Por:
António Geraldes, Câmara Municipal de Ovar, Divisão de Projetos e Obras Municipais, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), Departamento de Engenharia Civil; Francisco Piqueiro, FEUP, Departamento de Engenharia Civil; Cristina Santos, FEUP, Departamento de Engenharia Civil; CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, Universidade do Porto; Cristina Matos, UTAD – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro; CIIMAR

As zonas urbanas costeiras enfrentam desafios relacionados não só com a erosão, mas também com a gestão das águas pluviais. Quando as condições topográficas, a ocupação do solo e as alterações climáticas potenciam cheias e inundações cada vez mais frequentes, é importante incluir soluções de controlo das águas pluviais para minimizar estas ocorrências.

Nas últimas décadas, tem sido cada vez mais frequente a ocorrência de situações de cheias e inundações, com elevados custos económicos e sociais, devido, principalmente a transformações na ocupação dos solos, ao aumento populacional em áreas urbanas (outrora consolidadas, com infraestruturas que acabam por ficar obsoletas e ineficazes) e à ocupação indevida de zonas de risco. No futuro, o aumento global da temperatura vai intensificar o ciclo hidrológico levando, consequentemente, a cheias mais frequentes e a inundações mais intensas (EEA, 2013) (Salvan, et al., 2016). O maior desafio que se coloca ao desenvolvimento das cidades é garantir a resiliência necessária para lidar com os impactes esperados das alterações climáticas, promovendo a sustentabilidade dos recursos hídricos (Saraswat, et al., 2016), e a segurança e bem-estar das populações.

O Município de Ovar, situado na região centro do país (sub-região do Baixo Vouga) com cerca de 147,50 km2 e apresenta, ao longo da sua costa, grandes áreas dunares, com solos caracteristicamente arenosos, que muito têm sofrido com a erosão marítima. Ao longo da costa do município desenvolvem-se lugares, vilas e cidades, que têm vivido ano após ano graves problemas relacionados com a erosão marítima e com a drenagem das águas pluviais.

O caso específico da freguesia de Esmoriz é um exemplo deste tipo de especificidades. A zona da praia é topograficamente muito plana, limitada a poente pelo oceano Atlântico, a norte pela Barrinha de Esmoriz/Lagoa de Paramos e a nascente pela Vala de Maceda. Nos finais do sex. XIX, com a introdução do caminho de ferro, assistiu-se a um forte crescimento urbanístico suportado pelo turismo balnear.

Estes locais estão dotados de redes de drenagem de águas pluviais convencionais, constituídas por coletores em betão, câmaras de visita e sumidouros. São redes gravíticas, com mais de 30 anos e inclinações, em geral, muito baixas devido às condições topográficas da zona.

A rede pública de drenagem de águas pluviais que drena a partir do ponto A, zona de confluência de dois troços provenientes de Cortegaça e da rua Clube de Campismo do Porto, segue graviticamente até um poço de bombagem que descarrega as águas diretamente para o mar. A águas pluviais afluentes ao ponto B drenam graviticamente para a Vala de Maceda (linha de água que aflui à Barrinha de Esmoriz/Lagoa de Paramos).

Para mitigar as inundações frequentes na zona da praia de Esmoriz (locais A e B), a rede de drenagem de águas pluviais foi caracterizada, tendo sido determinadas as sub-bacias e os pontos de entrega. Com base nesta análise, e com o conhecimento das características dos solos e da morfologia dos locais onde se verificavam as inundações, propôs-se a criação de bacias de infiltração como medida de apoio à rede pluvial. A solução preconizada passou por adaptar o traçado existente, com execução de novos sumidouros, câmaras de visita, coletores e bacias de infiltração.

O Município levou a cabo a requalificação de um largo residencial próximo do local B. Aproveitando esta oportunidade de intervenção fez-se um prolongamento da rede pluvial existente para drenagem do largo e promoveu-se a construção de uma bacia de infiltração com 100 m2 e 0,70 m de profundidade máxima, bem enquadrada com a envolvente (Figura 2). A rede de drenagem de águas pluviais nova apresenta, numa das câmaras de visita, um tubo com cota acima da soleira da câmara, promovendo o desvio das águas pluviais para a bacia de infiltração. A bacia foi construída sobre uma base de terreno arenoso, com um geotêxtil na base e taludes e pedra granítica 200-400 mm de dimensão, na base e taludes. Nos períodos de chuvadas intensas, quando a rede entra em carga (escoamento com secção cheia), verifica-se o enchimento da bacia de infiltração, mitigando a inundação que ocorria no local B.

A interseção da Avenida Infante Dom Henrique com a rua Clube de Campismo do Porto é materializado por uma rotunda (local A), na zona piscatória, a cerca de 100 m do mar. É uma zona de confluência de vários coletores, com diâmetros entre 300-500 mm, que drenam as águas pluviais para norte para o referido poço de bombagem. Em períodos de chuvadas normais, tornou-se comum a inundação de toda a área da rotunda e ramos circundantes. Tal acumulação chegou a atingir 20 cm de altura de água, numa área estimada de 2000 m2. Como se compreende, tal situação causava grandes constrangimentos aos residentes no local, e também à circulação viária, obrigando ao corte temporário das ruas naquela zona de ligação com a freguesia vizinha (Cortegaça). Tendo isto em conta, o Município decidiu fazer uma intervenção para otimização da drenagem de águas pluviais no local, levando a cabo a construção de uma segunda bacia de infiltração de maiores dimensões. Trata-se de uma bacia construída sobre uma base de terreno arenoso, com um geotêxtil na base e taludes e pedra granítica 300-400 mm de dimensão aplicado na base e taludes. A solução desenvolvida consistiu na execução de um pequeno troço a partir da rede pluvial existente, com uma cota de soleira na descarga para a bacia com um valor inferior ao ponto mais baixo da rotunda. Nos períodos de maiores chuvadas, estando a rede de drenagem em carga (secção cheia), a drenagem efetua-se no sentido da bacia de infiltração, mitigando a inundação que ocorria no local A e a ameaça de entrada de águas nas habitações da envolvente.

Estas bacias de retenção/infiltração foram implementadas há 3 anos (local A) e 4 anos (local B), com o objetivo de dar resposta a problemas concretos de inundações que se estavam a tornar recorrentes e com consequências cada vez mais gravosas. Têm-se revelado órgãos complementares bastantes eficazes no controlo das águas pluviais afluentes, com efeitos benéficos bastantes claros para os residentes e transeuntes locais. Após a construção das bacias, verificaram-se pequenas áreas de acumulação de água junto à rotunda do local A, não implicando o corte das vias nem a inundação de habitações. No local B, não tem havido registos de inundações, mas de algumas acumulações de água resultantes do mau estado do pavimento.

Estas bacias são órgãos de drenagem integrados nas denominadas soluções baseadas na natureza (Nature-based Solutions, NbS) por serem soluções de baixo custo com diversos benefícios ambientais e sociais, que “mimetizam características ou processos naturais no ambiente construído para promover a adaptação e a resiliência” das cidades (FEMA, 2021). Tendo em conta o bom desempenho que demonstram nos dois exemplos apresentados, devem, no entanto, deixar de ser soluções do tipo reativo e passar a integrar o projeto e planeamento das infraestruturas urbanas sempre que for possível e tecnicamente viável. Não são soluções estanques, podendo evoluir na sua forma, tamanho e enquadramento paisagístico, de modo a garantir a necessária versatilidade para controlo de águas pluviais em meio urbano.

Referências

EEA, 2013. Flood risk in Europe: the long-term outlook. European Environment Agency, (Last modified 16 Dec 2016). https://www.eea.europa.eu/highlights/flood-risk-in-europe-2013.

FEMA, 2021. BUILDING COMMUNITY RESILIENCE WITH NATURE-BASED SOLUTIONS – A Guide for Local Communities. Federal Emergency Management Agency, USA.

Reis, A. R., 2015. Dicotomia entre a zona piscatória e a zona balnear – Espinho, Esmoriz e Furadouro.. Departamento de Arquitetura da FCTUC ed. s.l.:Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura.

Salvan, L., Abily, M. & Goubesville, P., 2016. Drainage System and Detailed Urban Topography: Towards Operational 1D-2D Modelling for Stormwater Management. Procedia Engineering, Volume 154, pp. 890-897.

Saraswat, C., Kumar, P. & Mishra, B., 2016. Assessment of stormwater runoff management practices and governance under climate change and urbanization: An analysis of Bangkok, Hanoi and Tokyo. Environmental Science & Policy, Volume 64, pp. 101-117.

 

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