2017-08-21

Paulo Veiga*, EAD

“O papel, qual papel?”

O título deste artigo parte do famoso sketch dos Gato Fedorento. O mesmo demonstra a importância que um simples papel por ter na nossa vida, caso precisemos de andar ao pé-coxinho na via pública depois das dez horas da noite.

 

Este sketch ficou retido em nós porque, por vezes, temos dificuldades em perceber a importância que o papel tem nas nossas vidas, pessoais e profissionais.

 

O papel é um fantástico suporte de informação. São estes os fatores que o tornam famoso: é durável, barato, de difícil falsificação e perfeitamente adaptado na forma a nós, seres analógicos.

 

Claro que as novas tecnologias e a proliferação de todas as fontes e formatos de informação colocam os sistemas eletrónicos como fundamentais para a gestão das organizações públicas e privadas. Não sou apologista e defensor do papel, mas é importante desmitificar alguns paradigmas sobre a criação e utlização do papel.

 

Primeiro, o consumo de papel é responsável pelo abate das árvores e, como consequência, da desflorestação. Nada mais errado, deixo uma nota: a produção de papel apenas corresponde diretamente a 11% da extração de madeira, cabendo a outras indústrias a maior fatia de responsabilidade, a energia com 55%, e a construção (móveis, casas, etc) com 25%. Depois, como temos visto especialmente neste verão em Portugal, há os incêndios, naturais ou não, que consomem vastas áreas de florestas. Este fenómeno é tão importante em Portugal que, desde o início do século, um quarto do país já ardeu.

 

Outro facto importante, e este mais conhecido de todos, é que o mesmo papel pode ser reciclado entre sete a dez vezes, pois, sendo formado por fibras oriundas da celulose, estas degradam-se a cada reciclagem. E este é um dos pouco resíduos produzido pela humanidade que é reciclável a 100%.

 

Não deveremos, contudo, usar papel reciclado para preservação de informação de longa duração, pois a degradação do mesmo é muito superior. A recomendação que deixo é usar o papel reciclado para envelopes, embrulhos e afins. O papel novo deve ser usado para o que realmente importa: preservar o testemunho da atividade humana.

 

Naturalmente, nos grandes centros urbanos, nas cidades socialmente e ambientalmente responsáveis, este tema deve ser tratado com todo o rigor. O papel é um resíduo urbano tal como o lixo doméstico, mas não é comparável em termos do custo de tratamento.

 

Em suma, as cidades e seus agentes económicos são grandes responsáveis pela produção de resíduos, seja através da necessidade de matérias-primas, seja através do refugo do processo de produção. A mudança para práticas sustentáveis terá de incluir a diminuição da procura de matérias-primas, a redução de desperdícios e a eventual transformação dos resíduos em recursos. Só assim se consegue uma cidade sustentável.

 

As cidades com práticas ambientalmente responsáveis geram bons negócios para todos, aliás, tal como um empreendedor bem-sucedido, que é ambientalmente responsável, também as cidades devem prever, conter e aproveitar o risco, transformando-o em oportunidade. Este universo ambiental é, desde há algum tempo a esta parte, uma oportunidade para o crescimento económico com o uso racional e eficiente dos recursos naturais. As cidades devem, portanto, encarar a responsabilidade ambiental como uma estratégia significativa, de modo a manter ou até aumentar a sua rentabilidade e potenciar o seu desenvolvimento, pela atração gerada em torno destas práticas. A crescente consciencialização dos cidadãos na procura de produtos, serviços e bens que conciliem a relação equilibrada entre ambiente, comunidade e economia é prova disso mesmo.

 

No atual momento em que vivemos, é necessário olhar para o futuro e tentar antever de que forma podemos agir para promover um crescimento económico sustentável e a geração de riqueza para a sociedade em que estamos inseridos e esse papel cabe também às cidades inteligentes.

 

 

*fundador e CEO da EAD – Empresa de Arquivo de Documentação

 



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