O Instituto Politécnico de Leiria desenvolveu uma solução inovadora para sinais rodoviários que previne a sinistralidade nas estradas, alertando os condutores para os limites de velocidade, proximidade de passadeiras ou perda de prioridade, por exemplo. O projecto tem o nome de SmartSign – Desenvolvimento de Sinalização Rodoviária Inteligente e consiste na criação de sinais activos, ou seja, que comunicam, eles próprios, com os utilizadores da via.

Ao gerarem e emitirem informação sobre a sua localização ou outros dados, estes sinais tornam-se diferenciadores dos sistemas actuais porque permitem que os veículos recebam sempre essa informação, independentemente das condições climatéricas ou outras. “Hoje, muitos veículos já têm leitores automáticos de sinais de trânsito, ao utilizarem uma câmara para filmar o percurso e interpretar os sinais, mas que estão dependentes de alguns factores externos, como a meteorologia. O nevoeiro ou o encadeamento por radiação solar, por exemplo, acabam por anular a eficácia das câmaras”, explica Nuno Martinho, professor do departamento de Engenharia Mecânica, em entrevista à Smart Cities. E o mesmo acontece quando os sinais ficam tapados por um edifício ou por ramos de árvores.

Foi neste contexto que os investigadores colocaram uma pergunta de partida essencial: “E se for o próprio sinal a dizer ´eu estou aqui` e tenho esta informação, independentemente de qualquer factor externo?”. Dito e feito. O grupo de trabalho do Politécnico de Leiria desenvolveu, então, um sinal inteligente, com uma antena incorporada (não visível) que emite informação por radiofrequência para os utilizadores da via, sejam eles um condutor de um veículo ou mesmo um transeunte.

De acordo com o descrição do projecto, este envolveu “desenvolvimentos disruptivos” em três níveis: nos próprios sinais verticais activos, que incorporaram módulos de transmissão de informação; nas comunicações e nos respectivos protocolos, ao permitirem a adaptação às tecnologias e protocolos de comunicação sem fios; e na plataforma de interface com os utilizadores, que possibilita a comunicação efectiva da informação do sinal vertical. Para isso, foram envolvidas três equipas distintas da Escola Superior de Tecnologia e Gestão (ESTG) do Politécnico de Leiria: uma ligada à engenharia mecânica, para a construção física do sinal e respectivos sistemas (liderada por Nuno Martinho); outra associada à engenharia electrotécnica, que trata da emissão por radiofrequência (dirigida por Sérgio Faria, líder científico do projecto; e mais uma dedicada à informática, responsável pela recepção e tratamento desse sinal para a criação do interface com o utilizador (liderada por Carlos Rabagão).

Investigadores do SmartSign junto a um sinal de informação variável.

Paralelamente, o grupo de Engenharia Mecânica desenvolveu um sinal de informação variável, que permite alterar o limite de velocidade máxima  – 30, 40 ou 50 km/hora -, consoante as necessidades. Para isso, utiliza um sistema mecânico e piramidal, controlado automaticamente, como já acontece actualmente com alguns placards publicitários. “Tendo como cenário uma escola, podemos mudar o limite de velocidade para 30 km/hora entre as 8h00 e as 9h00, quando a maioria dos estudantes está a entrar, depois passar para 40 km/hora, por exemplo, até às 9h30, e mais tarde mudar para 50 km/hora quando já não há alunos a entrar”, descreve Nuno Martinho.

À Smart Cities, o investigador revelou também que esta sinalização utiliza a tecnologia CV2X, compatível com os modelos de automóveis mais recentes, permitindo que eles recebam nos seus sistemas de infotainment toda a informação disponibilizada pelo SmartSign.

Novas aplicações e… ambição global

Desenvolvido durante mais de três anos, desde Janeiro de 2020 até Junho de 2023, o projecto SmartSign será agora explorado comercialmente pela Sociedade Nacional de Sinalização Rodoviária Vertical, sediada em Ansião, cujo desafio serviu de ponto de partida a este trabalho. Já nessa fase inicial, o objectivo era criar uma solução que permitisse reduzir a sinistralidade rodoviária, bem como minimizar ao máximo o factor humano que lhe costuma estar associada.

Entretanto, a empresa já lançou outro repto ao grupo de investigadores, no sentido de desenvolverem novas aplicações com finalidades mais específicas: “poderíamos fazer, por exemplo, com que os cegos recebam no seu telemóvel a indicação de onde está uma passadeira, a que distância ou se está na não na altura de a passarem”, disse Nuno Martinho. “Embora isso não tenha sido desenvolvido, o que já fizemos permite-nos explorar novas propostas e aplicações, como essa para invisuais, porque a parte mais dura e difícil já nós fizemos”, acrescentou.

Nuno Martinho admite ainda a ambição do projecto escalar para uma escala global até porque, “efectivamente, foi desenvolvido algo novo”, “que pode ter aplicação além-fronteiras e ir muito para além do âmbito nacional”. Imagem de destaque: Portugal 2020