2017-09-11

O que significa planear uma cidade para as pessoas?

Mikael Colville-Andersen*

O planeamento de cidades não é nada de novo. Há 7000 anos que vivemos juntos em centros urbanos e o planeamento tem sido uma constante desde então. Durante a maioria do tempo, foi uma questão racional e pragmática que se concentrava no desenho. Satisfazia as necessidades imediatas e preparava para o crescimento futuro. De facto, as ruas das nossas cidades eram os espaços mais democráticos na História do homo sapiens.


No entanto, depois de sete milénios, a democracia transformou-se em ditadura. Cometemos erros enormes e tudo começou com a invenção do automóvel. Depois de um início lento, a obsessão em encontrar espaço para estas máquinas aumentou. Ao longo da década de 1940, na América, a profissão de engenharia de tráfego elaborou as suas normas e exportou-as sem oposição para todos os cantos do mundo. A nossa crença no automóvel cegou a nossa racionalidade e mutilou as nossas cidades. Só agora é que estamos a começar a reverter os danos.

 

De facto, estamos a olhar para as nossas cidades de forma diferente –  e de forma mais positiva  – do que em qualquer outra época do século passado. Relativamente ao transporte, estamos a procurar soluções úteis que possam resolver os problemas urbanos intemporais. Apesar da nossa obsessão frequentemente pouco saudável com a tecnologia, muitas destas soluções revelam-se simples.
 

Durante décadas, permitimos que as nossas ruas fossem projectadas e pouco mais. Está na hora de regressar à concepção. Devíamos estar a usar princípios básicos de planeamento para criar espaços humanos nas nossas cidades. Porquê? O planeamento é um processo de humano para humano, que considera o utilizador final ao longo de todas as etapas. Engenharia é aplicar modelos matemáticos num escritório distante, para ruas utilizadas por outros.


O desenho é tão estético quanto pragmático. Imaginem se desenhássemos as nossas ruas como desenhamos os nossos smartphones, torradeiras ou cadeiras. Agradáveis, funcionais, práticos e seguros. Isto não é uma teoria – foi a forma subliminal que utilizámos durante séculos.


Quando olhamos para o desenvolvimento futuro das nossas cidades, vemos um potencial enorme na utilização de ideias testadas e experimentadas. Por exemplo, depois de uma ausência de várias décadas,  a bicicleta como meio de transporte está a regressar às nossas cidades. Estão a ser colocadas ciclovias protegidas em cidades de todo o mundo. Estão novamente a emergir, na paisagem urbana, redes de transporte compostas por infra-estrutura para bicicletas. Uma cidade como Copenhaga, onde 62% das pessoas utiliza a bicicleta para se deslocar diariamente, é o benchmark, mas cidades por todo o lado estão a competir para chegar ao mesmo patamar.


É matemática simples. Uma ciclovia à imagem das melhores práticas – protegida do tráfego motorizado –, de sentido único e com uma largura mínima de 2,3 metros, pode movimentar, numa rua, 5900 pessoas por hora. Uma via automóvel, quando é fluida, movimenta apenas 1300 pessoas por hora. O desenho de ciclovias tem um século de idade e é bastante perfeito.

O pragmatismo e o respeito pelo planeamento estabelecido – não só ao nível do transporte urbano, mas em todos os aspectos do desenvolvimento de uma cidade  é a chave para reconstruir as nossas cidades na dimensão certa para serem vividas [life-sized cities]. Colocar o foco nos humanos que habitam as nossas cidades é o único caminho possível. Trazer de volta a democracia urbana vai definir o próximo século de urbanismo. 




*Mikael Colville-Andersen é um especialista em planeamento urbano e CEO da Copenhagenize Design Co. É hoje uma das vozes mais importantes do urbanismo ao nível global, actuando como consultor de cidades e governos. É um acérrimo promotor do uso da bicicleta na vida urbana e host do programa Life-sized City.


Foto: ©Erika Huffman

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