Por: Inês dos Santos Costa, Associate Partner, Sustainability & Climate Public Sector Leader Circular Economy Leader da Deloitte.

 

No dia 24 de outubro realizou-se a conferência de Encerramento do Programa InC2 – Iniciativa Cidades Circulares¹. Entre 2019 e 2023, o Programa (apoiado pelo Fundo Ambiental da Secretaria-Geral do Ambiente) juntou profissionais da DGT, laboratórios de Estado, investigadores e profissionais de 28 municípios – de Norte a Sul, das ilhas e continente – com mais de duas centenas de ações para a aplicação dos princípios de economia circular a desafios urbanos: na água, na construção, nas redes peri-urbanas e na economia local.
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Este Programa pioneiro ajudou vários municípios a uma melhor compreensão e ação sobre o tema, através dos 32 Planos Locais de Ação Integrada (PLAI), com práticas associadas à reutilização de águas, à gestão de biorresíduos e os sistemas Pay As You Throw, a incorporação de inovações como a produção de proteína de inseto, ou a redução dos resíduos de construção e demolição.

Como se vê, uma Smart City não se define apenas pela inovação tecnológica, mobilidade sustentável, ou edifícios inteligentes. É uma cidade eficiente, eficaz e suficiente na forma como gere os recursos, materiais ou energéticos, para disponibilizar a rede de bem-estar social à comunidade, respeitando os limites biofísicos que proporcionam esses recursos. O International Resource Panel² das Nações Unidas já analisou e converteu em números os benefícios: reduções entre 36% a 54% no uso de energia, emissões e necessidades de materiais como metais, solo e água. Num cenário em que as cidades irão passar de um consumo médio de 40 GT/ano para 90 GT/ano em 2050, percebe-se como se torna necessário uma visão sistémica sobre a sua gestão.

Esta é, pois, a hora de pensar nas cidades como um organismo vivo, com um metabolismo próprio – que consome materiais e energia, que distribui produtos e serviços, e que vive em simbiose com os organismos que dela dependem. Para concretizar essa visão, existem alguns pontos incontornáveis:

• Abordar o metabolismo urbano de linear para circular. Isso significa que as cidades precisam de concentrar esforços em gerir a circulação dos recursos através da cidade. Fornecer serviços em vez de vender produtos: aquecimento e arrefecimento, mobilidade pública, luz em vez de lâmpadas. A mineração urbana, a reutilização de componentes em novas obras, o reduzir e reutilizar tem de definir o novo urbanismo.

• Monitorizar os metabolismos urbanos para ajudar o planeamento estratégico. Os governos locais precisam compreender melhor as entradas e saídas dos fluxos de recursos nas cidades para desenvolver estratégias de eficiência, eficácia e suficiência no uso em pontos nevrálgicos.

• Alterar os padrões de planeamento urbano. As cidades têm de ser concebidas para as pessoas. Isso significa criar um crescimento urbano compacto, com bairros de uso misto e opções que combatam a pobreza energética, alimentar e mobilidade.

• Desenvolver um novo modelo de governação e política. As cidades precisam ser governadas de forma empreendedora, fomentando novas propostas comerciais imaginativas e a experimentação em formas de redução de consumo de recursos e poluição.

• Obter apoio dos níveis superiores de governo. Os governos nacionais e regionais precisam apoiar a inovação para a eficiência dos recursos nas cidades.

É para essa visão que a Deloitte quer contribuir, através de soluções tecnológicas como o ClimChoice, em desenvolvimento, ou as Estratégias Urbanas de Economia Circular, em colaboração com entidades como a Circle Economy. Nessa visão, a relação entre “smart” e “sustentabilidade” é indissociável, e a base para um novo tipo de urbanidade, que direciona o seu desenvolvimento de forma intencional, colaborativa e inclusiva, para transformar os centros urbanos, em que os cidadãos não são apenas beneficiários dos serviços ou consumidores, mas serão co-criadores das políticas, ferramentas e mecanismos que permitem melhorar a sua qualidade de vida em comunidade.

¹ https://cidadescirculares.dgterritorio.gov.pt/
² https://www.resourcepanel.org/reports/weight-cities

As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

ESTE ARTIGO CONTA COM O APOIO DA DELOITTE E FOI ORIGINALMENTE PUBLICADO NA EDIÇÃO DE OUTUBRO/NOVEMBRO/DEZEMBRO DE 2023 DA SMART CITIES.