quando o chamamento provém de <a href="http://www.huffingtonpost.co.uk/2015/12/04/leonardo-dicaprio-cop21-climate-change_n_8721832.html">Hollywood</a> e do seu <i>star system </i><i>(todos nos lembramos do papel de Leonardo di Caprio na COP21 de Paris)</i><i>.</i></p>
<p>Como os <i>bardos e trovadores </i>que cantavam as façanhas e o futuro de reinos, monarcas e princesas para deleite das ociosas cortes medievais europeias, nos nossos dias, assistimos entusiasmados à poética evocação da chegada de um <i>&#8220;novo século das cidades&#8221;</i> e ao aparecimento de uma legião de defensores da concorrência e das virtudes das cidades <i>(movidos pelas mais diversas razões).</i> Esta realidade resultou em inúmeras arenas, espaços e plataformas de encontro, interação e intercâmbio de conhecimento e boas práticas entre líderes, criadores e executores de políticas públicas que incidem sobre a realidade do fenómeno urbano, além do caudal de eventos, publicações e prémios que são um bom indicador do êxito da <i>evocação</i> do urbano.</p>
<p>Quem sabe se a pressão <i>total</i> por abraçar indiscriminadamente a bandeira desta nova liderança aberta, moderna, colaboradora e decididamente global abrirá novas brechas entre o que as nossas cidades (e mandatários) são e o que queriam ser. O tempo o dirá.</p>
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