2018-01-24

Dez ideias para a inteligência urbana

Catarina Selada, CEiiA City Lab

No início de um novo ciclo, apresentam-se dez ideias para a construção de uma cidade inteligente baseadas nos resultados e nas boas práticas do Smart City Index 2016, um instrumento de análise da inteligência urbana desenvolvido pelo CEiiA City Lab.


1. Visão e estratégia

 

Na sua trajectória rumo a uma cidade inteligente, os municípios devem definir uma visão de futuro e uma estratégia de desenvolvimento a médio e longo prazo. O modelo de governação inerente à elaboração e implementação deste roadmap deverá assentar numa articulação entre departamentos, combatendo a abordagem em silos e privilegiando uma abordagem holística e multidisciplinar das cidades.

 

A colaboração com os stakeholders é, também, uma condição necessária para o sucesso das estratégias smart city, como se demonstra nos casos do “Smart London Board” ou da “Birmingham Smart City Commission”, que integram os poderes públicos, empresas, universidades, associações e cidadãos no processo de definição do futuro das cidades.

 

Os resultados da aplicação do Smart City Index 2016 a 36 municípios portugueses mostram que 22% possui planos de acção na área das cidades inteligentes, sendo que 28 % estabeleceu uma equipa, departamento ou função específica (tais como “Chief Smart City Officer”) para coordenar os projectos associados à inteligência urbana.

 

Águeda destaca-se ao ter definido uma estratégia integrada de smart city, articulando projectos de mobilidade, energia, governação e inovação social. Cascais é, também, um exemplo de referência, tendo estabelecido uma divisão denominada Cidades Inteligentes na sua macroestrutura.

 

2. Monitorização e métricas

 

Para monitorizar a implementação das estratégias e planos de acção, os municípios devem utilizar indicadores e métricas específicas na área das smart cities. Estas possibilitarão avaliar o grau de prossecução das metas municipais, permitindo aos governos locais antecipar desvios e propor medidas correctivas.

As propostas de normalização e estandardização dos indicadores associados a cidades sustentáveis e inteligentes são diversas, tendo a vantagem de viabilizarem a realização de exercícios de benchmarking, o desenvolvimento de processos de policy learning e a replicação de soluções entre cidades. É o caso da Norma 37120 da ISO – “Sustainable Development of Communities - Indicators for City Services and Quality of Life” (2014), da Recomendação da ITU – “Overview of Key Performance Indicators in Smart Sustainable Cities” (2016) ou da Especificação Técnica da ETSI - “Key Performance Indicators for Sustainable Digital Multiservice Cities” (2017).

 

O Dubai funcionou como cidade piloto para a implementação do sistema de Key Performance Indicators da ITU (União Internacional de Telecomunicações) para monitorizar e avaliar o impacto da sua estratégia smart city – “Smart Dubai, the Happiest City on Earth”, que se seguiram diversas cidades em todo o mundo, como Valência, Singapura, Buenos Aires e Montevideo. É também no Dubai que se encontra a ser implementado o projecto “Hapiness Meter”, que pretende medir e monitorizar quotidianamente o grau de satisfação e felicidade dos cidadãos com os serviços públicos.

 

Em Portugal, Porto e Sintra são os únicos municípios certificados pela Norma 37120 pelo “World Council on City Data”, comprometendo-se a monitorizar anualmente o respectivo desempenho em termos de serviços urbanos e da qualidade de vida das populações.

 

3. Envolvimento dos cidadãos

 

Qualquer estratégia smart city deverá centrar-se nas pessoas. As tecnologias são apenas um instrumento para promover a competitividade, a sustentabilidade ambiental e a inclusão social com vista à melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Co-criação, inteligência colectiva, inovação aberta e tecnologias colaborativas são algumas das palavras que deverão integrar o léxico das cidades inteligentes.

 

Existem diversos instrumentos que podem ser utilizados pelos governos locais para envolver a sociedade civil na definição de políticas públicas, como o orçamento participativo, as aplicações de reporte de ocorrências, as plataformas de crowdsourcing ou os laboratórios de inovação urbana.

 

De acordo com o relatório do Smart City Index, 53% dos municípios analisados utiliza o orçamento participativo como forma de democracia colaborativa, sendo que 22% afirma utilizar outros instrumentos para fomentar a participação pública. Os Orçamentos Participativos de Cascais e Águeda têm sido considerados casos de referência, acumulando já diversos prémios e distinções nacionais e internacionais. A maior parte dos municípios declaram disponibilizar instrumentos de reporte de ocorrências aos cidadãos, nomeadamente no âmbito do projecto “A Minha Rua”. Existem, no entanto, aplicações mais recentes como “Cidadão Gaia”, “Cityfy” (Águeda) e “AlertaTVedras”. Para além das plataformas digitais, importa preservar a interacção de proximidade com os cidadãos, sendo de destacar o projecto “Tutor do Bairro” de Cascais.

 

4. Parcerias e redes

 

Na implementação das estratégias smart city, os municípios devem colaborar com todos os agentes dos ecossistemas locais de inovação, nomeadamente empresas, universidades e centros de I&D e utilizadores.

 

A Parceria Europeia para a Inovação “Smart Cities and Communities” apela à criação de um novo ambiente de trabalho colaborativo entre as autoridades locais e a indústria no âmbito da implementação dos designados “projectos farol” apoiados pelo Horizon 2020. Trata-se de projectos piloto em ambiente urbano que funcionam como demonstradores de soluções integradas e inovadoras na interacção entre energia, mobilidade e tecnologias de informação e comunicação. O objectivo é conseguir uma elevada replicação destas iniciativas noutras cidades e regiões europeias e mundiais, induzindo uma aplicação em larga escala das soluções testadas em contexto real.

 

Lisboa e Porto são as únicas cidades portuguesas que participam nestes “projectos farol”, a primeira como cidade farol (projecto Sharing Cities) e a segunda como seguidora (projecto GrowSmarter).

 

No âmbito do Smart City Index, 56% dos municípios afirma participar em projectos de investigação e inovação na área das smart cities em domínios verticais, como a mobilidade ou a energia. Aliás, o ambiente e a mobilidade são os domínios mais representados nas cidades inteligentes na Europa, de acordo com o relatório “Mapping Smart Cities in Europe” (EC, 2014).

 

5. Quick wins e projectos estruturantes

 

Os projectos de inteligência urbana não têm de implicar inovações radicais e elevados investimentos em infra-estruturas. Construir uma smart city é um processo, mais do que um fim em si mesmo, realizando-se muitas das vezes através de inovações incrementais.

 

As estratégias associadas a cidades inteligentes deverão conjugar uma visão de longo prazo com objectivos de curto prazo, assim como combinar projectos estruturantes com pequenas acções de baixo custo e elevado impacto na vida dos cidadãos – os designados “quick-wins”. Desta forma, torna-se mais fácil mobilizar as comunidades e combater a resistência à inovação.

 

Estes projectos deverão, também, contribuir para a apropriação das tecnologias pelos cidadãos, evitando um “desalinhamento sociotécnico” entre o ritmo de evolução tecnológica e a respectiva adopção pela sociedade.

 

Amesterdão baseou a sua estratégia smart city na articulação entre um conjunto de projectos piloto em áreas diversas, como mobilidade, eficiência energética e ambiente. Só depois de testados e bem sucedidos, foram escalados para a cidade como um todo.

 

6. Living Labs e experimentação

O conceito de ‘laboratório vivo’ (living lab) tem vindo a ser adoptado por diversas cidades como ambientes abertos de inovação, no qual os poderes públicos, as empresas, os centros de conhecimento e os cidadãos colaboram no desenvolvimento, teste e experimentação de soluções tecnológicas em contexto real. De acordo com a Miovision (2016), 2017 é o ano da proliferação de zonas locais de inovação ou test-beds de produtos e serviços associados a smart cities. É o caso das iniciativas “Barcelona Urban Labs” ou “Neighborhood Innovation Labs” de Nova Iorque.

 

No âmbito do Smart City Index, foram identificadas algumas iniciativas desta natureza em Portugal, como o “Águeda Living Lab”, o “Lighting Living Lab” ou o “Porto Living Lab”. Acresce que, recentemente, o programa “Living Labs para a Descarbonização”, lançado pelo Fundo Ambiental, aprovou 12 propostas de ideias de laboratórios vivos a serem implementados em cidades portuguesas.

 

Neste contexto, associado ao Programa Start-up Portugal, foi lançado um Grupo de Trabalho específico para elaborar um quadro regulatório e legislativo associado à criação de Zonas Livres Tecnológicas, que facilite e promova a investigação, desenvolvimento, demonstração e teste de tecnologias com diferentes estados de maturidade em termos de segurança, privacidade e confidencialidade, como é o caso dos veículos autónomos.

 

7. Plataformas urbanas

 

Estima-se que, nos próximos anos, a adopção de plataformas integradas de gestão urbana seja uma prática generalizada das cidades de grande e média dimensão. Pretende-se recolher, integrar e analisar dados e informação como suporte ao processo de tomada de decisão e definição de políticas públicas. A Comissão Europeia estabelece como objectivo que, em 2025, 300 milhões de europeus usufruam de serviços públicos através de plataformas urbanas.

Os resultados do Smart City Index não identificaram nenhum município com uma plataforma integrada de gestão da cidade. Contudo, o Porto é um dos dez municípios europeus envolvidos na iniciativa “Plataformas Urbanas” da Parceria Europeia para a Inovação “Smart Cities and Communities”, que visa a criação de um modelo de referência que potencie o desenvolvimento de plataformas escaláveis, abertas e interoperáveis. Lançou, em 2015, um Centro de Operações, que agrega os serviços municipais responsáveis pela mobilidade, Polícia Municipal, Bombeiros, Protecção Civil e ambiente com vista à recolha, integração e análise de dados de diferentes fontes urbanas que contribuam para um aumento da eficiência e eficácia dos serviços municipais.

O município de Lisboa instalou um Centro de Operações Integrado, que vai funcionar com base em tecnologias de Internet of Things (IoT) e inteligência artificial. Pretende integrar dados de diversas origens, como departamentos municipais, entidades externas e sensores e outros dispositivos, como forma de suportar a tomada de decisão.

 

8. Política de dados abertos

 

Os municípios devem tornar os dados acessíveis à sociedade, para apoiar a tomada de decisão, garantir a transparência e estimular a criação de produtos e serviços inovadores. De acordo com o Relatório “Open Data in Cities 2” (EDP, 2017), os dados abertos são definidos como a informação recolhida, produzida ou paga pelos organismos públicos que pode ser livremente utilizada, modificada ou partilhada com qualquer entidade e para qualquer finalidade. Estima-se que o mercado de open data aumente 26,8% de 2017 para 2020, atingindo o valor de 75,7 mil milhões de euros.

Diversas cidades em todo o mundo têm vindo a adoptar políticas de dados abertos no seio das suas estratégias smart city, com o lançamento de portais de open data, como Barcelona, Amesterdão e Dublin. Muitas vezes não se trata apenas de repositórios de dados, mas disponibilizam interfaces colaborativos (mapas, gráficos interactivos, etc.) com os cidadãos, empresas e centros de conhecimento, através de city dashboards.

 

Os resultados do Smart City Index mostram que apenas 6% dos municípios inquiridos possui portais de dados abertos. Contudo, estas iniciativas têm vindo a ser gradualmente adoptadas pelas cidades portuguesas, sendo de destacar os casos de “Cascais Data”, “Plataforma de Dados Abertos“ (Porto) e “Information 4 Citizens” (Águeda).

 

9. Sistemas abertos, escaláveis e interoperáveis

 

Uma smart city deve evitar a adopção de tecnologias proprietárias associadas a um único fornecedor, combatendo o designado “lock-in tecnológico”. Os sistemas deverão ser abertos, escaláveis e interoperáveis, o que torna a estandardização de soluções um requisito fundamental para o desenvolvimento das cidades inteligentes.

 

Neste contexto, as compras públicas terão de se adaptar ao mercado das smart cities, integrando critérios ambientais (green public procurement) e/ou inovadores (pre-comercial public procurement of innovation).

 

Os governos locais devem, também, identificar sinergias entre as diversas soluções de inteligência urbana. Por exemplo, um novo sistema de iluminação pública inteligente pode ser uma oportunidade para implementar serviços adicionais que utilizem os mesmos postes, como a monitorização da poluição, a disponibilização de rede wi-fi ou a implementação de câmaras de videovigilância. De facto, de acordo com a IDC (2016), a infra-estrutura de iluminação pública irá constituir-se como a plataforma smart city chave para os devices conectados pela IoT.

 

10. Privacidade e segurança

 

Os governos locais têm de estar, cada vez mais, atentos aos temas da protecção de dados, privacidade e segurança, em conformidade com a legislação nacional e europeia.

 

Na verdade, o Novo Regulamento Geral de Protecção de Dados foi publicado no dia 4 de Maio de 2016, no Jornal Oficial da União Europeia e entrou em vigor a 25 de Maio. Prevê um período transitório de dois anos para a sua total aplicação, pelo que as organizações têm este intervalo temporal para se adaptar às novas regras. Se as grandes empresas multinacionais já se encontram a trabalhar nesta matéria, a verdade é que ainda não existe uma preocupação generalizada por parte dos municípios.

 

A adopção de tecnologias de inteligência urbana implica, também, uma atenção acrescida aos riscos do ciberterrorismo e à segurança dos sistemas de informação. De acordo com previsões da IDC (2016), pelo menos uma cidade de média ou grande dimensão irá sofrer um ciberataque em 2017, o que prejudicará o seu funcionamento durante um dia. Em Portugal, Lisboa foi o primeiro município a estabelecer uma parceria com o Centro Nacional de Cibersegurança para a implementação de melhores práticas de prevenção de riscos informáticos. 

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