2017-07-26

Novos destinos para viver

Filipa Cardoso

Para quem procura qualidade de vida, novas oportunidades ou simplesmente abrandar o ritmo, o futuro já não passa só pelas grandes cidades. Mesmo ao lado, territórios mais pequenos investem naquilo que os diferencia, reinventam-se e desenvolvem estratégias de branding para marcar o seu lugar no mapa. Numa história que se escreve com os cidadãos, estes destinos estão, hoje, a oferecer uma verdadeira alternativa inteligente.

 

 

“O que me faria querer viver aqui?”. A resposta exige ponderação. Por isso, procurei um sítio calmo para reflectir. Era a primeira vez que estava em Amarante e, sem conhecer a cidade, depois de algumas voltas, dei por mim num pequeno parque com equipamentos desportivos, à beira rio. “O dia está feio, devia ter vindo noutra altura. Com o tempo assim, não vê os passarinhos”, disse-me um homem que seguia equipado a rigor para a caminhada matinal, parecendo não se importar com os gélidos três graus de temperatura ou os chuviscos que persistiam em cair. E não era o único, pelo menos, mais seis pessoas caminhavam ali, em passo apressado, ao lado do Tâmega. Mesmo com o dia feio, debaixo da chuva e com os tons da neblina vincados na fotografia, é impossível ignorar a beleza natural de Amarante. Seria eu capaz de viver ali?

Muitas são as histórias que se podem escrever entre uma pessoa e uma nova cidade. Há as histórias de quem se apaixona, de quem procura novas oportunidades, de quem tem um sonho ou de quem sente uma vontade avassaladora de mudar. Há também aquelas de quem foge ou de quem simplesmente quer regressar. Enquanto umas terminam bem, outras tantas haverá que acabam em desilusão. Mas, quando começam, há um jogo de sedução. Nesse jogo, o poder de atracção dos grandes centros urbanos tem sido, desde sempre, implacável. A tendência é difícil de inverter, mas o mundo está a mudar. O dia-a-dia está cada vez mais digital e, com ele, cresce uma geração que aprendeu à força a ser flexível e para a qual comprar uma casa, um carro ou ter um emprego para a vida pouco interessa. É neste contexto que outros destinos ganham novos argumentos. Mais pequenos, menos centrais, até mais rurais. Mas isso já não importa. Importa, sim, viver com qualidade.

 

Histórias de paixão e mudança

 

Em Amarante, encontrei-me com a Luísa, o Pedro, o Filipe e o Tiago. Dos quatro, apenas o Filipe nasceu ali, mas saiu da cidade muito novo. Regressou há pouco tempo, depois de deixar um emprego como enfermeiro no Hospital de Barcelos, e assume agora o projecto Jump Box, uma academia de competências de empreendedorismo que trabalha com jovens amarantinos. Com uma energia contagiante, é evidente o que o trouxe de volta à cidade: “a vontade de fazer a diferença”.

 

No caso da Luísa e do Pedro, a mudança teve a ver não só com uma melhor qualidade de vida, mas com uma vida que se identificasse mais com aquilo que são os seus valores, orientados para a sustentabilidade. O casal deixou o Porto em Setembro do ano passado e tantas foram as vezes que lhe perguntaram “porquê Amarante” que o Pedro decidiu publicar um texto on-line no qual explica todos os motivos – desde a necessidade de fugir à escalada cavalgante do turismo no Porto, às vantagens de uma vida mais económica ou à presença “majestosa” da serra do Marão, que é, por si só, um argumento. Mas, entre os quatro, o maior embaixador de Amarante é, sem dúvida, o Tiago. “É uma paixão”. Os amigos têm entre si uma espécie de aposta para ver quem consegue trazer mais pessoas para a cidade e é ele que leva vantagem. A missão do Tiago é especial e a sua profissão coloca-o numa posição suspeita, já que está à frente da agência de desenvolvimento económico de Amarante, mas a convicção das suas palavras denuncia uma fé genuína. “Acredito que o potencial é enorme”.

 

A percepção de que “aqui se pode construir qualquer coisa” é partilhada pelos quatro. Às condições pré-existentes, como a beleza natural e arquitectónica, a localização geográfica e até a escala, juntam-se algumas dinâmicas que buscam inspiração em muita da herança cultural e artística amarantina e que dão que pensar sobre a cidade. “Há claramente um movimento criativo que se está a formar”, assegura Pedro, “uma massa crítica que vai aparecendo e que nada tem a ver com as políticas, vem da comunidade. Aliás, a parte política é que acaba, depois, por lhe responder”. O Pedro é formado em Engenharia Mecânica, a Luísa em Pintura, quando lhes pergunto sobre as oportunidades de emprego, respondem: “Bem, somos profissionais liberais e, com as novas tecnologias, podemos fazê-lo em qualquer sítio”. Num segundo de reflexão, o Pedro lança o desafio: “Com todas estas mudanças, é importante pensar em que tipo de cidades vamos querer viver, não é?!”.

 

O sentimento não é exclusivo de quem vem de fora e a dinâmica que está a nascer na cidade traz expectativas às camadas mais jovens, como a Filipa, uma das participantes do Jump Box. Com 26 anos, mostra-se decidida sobre o futuro. Abandonar a região ou o país “não é uma opção”. Porquê? “Tive a oportunidade de crescer a brincar na aldeia, a sujar as mãos na terra, mas tive a possibilidade de ter a formação da cidade. Gosto muito das duas versões e, quando um dia tiver uma família, quero ter essas mesmas respostas”. Licenciada em Arte e Design, optou pelo têxtil para o mestrado, exactamente porque é uma área onde sabe que vai ter oportunidades naquele distrito, mas, realça, o Porto está fora de questão – “Vejo-me mais em Felgueiras ou em Guimarães”, confessa.

 

Histórias de sonho e ruralidade

 

Hoje, tal como antigamente, a localização geográfica de Amarante é uma mais-valia. A cidade foi-se erguendo como um ponto de passagem entre o Porto e Trás-os-Montes. A 60 quilómetros da Invicta, é a distância ideal para estar longe e perto o suficiente de uma grande cidade. Mas outros destinos em Portugal não podem dizer o mesmo e, em reflexo de um estigma vigente, sofrem as consequências da dicotomia litoral/interior. “O país tem uma assimetria injustificável e que está a provocar profundas desigualdades”, alerta Helena Freitas. À frente da recente Unidade de Missão para a Valorização do Interior (UMVI), a também docente da Universidade de Coimbra defende que, para combater o problema, as pequenas e médias cidades são elementos estruturantes na organização dos territórios, mas é preciso “criar condições para que a prosperidade possa emergir e trazer elementos para a qualidade de vida”. Segundo a responsável, existe em Portugal “um activo brutal” e, apesar das dificuldades e da tendência “crónica” para a centralização, os territórios estão a encontrar os seus caminhos de valorização. “Está a acontecer, as cidades estão a despertar, os territórios estão a encontrar soluções de grande qualidade e começam também a representar um caminho alternativo”, exclama.


Amarante é um desses exemplos, mas não é o único. Um pouco mais abaixo, há um concelho que traçou uma estratégia a dez anos e que assenta na bandeira da “ruralidade”. Com cerca de oito mil habitantes, Idanha-a-Nova apresenta-se como um sítio para “Recomeçar”. A ideia, lançada em 2015 e que encontra raízes em conceitos como “campo, família, prazeres da vida”, cativou já a atenção de 400 famílias, de dentro e de fora de Idanha. Desse total, não é ainda possível dizer quantas estão efectivamente a “recomeçar”, mas há “a noção de que há famílias no território, há mais procura pelas creches, por exemplo”, relata Filipe Roquette, director-geral da Bloom Consulting em Portugal, a consultora responsável pelo desenvolvimento do projecto.
 

O posicionamento de Idanha-a-Nova como “ruralidade” apela àqueles que sempre desejaram uma vida no campo, mas, por força das circunstâncias, pela falta de conhecimentos ou, simplesmente, de coragem, nunca deram o passo. “O objectivo aqui é colmatar tudo isso e fazer com que haja um empurrão para que essas pessoas venham e fiquem”, explica o gestor, assegurando que “Idanha tem toda essa estrutura”. Na câmara municipal, por exemplo, existem três pessoas dedicadas a acompanhar estes processos e que são um elo para tudo o resto. “Qualquer que seja a área de interesse, os projectos de vida que nos são apresentados são acompanhados de forma personalizada. São seguidos durante o tempo que for necessário, até que haja sucesso. Queremos que os interessados construam aqui os seus projectos de vida, que façam planos. Podem trazer as suas empresas, ou criá-las cá de raiz. Criamos oportunidades para a implementação de empresas na região, ao mesmo tempo que fomentamos a criação de emprego que outros poderão abraçar”, explica Armindo Jacinto, presidente da CM Idanha-a-Nova.


Perante a agitação da vida na cidade, esta ruralidade surge como algo idílico, mas que, sublinha Filipe Roquette, “não pode ser só um sonho e Idanha tem a clara percepção de que não pode acolher projectos que não sejam possíveis”. “Tendemos a fantasiar o que queremos e, às vezes, há ideias que não são viáveis e é preciso dizê-lo. Pior do que não ter gente é ter gente que vem ao engano e que, depois, se vai embora”, admite.


Nestas estratégias de diferenciação, com vista a atrair turistas, população ou investimento, o consultor explica que as cidades têm de encontrar “o que as torna únicas e tem de ser algo emotivo, que desperte a vontade e a curiosidade dos outros, que crie pertença e passe a fazer parte dos activos do território”. A isto de “colocar um destino no mapa físico e mental através de um conceito” dá-se o nome de city branding.

 

Histórias de pessoas


Amarante não tem ainda uma estratégia assumida de city branding, mas está a construir à sua volta a ideia de “cidade vibrante”. Nesse trajecto, André Magalhães, vereador do Desenvolvimento Económico, não hesita em destacar o capital humano como o elemento mais importante para o presente e futuro da cidade, mas admite que há “um hiato entre o que Amarante é e o que poderia ser”. Como diminui-lo? A resposta leva-nos de volta às pessoas. “O nosso principal foco é no investimento nas pessoas. Queremos ter os melhores a trabalhar nos nossos projectos, o município tem de ser esse facilitador, o agente que dinamiza e aloca, de forma sábia e assertiva, os recursos e que põe as entidades a colaborar”, adianta.

 

Na estratégia de valorização dos territórios, aproveitar a nova vaga de pessoas que estão dispostas a mudar-se para territórios mais pequenos é fundamental. “São cidadãos que estão disponíveis a ajudar”, diz Helena Freitas, “quem escolhe, de facto, viver ali é porque acredita que vale a pena, que existem valores, tem uma motivação muito forte”. Mas como assegurar que estes territórios se afirmam como verdadeiras alternativas? A esse propósito, a especialista identifica dois eixos fundamentais para a organização do território: o sistema de Ensino Superior, em particular os Politécnicos – “absolutamente vitais, são pólos de conhecimento, mantém jovens e garantem o seu acesso ao ensino e educação” – e os municípios. Este último, admite, é uma “questão mais complexa”, porque leva a uma competição natural entre as cidades e, ainda que a afirmação e autopromoção que daí resultem sejam positivas, a verdade é que acarretam também alguns desafios. “Se, por um lado, estas pequenas e médias cidades têm de afirmar-se pelo o que as diferencia, seja porque criam maior oferta turística, seja porque se tornam mais sedutoras para um determinado cluster ou actividade económica, por outro, é preciso que, ao fazerem-no, percebam que não têm dimensão para determinada estratégia e só criando dimensão e em articulação com territórios próximos podem alcançar determinados resultados”, sublinha.

 

A cooperação entre territórios com vista ao desenvolvimento regional não é ainda um dado adquirido em Portugal. Para a coordenadora da UMVI, o formato das Comunidades Intermunicipais é um passo nesse sentido, mas há mais caminho a fazer. “Passar da competição para a cooperação” é, confessa o vereador amarantino, um desafio complexo. “Sabemos que somos contribuidores para o desenvolvimento regional, mas sabemos também que somos condicionados por ele. Se, por um lado, entendemos que estamos no bom caminho no que toca ao que está a acontecer na nossa fronteira, sabemos, por outro, que, para que as coisas corram realmente como gostaríamos, temos de ir muito mais além do nosso concelho”.

 

Histórias de empreendedorismo


Quando se trata de atrair ou reter pessoas, dar-lhes as condições é crucial. Isto significa dar-lhes também emprego. Helena Freitas defende que o Estado deve dar o exemplo no que toca ao fomento do emprego nas zonas do interior, em particular “garantindo que não há abandono de serviços”. A UMVI tem algumas actividades nesse sentido: “Tentamos mobilizar as entidades que têm oportunidade de escolher e de localizar investimento para que o façam pensando na possibilidade de o fazer nestes territórios e, por isso, procuramos encontrar um mecanismo de beneficiação em sede fiscal para conseguir que isso aconteça, é tímido, mas é alguma coisa. Agora, estamos a trabalhar na procura de projectos que possam ajudar os territórios a estruturar soluções inteligentes, tendo em conta os recursos disponíveis de qualquer ordem para gerar valor e desenvolvimento”.

 

Em 2016, o Fundão venceu o prémio de Município do Ano, da UM-Cidades, graças ao projecto “Academias de Código”, que dá formação a jovens na área da programação. Mas, na verdade, é muito mais do que isso,  já que o projecto reflecte a ambição do município, conhecido pela sua ligação ao sector agro-rural, de se tornar a casa das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), atraindo, assim, empresas, investimento e pessoas. Esta estratégia arrancou há pouco mais de três anos, quando “havia só três engenheiros informáticos em todo o concelho”, recorda Paulo Fernandes, presidente da câmara municipal do Fundão. Desde aí, o plano de inovação desenvolveu-se e, no ano passado, eram já 13 as empresas do sector que tinham escolhido o município para se estabelecerem. “Conseguimos criar 500 postos de trabalho na área das TIC e temos acordos para outros 500 nos próximos anos”, adianta o autarca. A par desta aposta para a criação de emprego, o município avança com acções para cativar as pessoas – “Temos uma bolsa de casas de arrendamento low-cost associadas a estes profissionais altamente qualificados, um conjunto de reduções de custos dos serviços municipais, parcerias, quer com o centro de emprego, quer com as universidades e politécnicos, para facilitar aquilo que possam ser os cursos de realização, a nível de mestrados, pós-graduações, etc.”, enumera.


 A InvestAmarante foi a resposta amarantina ao desafio da criação de emprego. Segundo André Magalhães, o processo de criação da agência envolveu uma “decisão muito ousada” mas que se tem revelado uma “aposta ganha”. Juntaram uma equipa especializada que “tem ajudado o município a actuar em todas as vertentes de política económica, nomeadamente captação de investimento, promoção de empreendedorismo, e a ajudar as empresas instaladas”. 


A fragilidade do tema do emprego não escapa aos jovens amarantinos. Quem prossegue os estudos na universidade tem logo aí um convite para deixar a cidade, pelo que é importante dar-lhes argumentos para que possam voltar. É nesse sentido que vai a missão do Jump Box. “Estamos a martelar mentalidades”, graceja Alexandre, que, ao lado do Filipe, é mentor neste projecto. É amarantino, mas vive com a família no Porto e, por enquanto, regressar está fora de questão. Ainda assim, acredita que é preciso mostrar aos jovens que não é preciso saírem para concretizar ideias de sucesso, dando-lhes as competências necessárias. “Há oportunidade para projectos de baixo investimento e com o apoio certo e o acompanhamento certo, estes miúdos podem fazer coisas engraçadas sem ter de sair da cidade de que gostam”. À falta de emprego, a Filipa responde, decidida, com um “podemos criar as nossas próprias oportunidades”. A jovem confessa: “Sou fiel à cidade e tenho como objectivo de vida começar um negócio aqui. Ele até pode correr o mundo, mas vai partir daqui e começar com as pessoas daqui”.


*O artigo foi publicado, originalmente, na edição #14 da revista Smart Cities. Aqui, com as devidas adaptações. 

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