Digitalização, modernização administrativa, gestão inteligente de mobilidade e plataformas integradas são as principais direcções que o sector das smart cities deverá tomar (ou continuar) em Portugal durante o ano que começa. Em jeito de antevisão, oito gestores de algumas das principais empresas e consultoras ligadas às novas tecnologias presentes em Portugal apontam-nos os caminhos prováveis para os próximos 354 dias. 2017 deverá ser o ano em que um novo paradigma tecnológico, onde a conectividade e a digitalização imperam, se afirma, mas deverá ser também aquele em que a cidadania verdadeiramente inteligente vai ser mais necessária.

“A desmaterialização da gestão da coisa pública, que, na prática, se traduz na redefinição do próprio conceito básico de política, enquanto gestão da polis, constitui uma tendência inelutável que vai ocorrer em Portugal”, afirma Carlos Lobo, Tax Leader e Government & Public Sector Leader da EY. “Os modelos de gestão das redes de infra-estruturas, bem como os modelos relacionais entre os cidadãos e governantes vão alterar fundamentalmente os quadros mais básicos que moldam a gestão pública”. Mas, ainda que com processos de gestão mais ágeis e eficientes, nem tudo são rosas e as mudanças, intrinsecamente ligadas ao conceito de cidades inteligentes, que se antecipam, não só para Portugal, mas para o mundo, acarretam riscos que é preciso precaver. “O E-government e a proximidade relacional alteram radicalmente os próprios modelos de democracia”, alerta Carlos Lobo. “De uma democracia representativa, estamos a passar rapidamente para um modelo de democracia directa, imediatista e, por vezes, sem filtros. Este elemento final é o pior risco. A desmaterialização das relações vai acompanhar rapidamente a automatização dos processos e a inteligência funcional da sociedade. A cidadania inteligente terá mesmo de ser inteligente sob pena de legitimar movimentos demagógicos de nicho. Informação de qualidade e cidadania inteligente estão indissociavelmente ligadas e são cruciais num futuro próximo”.

Em linha com a chamada de atenção de Carlos Lobo, está a previsão de Rui Fontoura. O CEO da Saphety, empresa de facturação electrónica e soluções purchase-to-pay e que se afirma exactamente no campo da desmaterialização, acredita que este será um ano em que "os povos terão a tendência para questionar e/ou rejeitar, cada vez mais, a forma como e por quem estão a ser governados".

Após um período de compreensão e introdução ao conceito, em 2017, Portugal parece estar pronto para adoptar, no terreno, as “cidades inteligentes”. Esta é, pelo menos, a interpretação da NEC Portugal. Para João Paulo Fernandes, director-geral, este vai ser o ano em que se vai assistir ao “despontar da adopção de soluções” para cidades inteligentes, “com os primeiros projectos comerciais a serem implementados pelos municípios mais inovadores e o interesse crescente de outros no teste e adopção destas soluções”. Neste cenário e para que os municípios portugueses possam tirar o melhor partido destas acções, o gestor alerta para a importância do apoio estratégico da administração central, nomeadamente ao nível dos fundos europeus. Um bom exemplo, refere, está aqui mesmo ao lado: “Em Espanha, o esforço concertado da administração central e dos municípios permitiu a criação de um programa de adopção de soluções para cidades inteligentes, dotado de um financiamento de 188 milhões de euros, do qual já beneficiaram 28 projectos, envolvendo mais de 30 cidades espanholas (visto que alguns projectos contemplam várias cidades). Dada a importância estratégica que o investimento em soluções para cidades inteligentes pode ter ao nível do crescimento económico, da geração de emprego, da sustentabilidade e eficiência das cidades e do bem-estar das populações, é desejável que este tipo de boas práticas possa começar a ser replicado em Portugal”.

Para os criadores do projecto Corunha Smart City, a Indra, tudo aponta para que as cidades portuguesas avancem, este ano, para “integração de sistemas verticais já existentes, como forma de retirar mais informação para gestão e cidadãos”. Miguel Brito Campos, manager das áreas de Administração Pública e Saúde da Indra Portugal, antevê a realização de projectos piloto como “um passo decisivo rumo à implementação de sistemas inteligentes para cidades inteligentes” no país. A acompanhar essa tendência, a empresa global de origem espanhola está a preparar um conjunto de Jornadas Smart City em território nacional, nas quais a missão será “mostrar a sua capacidade e boas práticas já realizadas em cidades a nível global com as suas soluções para o sector”.

“Depois da digitalização de informações, transacções comerciais e interacções sociais, assistimos agora ao processo de digitalização do mundo físico. E, claro, este mundo físico toma forma nas cidades, que são um sistema de sistemas, todos eles digitalizados ou em vias disso”, contextualiza António Pires dos Santos, Business Development & Cognitive Solutions Leader da IBM Portugal. É neste “mundo físico cada vez mais digital” que as empresas se alinham para desenvolver soluções capazes de dar resposta às novas necessidades. No caso da IBM, a grande aposta tem sido numa nova Era Cognitiva, proporcionada pelo “super sistema” IBM Watson. Enquanto lá fora, a gigante norte-americana investe em projectos inovadores nas áreas da Internet of Things (IoT), Computação Cognitiva e Indústria 4.0, em Portugal, António Pires dos Santos está certo de que a instrumentalização e a digitalização da realidade serão tendências a seguir, nomeadamente “em projectos que têm por objectivo melhorar a forma como vivemos e trabalhamos nas nossas cidades e comunidades”. Transportes, gestão de recursos e resíduos são algumas das áreas que os dois centros de inovação da IBM em Portugal (Tomar e Viseu) estão a trabalhar e que, assegura, serão revelados “a seu tempo”.

“Fog Computing” são as duas palavras que, de acordo com a Cisco Portugal, vão dominar o sector em 2017, tanto a nível nacional, como internacional. António Feijão, IoT Country Manager, explica do que se trata - “um novo paradigma tecnológico que permite construir comunidades inteligentes conectadas de forma sustentável, [já que] a tecnologia reduz a complexidade gerada pelas soluções isoladas, adicionando capacidade de processamento de dados e aplicações, análise e segurança nos equipamentos presentes no extremo da rede, próxima dos sensores e dispositivos que estão nas ruas – ligando-os de forma inteligente a uma plataforma de back-end na cloud”. É na era da IoT que o Fog Computing se torna determinante, defende o especialista, isto porque “muitos dispositivos IoT (como câmaras e sensores) têm o potencial de sobrecarregar as redes, gerando volumes massivos de dados que devem ser processados, analisados em tempo real e optimizados em termos de tráfego gerado antes de chegar aos Data Centers e à Internet”. A par da oportunidade, esta tecnologia traz também uma nova realidade: “se há componente da rede global da IoT que precisa de reforço para responder de forma pronta às exigências de negócio é o extremo da rede, ou seja, a barreira entre os dispositivos IoT e os computadores na Internet”.

Num mundo que está a mudar com a digitalização e ao qual as “cidades não escapam”, há desafios concretos que se destacam. A mobilidade é assumidamente um deles e as propostas de resolução disponíveis contam com players de peso. A Siemens serve-se da sua experiência neste sector e na ligação às tecnologias de informação para se apresentar como uma “referência” na criação de ofertas e experiências de mobilidade para clientes e passageiros. “A área da gestão inteligente de mobilidade é, sem dúvida, uma das que mais tem vindo a preocupar e a interessar as metrópoles portuguesas”, avalia Manuel Nunes, director da divisão Mobility da Siemens Portugal, “por isso, diria que as plataformas integradas de mobilidade, que integram diversos prestadores de serviços na área dos transportes serão uma das principais tendências de 2017, bem como dos anos seguintes”.

No panorama internacional, é também a mobilidade, mais concretamente a condução autónoma, que merece a referência da Ericsson, cujo relatório anual sobre as principais tendências de consumo para 2017 e anos seguintes antevê mesmo a extinção dos condutores automóveis. Se esta é uma realidade que parece pouco provável já neste novo ano, há, para Filipe Monteiro, Head of Industry and Society da Ericsson Portugal, outros factores certos para o futuro imediato e que se prendem com a dinâmica de inovação e empreendedorismo que se vive actualmente em Portugal: “o surgimento e desenvolvimento de mais iniciativas de base tecnológica que visem dar resposta aos actuais desafios de sustentabilidade e melhorem o dia-a-dia de quem vive, trabalha ou visita o nosso país”.

 

Saiba mais sobre as tendências e projectos destas empresas para 2017 na edição de Janeiro/Fevereiro/Março da Smart Cities.