O estudo “Melhores Municípios para Viver 2023”, apresentado ontem em Lisboa, identifica vários contrastes entre as diferentes regiões nacionais, sobretudo quando comparados o litoral e o interior do país. De acordo com os dados do relatório, elaborado pelo Instituto de Tecnologia Comportamental (INTEC), algumas das principais diferenças dizem respeito ao domínio do ambiente, a começar pelo parâmetro do consumo de água por habitante, que é significativamente superior nos municípios do litoral, sobretudo no Algarve. Já a nível nacional, a média baixou ligeiramente de 2019 para 2021. No caso da energia eléctrica o cenário é semelhante, ou seja, o litoral gasta bastante mais que o interior, com o Algarve a surgir de novo como a região com maior consumo médio por habitante, logo seguida do Alentejo. Neste parâmetro, a média nacional subiu em 2021. Quanto à quantidade de resíduos urbanos recolhidos por habitante, foi significativamente superior nos municípios do litoral, comparativamente com os do interior, e também nos municípios de média dimensão, relativamente aos mais pequenos.

Além do ambiente, o estudo avalia as estatísticas oficiais entre 2019 e 2021, em mais 11 áreas: ensino; cultura, lazer e desporto; comunidade e participação cívica; mobilidade e transportes; economia; segurança; saúde; serviços públicos; turismo; urbanismo e habitação e emprego. Ao contrário de outras edições, desta vez o INTEC não elabora um ranking de municípios, tendo preferido analisar as diferenças entre regiões e municípios, por exemplo entre os do interior e do litoral e entre os de pequena, média ou grande dimensão.

Outro dado curioso diz respeito à cultura, nomeadamente em relação ao número de pessoas que assistiram a espectáculos ao vivo, que baixou consideravelmente de 2019 para 2021. Embora seja no litoral e nos grandes municípios que há mais espectadores, são os concelhos mais pequenos e do interior que investem mais em actividades culturais e criativas por habitante. E o mesmo se verifica no parâmetro da despesa total das câmaras municipais em actividades e equipamentos desportivos.

De acordo com o coordenador do estudo, Miguel Pereira Lopes, um indicador a nível nacional “muito crítico” diz respeito às desigualdades de rendimento, que aumentou “muito consideravelmente de uma forma geral” em 2021. “Ele subiu muito a nível nacional, mas os municípios do interior revelaram valores inferiores do coeficiente de Gini (que avalia as desigualdades de rendimento). Ou seja, as desigualdades agravaram-se no geral, e a diferença é mais acentuada nos municípios do litoral e de maior dimensão”, explicou à agência Lusa.

Emprego, economia, mobilidade e participação cívica

Para Miguel Pereira Lopes, outro dado surpreendente diz respeito à “taxa líquida de criação de empregos por conta de outrem, que é, no fundo, se o saldo dos empregos é positivo ou negativo”. Feitas as contas nacionais, o saldo aumentou bastante, mas principalmente no interior, o que para o autor do estudo pode estar relacionado com o número de pessoas que, com a pandemia, passou a trabalhar em regime de teletrabalho nos concelhos interiores.

Sem surpresa, no domínio da mobilidade, o trabalho do INTEC constatou que a duração média das deslocações diárias é consideravelmente superior no litoral, especialmente na Área Metropolitana de Lisboa. Esta região destaca-se também no parâmetro de veículos novos comprados e registados por município.

Na economia, realce para o facto de o Algarve ter o mais baixo volume de negócios por empresa do país entre 2019 e 2021, o que também se pode explicar com os efeitos da pandemia. Já o poder de compra per capita foi mais elevado nos municípios do litoral e significativamente menos nos pequenos concelhos.

Pela primeira vez, o estudo analisou a participação cívica dos portugueses e, neste caso, a taxa de abstenção nas eleições autárquicas de 2021 foi maior nos municípios do litoral e nos grandes municípios. Neste domínio, foi também comparado o número de associados de organizações não governamentais por 100 habitantes e, aqui, embora seja consideravelmente mais expressivo nos grandes municípios, também é superior nos concelhos do interior, comparativamente com os do litoral.

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