2018-01-31

Vinhais: o concelho que fez o Fumeiro render milhões

Ana Fragoso

Numa altura em que tanto se fala de inteligência urbana, os territórios de baixa densidade estão a encontrar estratégias de valorização e desenvolvimento sustentável que nada têm a ver com novas tecnologias de informação e comunicação. O exemplo vem de Vinhais, um dos concelhos mais afastados da capital portuguesa, cuja aposta escolhida representa já, em números para a economia local, uma verdadeira revolução: 200 postos de trabalho directos e a geração de negócios na ordem dos seis milhões de euros anuais.

Com pouco mais de dez mil habitantes, Vinhais é uma zona afectada pelo despovoamento e que, durante anos, teve graves problemas de acessibilidades, à semelhança de todo o Nordeste transmontano. Ainda assim, o município foi capaz, sem ensinamentos de fora, de criar de raiz uma estratégia de desenvolvimento económico com base na valorização e certificação de uma arte local: o fumeiro.

Este processo começou em 1994, com a criação da Associação Nacional de Criadores de Suínos de Raça Bísara (ANCSUB) resultante dos esforços conjuntos dos Serviços Oficias da Agricultura, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), câmara municipal de Vinhais e alguns criadores da raça. Por essa altura, Carla Alves, uma jovem licenciada em zootecnia, integrou a equipa da câmara municipal de Vinhais e deu início à protecção da raça de suínos bísaros, em grave risco de extinção. Em pouco tempo, conseguiu o reconhecimento da raça. Essa certificação, com Denominação de Origem Protegida (DOP), acrescentou-lhe valor, foi convencendo os produtores e tem actualmente um efectivo reprodutor de 5800 fêmeas e 600 machos, espalhados por 200 explorações, situadas principalmente nas regiões de Trás-os-Montes, Minho e Beiras.


Sem nunca parar, Carla Alves avançou com um projecto de certificação do Fumeiro de Vinhais, que usa o porco bísaro como matéria-prima, e já é o segundo concelho no país com mais produtos certificados com Indicação Geográfica Protegida (IGP): Salpicão de Vinhais (IGP); Chouriça de carne de Vinhais (IGP); Alheira de Vinhais (IGP); Butelo de Vinhais (IGP); Chouriço Azedo de Vinhais (IGP); Chouriça doce de Vinhais (IGP); Presunto de Vinhais (IGP); e Carne de Bísaro Transmontano.


Estes produtos são vendidos a “um preço justo” e são razão para que, ano após ano, milhares de pessoas de todo o país se desloquem a Vinhais, para a Feira do Fumeiro, um evento com 38 anos de existência. Em 2018, o certame gastronómico decorre entre 8 e 11 de Fevereiro e estima-se que, por esses dias, 80 mil pessoas visitem a vila de Vinhais.


O sucesso também se confirma pela procura crescente dos produtores. “Note-se que a população continua a fugir das zonas rurais, o processo de despovoamento mantém-se acentuado e, mesmo assim, temos o número de produtores de Fumeiro a aumentar, estamos em contraciclo”, explica Carla Alves, que assume a responsabilidade de liderar a organização da Feira há mais de 20 anos.

Esta aposta no Fumeiro e na Feira do Fumeiro já foi ganha, mas a autarquia e os produtores não baixam os braços e continuam a percorrer os grandes meios urbanos, onde se concentra a maioria da população, a promover o certame gastronómico e os produtos. Nesta terça-feira, a organização veio a Lisboa, apresentar a Feira e o Fumeiro à imprensa, tendo já passado pelo Porto e Braga.





Notícia actualizada a 01 Fevereiro 2018, corrigindo o ano em que foi iniciado o processo de "1995" para "1994, com a  criação da  Associação Nacional de Criadores de Suínos de Raça Bísara (ANCSUB) resultante dos esforços conjuntos dos Serviços Oficias da Agricultura, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), Câmara Municipal de Vinhais e alguns criadores da raça".

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