Um “post” numa rede social levou Sofia Reis ao projeto Refood, uma associação de voluntários que se uniu para combater o desperdício alimentar e ajudar pessoas necessitadas. Aos 21 anos, é uma voz respeitada e ouvida no segundo centro daquela organização no Porto. Finalista de Recursos Humanos, gosta de animais, o amor que abriu a porta do voluntariado, e entusiasma-se com o desafio de organizar e gerir o rendilhado de bens, de pessoas e de bondades que leva comida a quase 30 famílias, todas as semanas, no Bonfim.

Sofia Reis gosta de estratégia, de pensar soluções, de resolver aparentes impossíveis. É o que faz, há pouco mais de um ano, na Refood Bonfim, uma associação 100% voluntária que recolhe desperdício alimentar em supermercados, cafés, restaurantes e eventos e distribui, depois, por famílias carenciadas, no Porto.

Finalista do curso de Recursos Humanos, Sofia Reis coordena, juntamente com Pedro Silva, o segundo centro de operações da Refood que abriu na Invicta. É responsável pela gestão dos 85 voluntários inscritos no Bonfim, um rendilhado fino e extenuante de distribuição das pessoas disponíveis para a entrega de cabazes na sede e para as rotas de recolha de alimentos junto dos parceiros, cinco dias por semana.

No organograma, é essa a função de Sofia Reis, mas durante o primeiro ano do centro bonfinense, a jovem de 21 anos deu a cara por tudo quanto foi preciso fazer para montar uma operação que apoia 27 famílias e junta no combate ao desperdício sete parceiros, entre restaurantes e supermercados, além de outras parcerias e de empresas que apoiam com outros bens.

“Comecei naquelas recolhas de alimentos para animais com a Sociedade Protetora”, recorda. “Era muito novinha”, diz. Passou depois a trabalhar no abrigo dos “patudos”, antes de colaborar com a Animalife na entrega comida para as companhias de famílias carenciadas. “O foco eram os animais. São a minha paixão”, explica Sofia Reis.

Foi fazendo voluntariados esporádicos, até um sábado de 2018 em que tropeçou num “post” nas redes sociais que pedia voluntários para a Refood Foz, a única que existia no Porto. “Fui nessa noite, porque estavam a precisar de reforços. E acabei por ficar”, resume.

“Identifico-me imenso com o projeto, com o combate ao desperdício alimentar.  Sempre gostei de estar envolvida em alguma coisa.  Sou aquela menina que prefere ir trabalhar para um evento do que assistir ao evento. Quero trabalhar! Tenho essa obsessão de querer perceber como é que as coisas funcionam. Na Refood da Foz, acabei a perceber um bocadinho isso”, sintetiza Sofia Reis.

Na primeira experiência na Refood, começou por ser voluntária, foi responsável de turno e acabou a gerir. “Quis subir para a gestão depois de ver uma mensagem sobre uma conta que o centro tinha por pagar. Disseram-me que não era problema nosso, mas lembro-me de pensar: quero que isto seja uma preocupação minha”.  Estava dado o clique para o salto na responsabilidade e no trabalho.

Como coordenadora da Refoof Foz enfrentou os meses da pandemia, o fecho dos restaurantes, os confinamentos. “Foi um desafio incrível, mas muito cansativo. Tivemos de reestruturar as operações e muitos dos nossos voluntários foram para casa”, lembra. Diminuíram o número de dias de distribuição de cabazes de alimentos às famílias, a maioria com bens não perecíveis. “Os restaurantes fecharam. Foi aliás, a grande mudança, porque antes tínhamos muita comida e, agora, temos menos”, explica Sofia Reia.

“Na pré-pandemia, tínhamos cinco ou seis baldes de sopa por dia, sete ou oito caixas de comida, massas, arroz. Hoje em dia, os restaurantes já não produzem tanto quanto produziam.  Mas isso é bom. Hunter Halder, fundador da Refood, costuma dizer que no dia em que não houver excedente alimentar, as refood não precisam de existir”, reflete Sofia Reis, que deixou a beira-mar e rumou a um novo desafio na zona Oriental do Porto, a mais desfavorecida da cidade.

“Uma das coisas que mais valorizo na Refood Bonfim é o facto de serem pessoas que estão há pouco tempo, mas estão todas disponíveis para partilhar e com energia para participar”, explica a jovem, que além do que dá, valoriza o que recebe. “Se vou ao grupo da comunicação e estão a falar sobre estratégias de marketing, estou a aprender com eles, de forma indireta.  Há uma magia nisso”, diz.

A Refood Bonfim sobreviveu à prova do primeiro aniversário e a meio do caminho para o segundo procura novas parcerias e apoios. De empresas e de pessoas que possam contribuir financeiramente para o projeto, porque há sempre melhoramentos a fazer nas instalações e contas fixas para pagar. “É importante envolver a comunidade. É preciso mostrar outras formas de apoiar, como dinheiro, equipamentos e depois serviços”, diz. “Se quiserem oferecer-se para comprar um micro-ondas, aceitamos”, acrescenta.


Este artigo foi originalmente publicado na edição nº 41 da Smart Cities – Outubro/Novembro/Dezembro 2023.