2018-01-16

Se cá nevasse, andávamos mais de bicicleta

Joana Ivónia*

Se cá nevasse, andávamos todos muito mais de bicicleta e usaríamos os parques, as esplanadas e as crianças brincariam no exterior todos os dias. Não é assim que acontece nos países onde neva? Mas esta não é a nossa realidade. Portugal tem cerca de 300 dias de sol por ano e cerca de 250 dias sem chuva. Tem temperaturas amenas, com uma média mínima anual que não baixa os 10º C e uma temperatura média anual a rondar 16º C.


A par destas condições meteorológicas “adversas”, temos as crianças portuguesas cada vez mais horas por dia dentro da escola, em espaços fechados, com reduzido contacto com o exterior e com a natureza. Muitas escolas deixam mesmo de utilizar os espaços exteriores durante os “duros” meses de inverno. Esqueçam as crianças felizes a saltar as poças, a chapinhar e a abrir a boca para provar a água da chuva!


Os portugueses, na sua maioria, aproveitam pouco os parques, os jardins, as praças, os pátios entre os prédios e a rua em geral. As famílias, sobretudo no inverno, vão demasiadas vezes com as crianças ao parque de esponja e cantos arredondados dentro do centro comercial, onde há vigilância e ar condicionado quentinho, que sabe tão bem, sobretudo para fazer amigos com as típicas doenças de inverno. Protegem-se as crianças do meio natural, expondo-as ao mais artificial, talvez por uma sensação de maior segurança e protecção.


O estudo português sobre Independência de Mobilidade das Crianças, que data de 2012, coordenado pelo professor Carlos Neto da Universidade de Lisboa e integrado num estudo internacional pelo Instituto Policy Studies Institute, concluiu que as crianças portuguesas são das mais sedentárias e com menos liberdade para brincar, colocando-nos na 14ª posição em 16 países analisados. Recentemente, também foi difundida a notícia de um outro estudo da Skip que referia que as crianças têm menos tempo ao ar livre do que um presidiário, em que se referia que sete em cada dez crianças passam uma hora ou menos ao ar livre por dia. Transpondo este cenário nacional para a utilização da bicicleta, percebemos que, em Portugal, assumimos com demasiada naturalidade que a bicicleta é para os dias bons de primavera e verão.


Nos países nórdicos, o clima é bem diferente do nosso, mas nem isso os demove de ter os mesmos hábitos de mobilidade e de vivência do espaço exterior independente da estação do ano. Os nórdicos reforçam continuamente a mensagem de que não há mau tempo, mas sim roupas não adequadas. Por isso, por lá, encontramos as crianças equipadas com impermeáveis e galochas a caminho da escola, nos parques, nos recreios e sem limite mínimo de idade. Mesmo os bebés, nas creches, passam cá fora um tempo diário no recreio a apanhar o ar livre, dentro das alcofas, independentemente de ser ar frio.


Nestes países, a taxa de utilização da bicicleta é também incrivelmente superior à nossa, que é à volta de 1%. A média europeia ronda os 8%, com a Holanda a liderar com cerca de 36% de utilizadores, segundo dados fornecidos pela European Cycling Federation. Nos países com mais utilizadores de bicicleta, as pessoas não têm uma bicicleta de verão e um carro de inverno, as crianças não hibernam dentro de casa nos meses mais frios e as esplanadas adaptam-se com mantinhas e aquecedores, mas não fecham.

Será que é mesmo a neve que faz com que as pessoas saiam de casa, libertem as crianças e andem mais de bicicleta? 



*Joana Ivónia nasceu em 1980 na região de Aveiro, onde sempre conviveu com a bicicleta como um meio de transporte. É designer, activista, mãe e doutoranda na Universidade de Aveiro, desenvolvendo a sua tese “Design para a Valorização do Território através de Processos Colaborativos: Ressignificar o Ecossistema da Bicicleta na Região de Aveiro”, com especial foco na integração da bicicleta desde a primeira infância. Coordena o projecto Lanterne Rouge®, que iniciou em 2012, desenvolvendo soluções potenciadoras da utilização da bicicleta em contextos urbanos, através de valências do design estratégico, de comunicação, do produtoe e do digital. É fundadora e activista da Ciclaveiro - associação para a mobilidade urbana em bicicleta, na qual tem colaborado em várias iniciativas defendendo e promovendo a utilização da bicicleta para a construção de uma cidade mais sustentável.

 

#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

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