Até 25 de Julho, as cidades de Porto e Matosinhos são palco da edição de 2021 da Porto Design Biennale. Alter-realidades é o tema central do evento, que acontece entre a nano e a macro escala dos lugares urbanos. Em entrevista, o curador geral, Alastair Fuad-Luke, conta como esta bienal pretende despertar “a fome de criar cidade” nas pessoas e explica como o design, a ecologia e outras especialidades podem aliar-se à sabedoria comunitária na construção de soluções.

Fotografia destaque: © Renato Cruz Santos

Destaca-se pelo seu trabalho de investigação em design, mas o seu background está ligado a temas de ecologia e sustentabilidade. Como é que isso influenciou a sua percepção de design?

Sempre fui interdisciplinar. Quando me formei como cientista ambiental, trabalhei com geólogos, hidrologistas, engenheiros. Aprendi programação computacional, há muito tempo e de forma muito básica [risos]. Na minha tese de mestrado, fiz uma avaliação de impacto ambiental para duas opções de auto-estradas, que tinha bons argumentos, foi até a consulta pública, e isso abriu-me muito os olhos. Ouvi diferentes especialistas de várias áreas e sempre achei que a integração de diversas especialidades era mais importante do que a especialidade de uma única pessoa e isso foi algo que ficou sempre comigo e me permitiu ir para o design.

Alastair Fuad-Luke © Bruno Mesquita

Depois de 12/13 anos a trabalhar em ambiente no Reino Unido (RU), Sudeste Asiático e Austrália, confrontado com tudo o que estamos a causar, precisei de uma pausa das dores de cabeça ambientais. Como era um bom fotógrafo amador, acabei por tornar-me fotojornalista no Sudeste Asiático e, quando voltei para o RU, envolvi-me nas bibliotecas fotográficas e na transição entre a fotografia analógica e digital. Foi interessante porque esta era uma nova tecnologia que estava a chegar e que tinha também muitos cépticos. Estas transições acontecem quando mudamos de tecnologias e não se trata apenas da tecnologia em si, mas da infraestrutura.

Se pensarmos na fotografia, inicialmente as pessoas tinham de ir às lojas para imprimir as fotografias digitais, isso foi algo que mudou muito rapidamente. Quando fiz a primeira versão do Eco-Design Handbook, em 2002, foi [um processo] totalmente analógico. A edição de 2005 foi uma mistura e a de 2009 foi totalmente digital. Bastaram apenas sete anos para passar de algo analógico para totalmente digital. O que é que isto nos diz sobre as transições nas sociedades? Todas as questões sobre a qualidade [da imagem] e tudo o mais foram rapidamente ultrapassadas. Talvez seja isto que estamos agora a viver com as nossas cidades.

 

Como entra aí o design?

Quando escrevi o livro, como tinha trabalhado com cientistas ambientais e ecologistas sobre o desperdício, apercebi-me de que os designers podiam desenhar melhor para o evitar. Comecei a investigar o tema e, na altura, não se falava em economia circular, mas em ecologia industrial. A questão principal é que temos sempre de lidar com infraestrutura. Nas cidades, associamo-la a estradas, serviços de mobilidade… Se pensarmos na alimentação, não vemos a maior parte do que acontece em backoffice – a comida que chega aos portos, os grandes centros de distribuição dos supermercados, etc. Mas essa é a infraestrutura e vai até ao design dos navios que transportam as matérias-primas. Quando tudo isto funciona bem, torna-se invisível. Aí, temos um problema, porque, por natureza, a infraestrutura é normalmente intergeracional. E, nas cidades, temos ainda a padronização, com longos ritmos, e um acoplamento estrutural, que sempre esteve lá.

Como assim?

Olhemos para a mobilidade. No final do século XIX, no mundo ocidental, os veículos eléctricos eram muito mais populares do que os a petróleo. Eram mais limpos e sabia-se muito sobre baterias, enquanto os motores de combustão eram barulhentos e viciosos. O que aconteceu teve a ver com o acoplamento estrutural, pois as empresas de petróleo do centro-oeste americano começaram a promover uma infraestrutura que tornou o sistema de carregamento das baterias um problema e favoreceu a distribuição do petróleo. E foram muito agressivos em termos de marketing. Substituíram uma infraestrutura embrionária de baterias de carros – impressionante para a altura – por outra de postos de abastecimento de petróleo, que ainda hoje existe. O acoplamento estrutural era o motor de combustão com os produtores de petróleo e o sistema de distribuição. E por aí adiante: se tiver um carro, tenho mobilidade, logo não tenho de viver onde trabalho, posso viver nos subúrbios. Aí, temos o carro acoplado estruturalmente à capacidade de deslocação, tanto para trabalhar como para lazer. Então abrem-se possibilidades para habitação e constroem-se novas casas, mas precisa-se também de estradas e, assim, surge todo um novo sistema.

Deu azo à dispersão urbana que temos hoje, em particular nos Estados Unidos.

Todo este movimento de pessoas só foi possível pela estrutura original que rege o motor, a distribuição de petróleo e muito mais. Temos cada vez mais acoplamento estrutural e ficamos presos a isto. É a posição em que estamos agora relativamente ao petróleo.

O design pode alterar esse estado das coisas?

Nos últimos 22 anos, tenho trabalhado nessa área em diferentes universidades e diria que sim. Através do design, podemos tornar visível o invisível e fazer muitas questões. Se visualizarmos este acoplamento estrutural, apercebemo-nos de que até os licenciamentos para construir casas a 20 quilómetros do Porto estão relacionados com o motor de combustão interna.

Nos últimos dez anos, começámos a ter, na área do design e muito impulsionados pelas tecnologias de internet, cursos especializados em visualização de dados, jornalismo visual e até a fisicalização de dados. Vemos isso acontecer também nos media, como o The Guardian, que começaram a usar estas ferramentas muito bem para dar forma a temas como as alterações climáticas. O mesmo se aplica às cidades – como é que as visualizamos através do design? É uma pergunta importante quando pensamos nos desafios que se colocam e para onde queremos ir.

Isto relaciona-se directamente com esta Biennale, na qual temos um projecto do MIT Senseable City Lab de Carlo Ratti Associati, com título de Liminal Ghettos. “Liminal” é um termo interessante, ecológico, que tem a ver com a zona entre a maré alta e a maré baixa, uma zona que muda bastante. E é assim que nos movemos actualmente nas nossas cidades– temos padrões, mas, se houver uma mudança na infraestrutura, esses padrões vão mudar. Ou quando há um evento ou abre novo restaurante de que todos falam. Podemos falar de infraestrutura a vários níveis.

Esse foi um ponto de partida para a Biennale?

Quando começámos – e porque são duas cidades –, defini que, se queremos fazer uma bienal para os cidadãos e designers – que foram sempre os nossos públicos principais – e queremos que seja algo muito participado, temos de estar atentos aos nano e micro espaços, ir subindo na escala, até ao macro espaço, que é o que chamaria ao Parque da Cidade. Tínhamos consciência destas diferentes camadas de espaços e quisemos atravessar esta ideia de escala, tal como no vídeo Powers of Ten, que continua muito actual. Temos de pensar em diferentes escalas e aplicar este tipo de pensamento também nas infraestruturas e como elas se conectam, como as coisas se acoplam e afectam umas às outras. Isso esteve sempre nas raízes do meu pensamento.

Como podemos aplicar isso às cidades?

Nos últimos dez anos, vimos designers entrarem na conversação política e temos projectos fantásticos, como o MindLab em Copenhaga ou até em Lahti, onde trabalhei, nos quais os planeadores urbanos tinham consciência do impacto das decisões de design feitas a diferentes escalas e, por isso, envolveram diferentes profissionais e cidadãos. É preciso uma verdadeira participação. Em Lahti, ajudei a criar um manual de co-design, que é uma forma participada de fazer design.

As cidades são locais de força e energia trazidas pelas pessoas. Como se consegue mobilizar os actores para co-criar uma cidade melhor?

Já muito se escreveu sobre isso e volto aos anos 1960 – isto não sou eu a ser nostálgico, mas foi realmente uma altura de muito debate, na sequência do pós-Segunda Grande Guerra e do boom económico que se viveu. Nessa fase, tivemos os primeiros Bauhaus e internacionalistas a aparecer também na arquitectura e na infraestrutura e, depois, começou a ver-se que aquilo, afinal, não funcionava tão bem – como aconteceu com os grandes planos de Le Corbusier. Eram grandes projectos, que até podiam ter uma boa intenção cívica, mas eram muito autoritários, top-down.

Aí, tivemos pessoas como Sherry Arnstein, que criou a Escada da Participação, que é ainda uma forma clássica de pensar estas coisas. No topo, temos a tomada de decisão genuinamente participada entre os cidadãos e quem planeia a cidade, enquanto na base está o tokenismo – que é quando uma decisão já está tomada, mas se pergunta às pessoas o que querem sem ter em conta as respostas. Esta escada já foi revista muitas vezes e é uma boa analogia, mas penso que o design participativo tem raízes longas em algo que foi usado nos 1960, na Escandinávia. Aliás, nos países nórdicos a participação cívica é muito elevada. Eles perceberam que, quando estamos no meio de grandes transformações – e, neste momento, vivemos várias crises e teremos de mudar –, temos de garantir que diferentes vozes vão contribuir para tomar uma decisão. Nas cidades, isso deve acontecer: há um grupo de pessoas cujo trabalho é tomar decisões difíceis, mas que serão sempre mais bem informadas se houver processos de participação.

É algo que tem aplicado no seu percurso?

Comecei o trabalho colaborativo muito cedo. Para esta Biennale, já fiz workshops sobre co-design com diferentes stakeholders e tenho o grupo de curadores a trabalhar em conjunto, mesmo que estejam a fazer trabalhos individuais. Estamos a trocar conhecimento e informações e isto é absolutamente crítico quando enfrentamos múltiplas crises. Agora, temos a pandemia e o que esta trouxe, mas, antes disso, havia já o tema das alterações climáticas e como a cidade lhes dá resposta. A visualização de dados pode ajudar a fazê-lo, há trabalhos que mostram como a temperatura tem aumentado nas cidades europeias nos últimos 30 anos. Em Lisboa, foram cerca de 3 º C, o que é muito. Claro que isto envolve muitos factores, mas também é possível simplificar as coisas falando com ecologistas de plantas ou responsáveis florestais, porque eles são eles que nos vão dizer que uma árvore equivale a 50 unidades de refrigeração.

Todos os conhecimentos podem contribuir para a solução, mesmo que não sejam uma especialidade?

Adoptei a visão dos etnógrafos de design, nos anos 1980, quando começaram a trabalhar com empresas como a Xerox para estudar como as pessoas usavam as fotocopiadoras e juntaram os antropologistas para isso. Percebemos que precisamos de muitos especialistas para compreender a complexidade, mas é também preciso envolver aquilo que se chama a experiência quotidiana das pessoas. Cada um de nós tem um chapéu profissional, mas é também um cidadão com conhecimento sobre o nosso bairro. E este é um tipo de conhecimento ao qual nem sempre os planeadores urbanos conseguem chegar. Na minha experiência em Lahti, para criarmos o ecossistema de co-design, criou-se um clube cívico chamado Lahen D, e 500 cidadãos inscreveram-se. Havia um cartão que permitia que estas pessoas pudessem participar em qualquer debate sobre questões de design da cidade – era muito radical e interessante. Se falamos, por exemplo, de ciclovias, estações ou estacionamento de bicicletas, o conhecimento local é essencial. Temos de desenvolver enquadramentos em que os especialistas possam ter melhor informação a partir dos peritos locais, que são os cidadãos. É aqui que uma cidade pode fazer realmente a diferença e é o que estamos a fazer na Biennale.

“Nas cidades, há um grupo de pessoas cujo trabalho é tomar decisões difíceis, mas que serão sempre mais bem informadas se houver processos de participação.”

As tecnologias digitais ajudam nesta conexão entre os cidadãos e quem toma decisões?

Sim, e há projectos muito interessantes nessa matéria, como o Copenhagen Wheel, que colocou sensores nas bicicletas para medir a qualidade do ar na cidade em tempo real, dando essa informação aos decisores. Este tipo de coisas, com base em sensores e IoT, pode ajudar a tomar medidas para melhorar certos aspectos, mas seríamos tolos se pensássemos que podemos guiar-nos só pelos dados. Temos de nos lembrar que, talvez, metade da população não use a internet todos dias e até os telemóveis podem não usar toda a sua capacidade de interface.

Podemos ter coisas tão simples com meios físicos, como cada bairro ter um quadro de sugestões… Estamos a testar isso na Biennale, através de uma Open Box, uma forma de ter feedback, perguntando às pessoas que ideias têm para melhorar a cidade e, trabalhando com os designers e não só, vamos tentar responder-lhes. Umas [respostas] são muito rápidas, outras mais complexas e exigem mais tempo. Temos diferentes escalas temporais, assim como a nano à micro escala física, e temos também as mesmas escalas em termos de conhecimento. Isso diz-me que a smart city integra, de forma inteligente, diferentes especialidades e conhecimentos, e, por aí, chegamos às questões certas.

O design ajuda nessa integração?

O design é, muitas vezes, visto como uma disciplina para a resolução de problemas, mas se o pensarmos como um meio para enquadrar um problema, acaba por ser uma actividade para encontrar a solução para um problema. E é uma oportunidade para todas as cidades para realmente encontrarem o problema certo. Tal significa compreender a complexidade do problema e como este se conecta, porque, se não identificarmos o problema correctamente, vamos também desenhar soluções erradas. É complexo, pois temos espaço, tempo, conhecimento e especialidades sobrepostos. Encontrar o ponto certo é um desafio… Talvez seja aqui que as tecnologias podem ajudar, já que podem analisar grandes volumes de dados.

Magda Seifert, directora executiva da Porto Design Biennale, e Alastair Fuad-Luke. © Bruno Mesquita

E que papel cabe ao cidadão?

Temos de redefinir o que é hoje um cidadão. Na minha geração, os cidadãos abdicaram da sua responsabilidade ao eleger as pessoas e esperar que estas façam o seu trabalho bem. Isso tem de mudar! Se olharmos para o tipo de governança cívica dos anos 1950 na Europa, vemos que resultou em edifícios cívicos e praças públicas fantásticos, construídos com orgulho pelas cidades e com o apoio dos cidadãos, que tomaram a responsabilidade pelo seu comportamento na cidade e pelos seus bairros. Hoje, entregamos isso, elegemos os governantes e só nos queixamos quando a cidade não está limpa.

Neste debate, temos de encontrar formas de encorajar as pessoas e mostrar-lhes que têm um papel aqui e uma responsabilidade. Podem idealizar, se souberem que as suas ideais vão ser ouvidas ou implementadas, mas têm também a responsabilidade de fazer a cidade o que é. Penso que perdemos um pouco isso e por isso é que há muitos serviços que passaram a ser privados – embora em Portugal, isso não seja tanto assim. Quando pagamos pelos serviços, deixamos de prestar atenção ao que podemos fazer enquanto cidadãos. E se os planeadores derem um pouco mais de responsabilidade aos cidadãos? Se lhes derem um jardim, cuja manutenção custa muito à cidade, para manter? Podem criar um grupo comunitário e cuidar desse jardim? É o que fazem os guerilla gardeners.

As crises que estamos a viver podem fazer-nos assumir esse papel?

Porque não? Porque não havemos de criar uma nova geração de “jardineiros pandémicos”? Os jardins foram tão importantes nesta fase que isto é algo que as pessoas compreenderão facilmente. Esta é a altura para experimentar estas coisas e espero que possamos levantar muitas destas questões na Biennale. Temos muitos debates e conversas programadas. São questões às quais não devemos fugir: podemos organizar-nos de forma diferente? É isto uma colaboração real? As administrações locais estão muito pressionadas nos seus orçamentos, mas este tipo de iniciativas que dão alguma responsabilidade às pessoas pode ajudar a libertar fundos que podem ser investidos noutras áreas, como a saúde.

A pandemia afectou a programação da Biennale?

Nem por isso. O tema central é “alter-realidades”, alinhado a isso temos as alter-paisagens, alter-cuidados, alter-produções, alter-vivências. Ou seja, já estávamos a pedir alter-visões, imaginários diferentes e isso não mudou. Espero que haja, nas pessoas, uma fome de criar cidade, numa perspectiva mais humana, tal como refere o livro The Art of City Making. Vamos ter uma iniciativa que pensa como os humanos partilham a cidade com os não- humanos – como damos espaço aos animais, às plantas. Há agora um movimento de renaturalização das cidades, que, como ecologista, me leva ao debate nos anos 1970/80 e a um programa que havia no RU em que um ecologista urbano apontava onde a natureza estava a nascer na cidade. Vamos ter vários projectos satélite, pequenos, lançámos uma open call e alguns deles abordam estas ligações com outros seres vivos. E isto pode relacionar-se com as alterações climáticas.

Que legado pretende que a Biennale deixe a estes dois territórios?

Se sensibilizarmos as pessoas para ver a sua cidade de forma diferente, elas criarão o seu próprio legado. É uma ambição modesta, mas, se o conseguirmos, isto vai gerar conversas muito positivas e também acções, espero. A Biennale só vai alcançar alguns cidadãos, mas, ainda assim, penso que vamos ter uma boa campanha. Se conseguirmos tornar cidadãos passivos em activos, serão estes que vão deixar o legado.