Com pouco mais de 200 habitantes, a pequena aldeia beirã da Muxagata recebeu de braços abertos um projeto piloto que concilia a recolha de resíduos porta-a-porta com a compostagem comunitária. Juntos, novos e velhos, moradores e comerciantes, autarcas e ambientalistas mostram como o interior mais remoto do país também pode ser um exemplo de inovação e sustentabilidade.

Aos 83 anos, Alice Cardoso nunca tinha pensado em reciclar ou ouvido falar do termo compostagem, mas, como gosta de lembrar, estamos “sempre a tempo de fazer coisas boas e ajudar o ambiente”. Dito e feito, foi das primeiras a aderir à iniciativa “Muxagata, Aldeia Sustentável”, um projeto piloto inovador que está a implementar a abordagem zero resíduos nesta freguesia do concelho de Fornos de Algodres, na Beira Alta. Graças a ele, boa parte dos moradores e comerciantes da aldeia passou a participar num novo sistema de recolha de resíduos porta-a-porta que, ao mesmo tempo, ajuda a promover a compostagem comunitária.

“Não tem nada que saber. Como me explicaram, é só pôr cada tipo de lixo no seu saquinho e já está. Isto é muito bom e, tal como as outras pessoas, também quero ajudar”, explica a octogenária, aludindo a dois fatores essenciais para o sucesso da medida: a simplicidade do modelo adotado e a sensibilização dos moradores. Joana Costa, de 33 anos, tem a mesma opinião sobre “esta ideia incrível que facilita bastante a vida a todos”, ajudando os moradores a separar lixo e a escoar os resíduos domésticos. “Em vez de precisar de ir todas as semanas ao ecoponto com o meu potinho da reciclagem, agora só tenho de deixar os sacos azuis, verdes e amarelos à porta de casa, bem como o caixote da comida. Depois é esperar que venham buscar”, diz a muxagatense.

Durante a recolha, que acontece três vezes por semana, a equipa municipal ajuda a esclarecer dúvidas e também anota os baldes de biorresíduos identificados com um número correspondente a cada casa para que se saiba quem participa. Depois, os restos alimentares e os verdes seguem para uma unidade de compostagem instalada na aldeia, cujo composto final poderá ser utilizado para fertilizar os jardins e as hortas da população, mas também os espaços verdes municipais.

Passo a passo, rumo aos zero residuos

O projeto “Muxagata Aldeia Sustentável” começou em outubro do ano passado e, desde então, já chega a mais de uma centena de casas da freguesia. Isto significa que cerca de 55% participa regularmente e que 79% já o fez pelo menos uma vez. Nas primeiras seis semanas, foram recolhidas 2,8 toneladas de recicláveis e 1,2 tonelada de biorresíduos.

Para Bruno Costa, da Câmara Municipal de Fornos de Algodres, os números mostram que “apesar de algumas frações terem de ser mais trabalhadas, a população aderiu bastante bem e encarou a iniciativa como uma missão, sobretudo ao sentir que faz parte de um projeto diferenciador a nível nacional. É por isso que têm uma participação tão assertiva e responsável”. O responsável pelo projeto na autarquia diz que a meta é chegar a toda população da aldeia e que, para isso, será implementado um sistema PAYT (Pay-As-You-Throw), em que cada morador só paga os resíduos indiferenciados que produz: “acreditamos que quando colocarmos esse regulamento em vigor, as poucas pessoas que ainda não aderiram vão imediatamente participar ao perceber que não terão de pagar o dobro, ou mais, na tarifa de resíduos”. Esta terá em conta as quantidades de lixo indiferenciado recolhido nos contentores de rua que, em breve, também serão substituídos por mais pequenos.

Caso o projeto tenha sucesso, o município poderá replicar o modelo em toda a vila de Fornos de Algodres e, eventualmente, noutras freguesias. O que não deixa de ser curioso porque, como diz Leandro Abade, presidente da Junta da Muxagata, “antes de começar, a iniciativa era mal vista em algumas freguesias e havia gente de fora que não acreditava, dizendo que as pessoas não iriam aderir e acabariam por reclamar”. “Mas arriscámos e mostrámos que é possível”, acrescenta. Pelo contacto diário que tem com os moradores, acredita que “a aldeia vai continuar a superar as expetativas e conseguir inverter os níveis de reciclagem muitos baixos que existiam no passado”.

A diferença que fazem 100 (e também 300) quilómetros

A ideia do projeto começou com um desafio da associação Zero à autarquia de Fornos de Algodres e à Junta de Freguesia, criando uma parceria supervisionada pela Zero Waste Europe e assente numa abordagem zero resíduos, que defende a conservação e recuperação de todos os recursos, sem os incinerar ou depositar em aterro. O objetivo inicial era incentivar a compostagem comunitária, mas depois decidiu-se combinar este método com a recolha porta-a-porta de outros resíduos. E os resultados foram tão positivos quanto surpreendentes. “Curiosamente, com a melhoria da recolha dos orgânicos também aumentaram, imediatamente, os níveis de recolha dos recicláveis, que não era o nosso primeiro propósito, mas acabou por ser um benefício colateral muito importante”, diz Ismael Casotti Rienda, ambientalista da Zero.

Para ele, além de envolver os cidadãos na gestão dos resíduos e de sensibilizar a população para a separação, o projeto permite também que deixe de ser necessário transportar os resíduos orgânicos desde a aldeia até à Resiestrela, o centro de triagem do Fundão que fica a mais de 100 quilómetros, reduzindo, desde logo, o consumo de combustíveis e as emissões de C02.

Enquanto o presidente da Junta diz que “a aldeia passou a estar no topo das preocupações ambientais” e Joana Costa lembra que “é uma coisa para o bem de todos”, a Sr.ª Alice Cardoso fica contente porque o filho, que vive em Almeirim, a quase 300 quilómetros, lhe diz que ouviu falar do projeto na televisão: “Agora a Muxagata está um progresso, comenta ele. E eu fico ainda mais orgulhosa da nossa aldeia”.