2018-01-02

Opinião: Did nostalgia save Lisbon?

Sandra Marques Pereira*

Lisboa não ficou na moda por acaso. À parte de características geográficas,  contextuais e patrimoniais, houve um conjunto de ações, tanto de iniciativa interna como externa, que contribuíram diretamente para o ‘renascimento’ da cidade. Uma dessas ações foi o forte investimento no marketing (digital) e branding da cidade, nomeadamente para consumo externo.

A Monocle é uma das revistas que, ao longo dos últimos anos, mais contribuiu para a reconstrução mediática da imagem de Lisboa a nível internacional: entre 2012 e o fim do primeiro semestre de 2017, o número de peças que referem a cidade, entre reportagens áudio e artigos vários, chega aos 250. A revista dirige-se a um público educado, com preocupações estéticas e de vocação cosmopolita: numa estatística assumidamente fantasiosa, diríamos 30% de indivíduos pertencentes à Geração X, 65% de Millennials e 5% de Centennials.

Das inúmeras peças ‘jornalísticas’ publicadas sobre Lisboa pela Monocle, há uma, especialmente, que me chama a atenção. Trata-se de uma reportagem áudio, da responsabilidade de Andrew Tuck, publicada no guia de Urbanismo da MonocleThe Urbanist - em 30 de Abril de 2015, com o título How Nostalgia Saved Lisbon? O resumo diz: A lot of cities use nostalgic references to rejuvenate city centres but some do it better than others. In this special documentary we find out how looking backwards has been key to the Portuguese capital taking a big leap forward [1].

É um facto que a nostalgia, a par da autenticidade e do localismo são atualmente alguns dos conceitos fundamentais na procura da singularidade urbana, transmissíveis por via da imagem e pelas experiências passíveis de serem vividas na cidade: da arquitectura à nomenclatura, deparamo-nos diariamente com sinais evidentes deste fenómeno. Hoje, o marketing internacionalista e a estética ostensiva do passado recente afiguram-se-nos anacrónicos e o número de estabelecimentos com nomes e ambiências que remetem para o passado local é infindável: do bairro à tasca, passando pela taberna, etc., etc. O azulejo está para o edificado assim como o pastel de nata está para a gastronomia – bens de ‘consumo’ que hiper-simbolizam uma identidade lisboeta ancorada no passado, dando aos seus usufruidores a sensação de experimentarem, de facto, a realidade local.

A palavra nostalgia é criada no século XVII pelo suíço Johannes Hofer, finalista de medicina, para definir o que então se considerava uma doença especialmente detectada entre os combatentes deslocados da sua pátria e que consistia, resumidamente e de forma simples, na dor e no sofrimento associados às saudades de casa.

Atualmente, a nostalgia não é considerada uma doença, mas é seguramente uma característica da Modernidade, agudizada pela Globalização. Um sentimento exponenciado pela aceleração do tempo e pela aproximação do(s) espaço(s) resultante da  intensificação dos fluxos de pessoas, bens e ideias – dinâmicas especialmente ativadas pelas tecnologias de informação. Se a aceleração do tempo confere um carácter especialmente sedutor ao passado, a aproximação dos espaços alimenta a probabilidade de homogeneização, o que, por seu turno, estimula o desejo e a procura de diferenciação local: do edificado, de pessoas, de bens e espaços de consumo, de estilos de vida, e, sobretudo, de experiências.

Do ponto de vista urbano, o crescimento da tendência de homogeneização está intimamente dependente da expansão do Urbanismo e Arquitectura Modernas, sobretudo no Pós-Guerra do século XX. A emergência dos subúrbios, o fascínio pela casa nova e, não menos importante, o desejo de ser proprietário, foram o ideal de vida de muitas gerações para quem o centro da cidade de moderno tinha muito pouco ou quase nada.

Jane Jacobs, a jornalista que arrasou as ideias modernas de Le Corbusier, foi uma das precursoras do ‘retorno ao centro da cidade’. Mas se as ideias de Jacobs foram durante anos apadrinhadas por uma pequena minoria, actualmente, essas ideias, ou a sua releitura parcial, reflectem a opinião dominante. O álbum “Suburbs” da conhecida banda pop canadiana Arcade Fire é disso um exemplo – as músicas reproduzem as perspectivas dominantes contemporâneas sobre a dicotomia centro/subúrbio. Fazem-no através de uma narrativa depressiva sobre o que é nascer, crescer e viver nos subúrbios. É a narrativa ‘deles’ e a do ‘mainstream’, mas possivelmente não será a da maioria das pessoas que efectivamente vive nesses lugares, sentindo-os como locais verdadeiramente criadores de enraizamento e não como subúrbios.

Ainda assim, os Arcade Fire, nascidos entre os finais dos anos 70 e os inícios dos anos 80, ilustram o sentimento de muitos dos jovens adultos e adultos, mais ou menos, jovens, que querem ir para o centro da cidade, mas que começam a ter dificuldade em fazê-lo pelo progressivo aumento dos preços da habitação. Muitos dos que se rebelam contra os processos de super-gentrificação em curso, seja por razões ‘políticas’, seja por razões ‘estéticas’. Muitos dos que reivindicam a ‘autenticidade’ dos lugares e denunciam a perda da identidade local, muitos dos que criticam o fachadismo das reabilitações e a emergência de uma urbanidade fake.

São cada vez mais as vozes críticas relativamente ao paradigma contemporâneo das cidades, a cidade ‘beautificada’, a cidade entrincheirada entre a tecnologia e a nostalgia, a cidade do investimento imobiliário e turístico, a cidade dos vencedores e dos empreendedores, a cidade artificializada e tornada homogénea – igual às outras e abolidora das suas diversidades internas. Ao contrário do que se possa pensar, muitos destes críticos, que reconhecem aspectos positivos nas cidades contemporâneas, vêm justamente do mundo do ‘empreendedorismo’, da ‘cidade criativa’ e das Ted Talks.

Doug Lansky e Richard Florida, dois keynote speakers profissionais cujas ideias sobre cidade se têm vindo a disseminar de forma global, são disso exemplo. Quando Lansky, por ocasião da sua participação no ZOOM Smart Cities 2017, denuncia, numa entrevista ao jornal Observador, o risco da bolha da singularidade ou aconselha a Lisboa ‘Mantenham-se esquisitos’, é à ameaça da perda de identidade local que se está a referir. Por seu turno, Richard Florida, que ascendeu à categoria das ‘intelectual rock stars’, inspirando centenas de estratégias de reabilitação urbana de cidades por todo o mundo, acaba de publicar um livro com o título The New Urban Crisis. Neste livro, Florida renuncia a quase tudo o que defendera durante anos enquanto guru das cidades criativas, denunciando o risco que se apodera das classes médias resultante da explosão da especulação imobiliária nos centros das cidades.

Entre as críticas mais soft de Lansky e as mais demolidoras de Florida vai uma considerável distância. Em todo o caso, trata-se de dois exemplos que traduzem bem a necessidade de reflexão sobre as transformações que estão em curso na cidade. Para quem não faz parte do mundo das smart cities é esta dimensão reflexiva e crítica que faz falta no seu ecossistema. Um ecossistema que parece demasiado focado na facilitação do quotidiano dos residentes e utilizadores da cidade, mas pouco sensível a outros aspectos fundamentais da vida urbana: da manutenção da diversidade (social, patrimonial e funcional), que é hoje a essência da sua atractividade, à redução das muitas assimetrias sociais das nossas cidades.

Ao contrário do artigo da Monocle, não tenho tanta a certeza de que Lisboa esteja a salvo e menos ainda de que terá sido a nostalgia que a salvou. Mas fica um desafio, um desafio improvável de aproximação entre dois mundos que, até ao presente, têm estado nos antípodas um do outro: o mundo dos ‘empreendedores’ e das smart cities, por um lado, e, por outro, o dos investigadores de ciências sociais e humanas nas áreas urbanas. Os primeiros desconfiam dos segundos na exacta medida em que os segundos desconfiam dos primeiros. O pragmatismo dos primeiros incomoda os segundos, do mesmo modo que o excesso de análise destes exaspera os outros. Em todo o caso, uma cidade só será verdadeiramente inteligente se conseguir articular de forma complementar os saberes destes dois mundos. Foi exatamente por esta razão– porque acredito na articulação destes saberes, formas de pensar e de estar, aparentemente inconciliáveis – que dou por mim a escrever este texto.





[1] Tradução: “Muitas cidades usam referências nostálgicas para rejuvenescer os centros urbanos, mas algumas fazem-no melhor do que outras. Neste documentário, descobrimos como olhar para o passado tem sido chave para que a capital portuguesa dê um grande passo em frente”.

* Sandra Marques Pereira é socióloga - investigadora DINÂMIA’CET/ ISCTE’IUL.

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