Observar as mudanças e a disrupção trazidas pelas novas tecnologias é a função de Bettina Tratz-Ryan. A analista vice-presidente da Gartner, responsável pela divisão smart cities, tem mais de 20 anos de experiência no sector tecnológico e esteve, recentemente, em Portugal para falar sobre os benefícios de uma estratégia de digitalização. Em exclusivo à Smart Cities, confessou a preocupação com a equidade digital e apontou as tecnologias que deverão marcar o futuro próximo.

Quando se fala de smart cities, o enfoque está na componente tecnológica?

Depende da maturidade das cidades. Nas cidades grandes que começaram já muitas discussões sobre o que a tecnologia e a sua implementação poderá trazer, o foco está a virar-se para qual o benefício para o utilizador. Se a maturidade digital do CIO [Chief Information Officer] ou do Departamento de IT está nesse nível, vai pensar-se sobre qual é o próximo passo. Mas muitas das cidades ainda estão na fase da jornada, estão a tentar definir [o conceito]. “Smart” tem um significado muito pobre. Pessoalmente, não gosto nada do “smart”, porque muitas cidades podem não ter capacidade tecnológica, mas isso faz delas estúpidas? Penso que não. Enquanto indústria, temos de adoptar uma visão mais realística do que significa o smart – uma cidade envolvida, sustentável, verde, ambientalmente capacitada... É para aí que a cidade inteligente caminha. É uma viagem que os autarcas e outros stakeholders, como a indústria ou na perspectiva dos cidadãos, têm de encontrar uma forma de definir.

O termo “smart” pressiona as cidades para alcançar determinado nível tecnológico?

Sim, sem dúvida. A ideia de “smart” estende um tapete vermelho para que os fornecedores cheguem com tecnologia “inteligente”. Mas esse não é um termo bom para descrever cidades que estão a começar a pensar nesse assunto. Quais são os desafios intrínsecos que a sociedade tem? É a habitação? É o envelhecimento da população? São as emissões dos carros? Esta discussão não se reflecte em nada no [termo] “smart”, mas reflecte-se quando pensamos em colaboração, no envolvimento do cidadão, numa sociedade inclusiva. Isso é uma ideia melhor do que deve ser uma cidade.

Nesse caso, quando as cidades se apresentam como showroom de soluções tecnológicas, não é um bom princípio?

Não, mas é algo que surge naturalmente. É, na verdade, é humano. Se quiser comprar um vestido de noiva, não o vai comprar on-line. Passa-se o mesmo com as soluções para cidades inteligentes. Se se quer mostrar a “beleza” de uma cidade, a sua inclusividade ou sustentabilidade ambiental, claro que vai querer ser uma mostra do que consegue fazer. No entanto, é errado ser um showroom para tecnologia. Deve sê-lo para um ambiente de envolvimento. Aplaudo as cidades que queiram ser mostras de como, por exemplo, capacitar empreendedores de pequena e média dimensão ou como ser inclusivas relativamente às comunidades de imigrantes...

E como a sociedade tem progredido nesse aspecto?

É uma questão difícil. Estamos a ficar muito imersos digitalmente. Com toda a penetração digital nas nossas vidas quotidianas, temos os smartphones a dizer-nos quando sair de casa; frigoríficos que nos dizem quando encomendar leite; carros que nos indicam qual o melhor caminho. Enquanto indivíduos, tornamo-nos bastante inteligentes e envolvidos com o nosso ambiente. Enquanto comunidade, isso também se vê. Quando, por exemplo, estamos numa experiência comercial, não confiamos no vendedor, mas, sim, na comunidade, que classifica um fornecedor ou um produto. Até nesse aspecto, nos tornámos muito smart, porque estamos a pedir a opinião dos outros. O desafio da sociedade é que, por um lado, capacitámos digitalmente as pessoas, em particular as gerações mais jovens, mas, por outro, temos uma parte da sociedade que não entende bem o digital. E isto pode dever-se a más experiências, como hacking das contas bancárias ou o facto de verem o digital como uma ameaça ao contacto diário e à colaboração social ou por não terem dinheiro suficiente para comprar equipamentos... Face à diversidade que existe na sociedade, os agentes smart – quer os líderes, quer a indústria – devem olhar para isto. Na dimensão das cidades inteligentes, a oportunidade que existe é a de construir a equidade digital, no sentido em que perguntamos se existe uma fundação unilateral que capacite todas as pessoas digitalmente, compreendendo as oportunidades que a tecnologia e os dados trazem.

Estamos a conseguir fazê-lo?

Não sei se a sociedade está preparada para abraçar a dimensão digital na sua plenitude. No entanto, se uma cidade usar dados e inteligência artificial com vista à equidade digital, aí, podem usar-se ferramentas inteligentes, aplicações, a Internet of Things, para empoderar pessoas a resolver os seus desafios diários. É uma situação win-win.

 

“As pessoas expressam a sua felicidade através dos votos. É o veredicto final".

As cidades estão muito empenhadas em envolver os cidadãos nas decisões e usam as estratégias com base tecnológica para isso, como a gamificação. Isso abre portas a um cenário em que possamos ser classificados, consoante a nossa actuação e resultar daí alguma discriminação?

Trata-se novamente de uma questão de equidade. Se, por ter um smartphone recente e compreender que certas acções me vão dar pontos, vou ter benefícios comparativamente a uma pessoa de 80 anos que não tem as mesmas condições, é porque [a estratégia] não está equilibrada no que se refere às oportunidades digitais.

Ao implementarem este tipo de medidas, estão as cidades  a contribuir para essa divisão?

Se se limitarem a oferecer o serviço, sim. E é aqui que a colaboração entra. Vemos também que, se houver mais transparência nas actividades, é mais provável que haja entreajuda nas comunidades. Há uma grande oportunidade de criar mentoria digital ou guardiões digitais. Veja-se aquilo que se faz já com as crianças, com os pais a poderem saber quando os filhos estão no autocarro da escola, o que almoçam, etc. Imagine-se esse tipo de serviços na perspectiva dos mais idosos. A possibilidade de os acompanhar, sem personalizar, apenas para assegurar a sua segurança. É uma forma de mentoria que pode também ser implementada e que passa por olhar para o bem comum. Isto remete um pouco para a questão anterior, sobre se estamos apenas a olhar para o digital. A resposta está em usar as nossas intuições não apenas para avançar o colectivo, mas também para ajudar as comunidades mais próximas a participar nos seus moldes próprios.

Podemos usar KPIs (indicadores de desempenho) para fazer isso?

Sem dúvida. A cidade de Kobe, Japão, teve sismos muito graves no passado e têm um sistema de resposta para os mais velhos. As pessoas inscrevem-se e comprometem-se a tomar conta destas pessoas, recebendo pontos por isso. Desta forma, não só se está a aumentar a penetração dessa mentoria e a usar KPIs para isso, mas também se dá, à outra parte que precisa de receber essa mentoria, a sensibilização de que existe um sistema de rastreamento, e isso também a capacita a ser uma parte activa.

Quando usamos KPIs, podemos medir a satisfação ou a felicidade de uma cidade?

Esta é uma questão psicológica [risos]. Da perspectiva da cidade, os cidadãos são muito abertos a partilhar com os governos se gostam deles ou não. “Está satisfeito com x serviço?!” Este tipo de perguntas é-nos feito várias vezes quando acedemos a um serviço ou compramos qualquer coisa, por isso, penso que as pessoas partilham de boa vontade. Se a partilha dos nossos níveis de satisfação se refere a felicidade, diria que seria um bom passo e, enquanto cidade, estaria definitivamente preocupada com isso. Porque, se receber negatividade, é sinal de que algo está mal... Mas também não é 100 % certo que um cidadão feliz é alguém que está completamente satisfeito, porque há também o factor emocional do que é que significa felicidade.

E é muito subjectivo.

Muito. Os KPIs vão ajudar-nos a dizer “a Bettina disse que estava feliz porque estava num lindo hotel, com vista para o mar, é uma turista” e este parâmetro de felicidade é diferente do de uma pessoa que ganha 600 euros por mês.

Os responsáveis municipais estão interessados em saber o que os seus cidadãos valorizam?

Há cidades que estão muito interessadas. As pessoas expressam a sua felicidade através dos votos. É o veredicto final. O que vimos nos últimos dois anos na Europa é que, em governos eleitos democraticamente, os cidadãos estão a votar e os autarcas e líderes de comunidades locais estão a tornar-se muito conscientes disso. Ainda há a questão de passar do “há qualquer coisa mal” para o “como o vamos resolver”. Aqui a sensibilização ou a transparência que os KPIs podem trazer relativamente às coisas que não estão à altura das nossas expectativas é uma oportunidade. Mas isto leva tempo e o primeiro passo que as cidades devem dar é pôr a questão. E muitas smart cities já o fizeram, podem não ser super bem sucedidas em levar tudo avante, mas a questão está, definitivamente, a ser colocada.

Colaboração é importante e também para lá da escala municipal. Como podemos promover a colaboração entre territórios que estão habituados a competir entre si?

O desafio que vemos em cidades mais pequenas é que estas podem não ter os departamentos tecnológicos ou os compromissos dos stakeholders necessários. Pode haver um autarca ou líder da comunidade que está interessado, mas não há a mesma conjuntura. Aí, vemos dois players importantes: as cidades, ou autoridades regionais, e a indústria. Nas primeiras, pode optar-se por pegar em soluções “standard”, colocá-las na nuvem e permitir que cidades mais pequenas subscrevam a solução como serviço – iluminação, estacionamento, gestão de tráfego, etc. Esta perspectiva da cloud tem pouco risco, pois não é preciso ter muitas competências para implementar essa solução e ver que funciona. A indústria pode ter gabinetes distribuídos e servir de consultora para os territórios mais pequenos sobre como estabelecer uma comunidade industrial ou criar uma rede de comunicação, ou outras questões ligadas à infra-estrutura.

Não há o risco de ficar preso a uma tecnologia?

Há, mas há também uma relação win-win. Se há uma visão mais alargada ou regional para criar, por exemplo, com vista a novas indústrias ou criar empregos, há que se focar naquilo que é melhor para a sua cidade ou região. É preciso ter uma ideia do que se quer fazer. Só criar uma cadeia de fornecimento não é suficiente.

O governo central pode ajudar a criar estas estratégias?

Sim. Verificámos que alguns governos centrais, como em Espanha, Alemanha, ou Reino Unido, estão a criar incubadoras e laboratórios de inovação e não apenas para tecnologia, mas também trazendo, enquanto um hub de conhecimento, cidades e regiões que olham e vêem alguns aspectos dos desenvolvimentos smart cities. Outra coisa em que podem ajudar é no financiamento de consultores e não falo de ter uma gigante a entrar numa cidade, mas, muitas vezes, existem consultores regionais ou locais que podem ajudar em matérias como a energia, a descarbonização, entre outros. Temos de ser realistas, as cidades mais pequenas podem não ser capazes de o fazer sozinho, mas têm muito medo de ficar nas mãos de grandes empresas de consultadoria. Os governos centrais podem certificar uma lista de consultores locais e ajudar nesse sentido.

A ideia de cidade como serviço faz sentido?

Sim, e utilizando, para isso, a cloud. Há uma grande necessidade em termos de segurança de infra-estruturas e de dados, onde fica a cloud, etc. Há uma série de questões técnicas a ponderar, mas há que fazer um de-risking de alguns desenvolvimentos tecnológicos e, mais uma vez, é preciso visão para perceber porque se vai fazê-lo.

Na Gartner, uma das suas funções é a de olhar para a disrupção. Que tecnologias vão marcar o futuro próximo?

Vemos uma grande disrupção com os sistemas autónomos, a inteligência artificial e o machine learning. Cidades ou comunidades que têm baixos níveis de equidade digital – aos níveis de aceitação societal, competências, talento, nas estruturas governamentais e até na indústria – podem ter os maiores níveis de disrupção. Os carros e os drones autónomos vão chegar e os nossos sistemas vão automatizar-se. Mas, quando estes equipamentos começarem a falar uns com os outros, como vamos lidar com isto enquanto sociedade e enquanto cidade? Há muito trabalho de governação e de entendimento da equidade digital que precisa de ser feito.