O maior e mais importante evento mundial do setor das cidades inteligentes tornou-se, este ano, ainda maior. O Smart City Expo World Congress (SCEWC), realizado entre 7 e 9 de novembro, em Barcelona, recebeu mais de 1.100 expositores, o que representa um aumento de quase 30% em relação ao ano passado, além de mais de 25 mil visitantes (em 2022 foram 20 mil) e mais de 800 cidades e 140 países. “Números recorde, numa edição inesquecível”, diz um comunicado da organização, que também colocou Portugal entre os países em maior destaque no evento.

O stand Smart Portugal foi, de resto, um dos mais concorridos do pavilhão 2 da Fira, tendo sido visitado por mais de 8 mil pessoas durante os três dias de certame. Além de várias empresas (como Esri PortugalMinsaitWavexom ou MEO) e do Polo de Inovação AI4PA, o espaço organizado pelo Nova Cidade – Urban Analytics Lab reuniu ainda 43 municípios, quatro com expositor individual – Guimarães, Porto, Lisboa e Oeiras – e os restantes integrados nas três Comunidades Intermunicipais (CIM) presentes: Oeste, Viseu Dão Lafões e Médio Tejo.

Para Miguel de Castro Neto, coordenador do Nova Cidade, tratou-se de “um momento transformacional, que teve o grande mérito de reunir, promover a colaboração e juntar no mesmo espaço empresas, academia e autoridades locais”. O responsável sublinhou também que muitos projetos que a feira considerou o futuro das cidades inteligentes já são uma realidade em Portugal, como ficou demonstrado no stand nacional: “a Cidade dos 15 minutos, o simulador de sinistralidade rodoviária, a antecipação da ocupação de espaços por pessoas e movimento de bens são tudo exemplos que mostram como o nosso país pode ser um laboratório vivo da inteligência urbana e dos territórios inteligentes e sustentáveis”, disse à Smart Cities no final do evento.

De visita à feira, também o vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, Filipe Araújo, defendeu que “embora as cidades tenham desafios diferentes, uns mais urbanos, outro mais rurais, faz todo o sentido juntar os municípios e as empresas em fóruns como estes que permitem aprender e partilhar o que vão fazendo”. A autarquia esteve representada no stand pela Porto Digital, associação dedicada à inovação e tecnologia da cidade, que apresentou vários projetos na feira, com destaque para um Indicador de Dinâmica Urbana.

Já Lisboa, pela voz de Joana Almeida, vereadora responsável pelos pelouros do Urbanismo e dos Sistemas de Informação, apresentou os planos da autarquia para a estratégia Smart Lisbon 2030, um documento que “vai deixar claro o caminho que o município quer seguir nesta matéria, porque a partir daí é possível focar o investimento necessário no que é mais importante para melhorar a cidade”.  À Smart Cities, revelou que espera concluir esta “missão ambiciosa” dentro de oito meses, “a tempo de ser apresentada na próxima edição do Smart City Expo World Congress”.

“Estratégia Nacional Territórios Inteligentes será realidade no futuro”

O encerramento dos trabalhos no stand português ficou a cargo do secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, Mário Campolargo, com uma apresentação dedicada ao tema “Portugal: a Smart Nation”. O governante realçou o reforço no PRR atribuído aos territórios inteligentes, “para pôr um investimento na ordem dos 60 milhões de euros, que são complementares a todo o esforço que já é feito ao nível do PT 2030”. Desta forma, sustenta, estão criadas as condições para os municípios e os territórios desenvolverem mais e melhores projetos e soluções: “Agora, podemos trazer dados para dashboards e cockpits, bem como ajudar os municípios, tanto os que querem melhorar as suas plataformas de inteligência urbana, como os que ainda não as têm”, afirmou o governante em declarações exclusivas à Smart Cities.

O secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, Mário Campolargo, no encerramento do programa do Smart Portugal.

Com a atual situação política no país, desencadeada após a demissão do primeiro-ministro, também a Estratégia Nacional de Territórios Inteligentes parece ficar num impasse. Sendo assim, impõe-se a questão: o que irá acontecer a uma das principais bandeiras do executivo para o setor? Falando na passada quinta-feira (antes da dissolução da Assembleia da República), Mário Campolargo reiterou a necessidade de aguardar por uma clarificação do panorama político, mas não deixou de lembrar que “esta Estratégia foi definida já há bastante tempo, com a co-criação de muitos municípios e de muitas entidades relevantes e está pronta, só ainda não teve uma aprovação formal do Governo”. Para ele, estando o trabalho feito, não deve deixar de ser aproveitado: “O que eu tenho a certeza é que deixamos um património que é indiscutivelmente importante para Portugal e é uma Estratégia que, por ser tão importante, por ter uma dimensão tão nacional e favorecer que qualquer agente político possa fazer políticas mais centradas e mais baseadas em evidência, ela será, seguramente, realidade no futuro”, acrescentou.

Aconteça o que acontecer, o responsável pela pasta da Digitalização e da Modernização Administrativa durante o último ano e meio diz que “mais do que uma Estratégia consolidada, ela é um compromisso deste Governo com os territórios inteligentes e, pessoalmente, é um compromisso quase instintivo com o país que conheço e é absolutamente determinante para caminharmos para um Portugal cada vez mais digital e que pode tomar decisões baseadas em evidências”.

Outros portugueses com um lugar central

Embora o Smart Portugal tenha sido o principal destaque luso na 12.ª edição do SCEWC, houve mais espaços portugueses em evidência, como o da Ubiwhere, que ocupou uma posição central no pavilhão 2 da Fira. A tecnológica de Aveiro deu a conhecer as principais soluções que tem desenvolvido nesta área, como a Plataforma Urbana ou a Digital Nervous System Testbed, além de ter participado em várias apresentações e sessões de debate.

Outra empresa do Centro do país (neste caso de Coimbra) a marcar presença em Barcelona foi a TUU. Apesar de ter participado na feira com um stand próprio, também apresentou os seus projetos no espaço organizado pelo NOVA Cidade, com destaque para a Builtoo, um software de gestão de processos construtivos que ajuda a melhorar a produtividade de uma obra.

Por sua vez, Cascais integrou o stand da Deloitte, um dos maiores da feira, onde deu a conhecer o ecossistema de inovação do município e participou em várias sessões. A vila portuguesa esteve também entre os finalistas dos World Smart City Awards 2023, com o projeto “Viver Cascais”, candidato à categoria “Cidade”. Na corrida estavam outros cinco municípios mundiais – Barranquilla (Colômbia), Curitiba (Brasil), Izmir (Turquia), Makati (Filipinas) e Sunderland (Inglaterra) -, mas o prémio acabou por ser atribuído à cidade brasileira.

O Smart City Expo World Congress regressa a Barcelona no próximo ano, mais uma vez durante três dias, entre 5 e 7 de novembro. A organização já prometeu uma edição “enorme”, com mais 23 mil metros quadrados que este ano, ocupando pela primeira vez um terceiro pavilhão.