Hoje, a reciclagem já faz parte da rotina de muitos portugueses, mas nem sempre foi assim. Neste processo de associar o amarelo ao plástico, o azul ao papel e o verde ao vidro, tem sido inegável o contributo da Sociedade Ponto Verde (SPV). Agora, com a urgência de um novo modelo de consumo, o desafio alargou-se. Em entrevista, Teresa Cortes, gestora de marketing e comunicação da SPV, explica como se pode olhar a economia circular como uma oportunidade.

Ao nível de sensibilização, podemos considerar a separação de resíduos e a reciclagem um caso de sucesso. Concorda?
É, sem dúvida, um caso de sucesso. Quando a SPV surgiu, o próprio conceito de reciclagem era ainda desconhecido pela maioria dos cidadãos. Hoje, faz parte da rotina de mais de 70% dos lares, um número que acreditamos que vá continuar a crescer e para o qual queremos continuar a contribuir activamente, lado a lado com os portugueses.

Qual foi o contributo da SPV para a situação actual?
A SPV procurou sempre desenvolver mais e novas formas de chegar à comunidade para inspirar, identificar e ajudar a derrubar as principais barreiras que a impediam de começar a reciclar. Desde campanhas de comunicação em massa, iniciativas de terreno e proximidade, passando ainda pela produção e oferta dos tão bem conhecidos ecobags, no total, falamos de mais de 50 milhões de euros investidos em sensibilização. Uma aposta que tem no crescente número de cidadãos que separam as embalagens o espelho do seu sucesso. A disponibilização de um grande e cada vez maior número de ecopontos desempenhou também um papel essencial para possibilitar e incentivar a recolha de embalagens. É com satisfação que hoje contamos com mais de 45 000 ecopontos espalhados pelo país.

A reciclagem é muito importante, mas temos de ir mais além e avançar para um modelo novo de consumo, circular. O quão longe estamos desse cenário?
A verdade é que estamos, a cada dia que passa, mais perto desta realidade. Governos e empresas estão mais conscientes da importância de adoptar um novo modelo de consumo. O típico “extrair, transformar, usar e deitar fora” começa, gradualmente, a perder espaço para uma nova forma de consumo focada numa utilização mais eficiente dos recursos, com impactos muito positivos ao nível da preservação dos mesmos e ainda da prevenção dos resíduos.

Na óptica da SPV, qual o maior desafio que a economia circular representa?
Os benefícios da economia circular são amplamente reconhecidos, mas a sua implementação enfrenta ainda alguns desafios. Isto porque esta pressupõe a existência de mudanças nos vários pontos da cadeia de valor, desde o design à produção, passando ainda pelo estabelecimento de novos modelos de negócio.

Como se chega lá?
A economia circular deve ser encarada enquanto uma oportunidade de repensarmos o actual modelo de consumo, que tem repercussões nos mais variados momentos e situações do nosso quotidiano. Por isso, é merecedora da melhor atenção por parte das entidades decisoras, desde governos, associações e empresas, que têm o poder de acelerar este processo que já está em andamento e do qual não é possível voltar atrás. Esta é também uma oportunidade de promover a utilização eficiente e valorização dos nossos recursos, bem como a competitividade, acompanhada de novas oportunidades de crescimento, adaptação e incentivos económicos.

Como avalia o papel dos municípios neste processo?
A SPV espera dos municípios que estes reflictam uma crescente ambição na concretização de uma melhoria do nível de serviço aos cidadãos, tornando os hábitos de reciclagem cada vez mais convenientes.

O que pode ser melhorado do lado de quem governa?
São indiscutíveis os passos que Portugal deu ao longo dos últimos anos. Exemplo disso foi a aprovação do Plano de Acção para a Economia Circular 2017-2020, o primeiro documento de estratégia pública para garantir a implementação dos princípios da economia circular. É importante que os governantes e a administração cultivem relações de proximidade com as empresas e intervenientes na gestão do processo de reciclagem, legislando de forma mais simples e que permita colectivamente atingirmos os nossos objectivos. Há que promover a simplificação legislativa e isso é seguramente um papel que cabe aos governantes.

Ainda ao nível da legislação, aquilo que está previsto para a reciclagem e valorização dos resíduos é coerente com as metas definidas?
As metas definidas devem ser encaradas como o reflexo do caminho que se tem vindo a trilhar em direcção a uma economia mais circular. Há muito por fazer e é necessária ambição e muito trabalho para atingir as metas. Será um esforço colectivo, não só nacional como europeu, não se podendo naturalmente ignorar as diferentes realidades de país para país.

Qual o tipo de resíduos que representa (ou representará) o maior desafio para as nossas cidades?
De certa forma, podemos dizer que todos os resíduos são um desafio para as nossas cidades. Nas últimas décadas, o mundo tem vindo a apresentar um crescimento urbano sem precedentes e em Portugal 43% da população nacional reside em cidades. Mas a urbanização também tem vantagens, já que oferece economias de escala mais eficientes a muitos níveis, nomeadamente na gestão de resíduos. Uma realidade que tem impulsionado ao longo dos anos o aparecimento de novas tecnologias que, em conjunto com a aplicação de práticas que promovem a economia circular, permitem que avancemos em direcção a cidades mais eficientes e sustentáveis. Da nossa parte, temos desenvolvido um grande trabalho de motivação junto da população, que é quem, no final, tem o verdadeiro poder de transformar as nossas cidades.

 

“Numa smart city, a Sociedade Ponto Verde continuaria a desempenhar o papel que tem agora: contribuir activamente para incentivar empresas e cidadãos a fazerem parte do importante movimento de cidadania que é a reciclagem, tornando-a numa realidade em Portugal, e expandir este compromisso à economia circular, que acreditamos que será um importante passo, não só para o nosso país, como para todo o mundo”.

O conceito de cidades inteligentes está intrinsecamente ligado às novas tecnologias, cuja taxa de obsolescência é elevada. Podem as smart cities representar um agravamento do uso ineficiente de recursos?
O conceito de cidades inteligentes deve ser um estímulo ao desenvolvimento de soluções inovadoras para os mais diversos sectores, da mobilidade à reciclagem. A tecnologia é fundamental para esta mudança de paradigma e deve ser encarada, por isso, como algo positivo. Apesar da sua rápida actualização, é esta que permite aumentar e potenciar ao máximo a optimização dos recursos, reduzir custos e até atrair investimento, sem descurar a sustentabilidade de todo o sistema.

Em contrapartida, como pode o conceito de smart cities contribuir para que alcancemos os objectivos em matéria de gestão de resíduos e economia circular?
Temos experienciado uma grande evolução nos últimos anos, tanto ao nível da gestão de resíduos como das próprias tecnologias utilizadas. Hoje, por exemplo, algumas cidades já utilizam contentores de nova geração que permitem ao município conhecer o volume ocupado em relação a cada material, podendo essa informação ser usada para melhorar as rotas de recolha, poupar e, em suma, ser mais eficiente.

Do lado dos cidadãos, assistimos a várias iniciativas, como os Repair Cafés ou alguns movimentos no âmbito da economia da partilha. Qual a importância dessas acções?
Encontramos cada vez mais projectos e ideias que se inserem num modelo de economia circular, e muitos deles implementados e presentes ao nível do dia-a-dia dos consumidores e cidadãos, sendo os Repair Cafés um dos exemplos mais conhecidos. Estas iniciativas são muito benéficas, uma vez que permitem reduzir a quantidade de resíduos produzidos, principalmente dos materiais para os quais ainda não foi encontrada uma alternativa de reciclagem viável. Regista-se, assim, uma diminuição da necessidade de explorar novas matérias-primas, permitindo, mais uma vez, estender ao máximo o tempo de vida dos nossos produtos e recursos.

A SPV participa ou incentiva de alguma forma estes movimentos bottom-up?
Desde o seu início que a SPV tem estado atenta a este tema, assumindo objectivos muito importantes ao nível da prevenção de resíduos que passam, nomeadamente, pela optimização dos processos de produção das embalagens e pelo design, de forma a que as embalagens possam ser, na sua origem, mais amigas do ambiente, isto é: gerarem menos resíduos e serem mais recicláveis. Para além disso, ao longo dos seus mais de 20 anos de actividade, investimos cerca de dois milhões de euros em projectos de Investigação e Desenvolvimento(I&D), dos quais resultaram soluções tão importantes como a viabilização da reciclagem dos chamados plásticos mistos (ex.: copos de iogurtes, embalagens de manteiga, etc.), até então sem solução técnica.

Com o programa Open Innovation, lançado em 2015, a SPV tem apoiado a inovação no sector. Qual o balanço que faz da iniciativa? Pode indicar dois exemplos de sucesso?
O Ponto Verde Open Innovation foi um projecto que veio consolidar a nossa aposta em I&D, apresentando-se como uma plataforma de lançamento de empresas e negócios, tendo apoiado os mais diversos projectos e ideias. Entre eles o Plascer, um projecto desenvolvido pela empresa Extruplás, que visa o encaminhamento para reciclagem de um conjunto de materiais plásticos (plásticos mistos) com o intuito de lançar produtos inovadores no mercado nacional, nomeadamente produzir pavimentos, tábuas de madeira plástica, mobiliário urbano ou postes de vinha. Também com base no aproveitamento de plásticos mistos, surgiu o projecto TRAVATEC, que tem como objectivo o desenvolvimento de travessas para assentamento de linhas de caminho-de-ferro em material composto maioritariamente por plásticos provenientes da fileira dos plásticos mistos.