2017-10-18

“As pessoas resistem à mudança, mas querem um sítio melhor para viver”

Filipa Cardoso

Conhecido por ser um activista urbano, Jason Roberts é frequentemente visto a montar esplanadas e floreiras ou a pintar passadeiras e ciclovias nas ruas. Começou por Oak Cliff, em Dallas, onde, com a sua comunidade local, requalificou o teatro onde Lee H. Oswald foi preso, trouxe o eléctrico de volta às ruas e fez da bicicleta a imagem de marca de um bairro onde ninguém tinha por hábito pedalar. No processo, quebrou muitas regras, mas nunca foi preso. O fundador da The Better Block esteve em Lisboa em Junho, para o ZOOM Smart Cities, e vai ser um dos keynote speakers do Smart City Expo World Congress, que tem lugar de 14 a 16 de Novembro em Barcelona. À Smart Cities, Roberts contou como estas acções podem funcionar, confessando, todavia, que precisa de “novas músicas”.

 

É necessário quebrar as regras para mudar a cidade?

Vejo o ambiente construído como uma questão de justiça social. Não sei se será necessário quebrar as regras, mas as maiores transformações a que prestei atenção no mundo e que estiveram relacionadas com justiça social implicaram que pessoas que queriam claramente uma melhoria na sociedade mas estavam num domínio de desobediência civil viessem para a rua e fizessem coisas emblemáticas e inspiradoras para a comunidade. O Martin Luther King Jr. e o Gandhi foram presos... Não estou sequer perto deles, mas quando começámos o The Better Block, apercebi-me de que havia tantas regras e muito poucas pessoas sabiam delas. Não se podia fazer isto ou aquilo, porque havia esta e aquela regra. As pessoas ficaram zangadas e incrédulas.

 

As pessoas querem mudança?

As pessoas resistem à mudança, mas querem um sítio melhor para viver. Por isso, exploramos um conjunto de coisas. Fazemos iniciativas temporárias, o que ajuda as pessoas a ultrapassar os seus medos e a enfrentar os piores cenários. Dizemos “isto pode ser horrível, mas não sabemos, vamos experimentar”. Como conseguimos, por exemplo, que as gerações mais velhas, que costumam opor-se a estas coisas, adiram? Tudo o que temos de fazer é apelar a uma nostalgia romântica do seu passado. Há uma perspectiva romântica naquilo que tentamos fazer e que aproxima as pessoas...

 

Algum dos projectos correu terrivelmente mal?

Não diria que correu terrivelmente mal, mas tive alguns que não foram tão impressionantes como pensei que fossem ser. Com o The Better Block, num projecto de bairro, fazemos muitas coisas e algumas não funcionam. Em contrapartida, duas ou três ou até mesmo só uma pode funcionar muito bem. Quando tentamos inspirar uma comunidade, acabamos por dar-lhe uma experiência fora daquilo a que está habituada e isso, só por si, é positivo.  Posso dizer que alguns dos projectos em que estou envolvido neste momento já não me entusiasmam como antes, porque já os fiz muitas vezes. É tal e qual como quando cantamos uma música muitas vezes, ao início, leva-nos às lágrimas, mas depois só a cantarolamos. Sinto que preciso de escrever novas canções. Vamos continuar a fazer estas coisas, que sei que as pessoas adoram e quero assegurar-me de que as conseguimos fazer em conjunto, mas o meu eu precisa de uma nova música. Algo que me vá entusiasmar e motivar. E seja o que for capaz de me mover vai provavelmente movê-los também, porque agora estou num patamar acima.

 

A sua formação foi em Tecnologias de Informação. Quais foram as suas inspirações para o urbanismo?

Li Jane Jacobs, um pouco de William Whyte e o trabalho de Jan Gehl, mas nada a um grande nível académico.

 

Alguma vez foi criticado por alguém com visões mais académicas?

Sim, algumas vezes. A [relação com a] academia foi frustrante para mim, porque quando nos diziam que algo precisava de ser feito de certa forma, convidavamo-los a participar no projecto do The Better Block e a verdade é que isso nunca acontecia. Quando temos uma ideia de como as coisas devem ser, com um novo modelo, temos 100 académicos a dizer-nos que está errado. Quando os convidamos a participar, ficam nervosos. É como um crítico de cinema, não quer fazer filmes porque sabe o quão doloroso é ser crítico e, como tem bom gosto, sabe o que faz um filme ser bom, mas não o consegue executar. Isso vai destrui-lo internamente.

 

O que correu mal na forma como os norte-americanos desenharam as suas cidades?

Tantas coisas. Obviamente, construímo-las à volta dos carros e isso não ajudou. Diria também que há uma espécie de ideologia levada pelos europeus que foram para os EUA e que olhava a América como um novo mundo que teve de ser feito de uma nova forma, com uma nova arquitectura. Olhamos para Londres ou Lisboa e as ruas são estreitas e curvas, mas isso é o velho, o que é o novo? Esquecemos de que estas cidades foram construídas há séculos e foram crescendo, com uns acrescentos aqui e ali, e nós, nos EUA, construímos cidades que foram forçadas, que parecem artificiais e são-no. Feitas com materiais baratos, não têm legados que lhes sirvam de base... Quando vemos uma avó e neto a dançar em Lisboa e me dizem “no dia em que perdemos isso, perdemos tudo”, penso “bem, nós [norte-americanos] perdemo-lo!”. E é com isso que estamos a lutar, não sabemos quem somos.

 

Sente que perderam contacto com a sua identidade?

Nós não temos tradições. Ou temos, mas são fragmentadas.

 

Não são um país assim tão antigo.

Sim, também. Criámos coisas como o jazz e blues e temos outras como o swing dancing. Temos muitas coisas na área da música e dança, mas são rapidamente desconsideradas e ficam perdidas. Não nos agarramos a esses rituais, como acontece aqui.

 

Como se evita que os projectos comunitários sirvam os interesses de alguns?

É um risco e por isso temos de perceber se as pessoas têm uma visão de legado construído, com base num ethos, ou se é apenas algo com que se está a tentar ganhar dinheiro. Se as pessoas tiverem em mente a ideia de legado e daquilo que lhes vai ser dado e proporcionado às gerações futuras, vão fazer-se coisas que são mais significativas e com propósito. Isto é muito idealista, em particular numa economia de mercado – que todos temos e a qual não tento dispensar, temos de trabalhar com ela. Mas como desafiamos o mercado? Estive em Lagos e vi uma série de coisas baratas para turistas. Pensei “há-de haver aqui alguém que faça marisco de forma diferente e única, mas porque é que não estou a ver? Vejo só as mesmas coisas para turista”. Alguém o vai acabar por fazer. A resposta está na pergunta, desafiem-se essas pessoas e pergunte-se qual é, acima de tudo, a motivação.

 

Não quer ser um líder, mas acaba por sê-lo. Há sempre alguém que tem de liderar estes movimentos ou, pelo menos, ser o motor...

Há estudos que mostram que, num grupo, surge sempre um líder. Alguém vai emergir, temos essa predisposição. O que é emocionante é que eu só me apercebi de que estava a liderar quando me apercebi de que era suposto que assim fosse. As pessoas deram-me permissão para fazer o que estava a fazer, e eu também acabei por lhes dar permissão para fazerem outras coisas e serem elas também líderes. Penso que todos são líderes, mas tem de se lhes dar permissão e foi apenas isso que fiz.

 

Os movimentos comunitários podem querer substituir o governo?

No nosso estado [Texas], temos um movimento libertário que acredita nisso, mas não me parece possível. A base do bem comum é a forma como chegamos a todos, ao mais marginalizado, ao que tem 80 anos, ao mais pobre... Se este pilar não for para todos, como vamos criar os novos Teslas e todas as inovações de que precisamos neste mundo? Se decidimos que o governo não é preciso e deixamos isso tudo, vamos estar a desconsiderar uma parte da população e aí estamos a desconsiderar a inovação, a nossa própria capacidade de fazer com que a humanidade continue a prosperar e a crescer e a fazer coisas maravilhosas. Não estamos a pensar para lá de nós mesmos. No fim de contas, não estamos a pensar em capacidade. É o que não entendo nos libertários ou nos conservadores extremos... Coloco um extractor de petróleo e saco-o todo só para mim, sem me aperceber de que preciso de todos os outros para comprar esse petróleo?!

 

Neste momento, há uma nuvem densa sobre os EUA. Que papel podem as comunidades desempenhar para assegurar a democracia?

É uma boa pergunta. Estamos a ter dificuldades com muitas coisas, em particular com uma divisão racial longa e profunda, que muitos não acreditam que existe... Bem, se soubesse a resposta a essa pergunta, teríamos uma melhor sociedade [risos], mas vai ser preciso envolvimento, juntar as pessoas e pô-las a conversar e a fazer coisas, a jantarem umas com as outras... e fazê-las estar confortáveis com um cultura que não é a sua e que digam “isto é, na verdade, fantástico” em vez de “não gosto disto”. Essa luta contra a xenofobia existe em todo o mundo. Veja-se as zonas rurais na Holanda. Nos EUA, temos uma população rural muito grande e envelhecida e que pode, de repente, surgir durante uma eleição e, aí, acabamos com um Donald Trump.

 

Qual é a sua próxima grande ideia?

Vamos entrar mais na fabricação digital, um pouco inspirados pela Wikihouse. Queremos ensinar as comunidades a construir edifícios, a preencher lacunas, aumentar a capacidade de criação na comunidade. O que me inspirou em Portugal foi o facto de não saber que tinham a questão das esplanadas e dos bancos públicos, como Paris. Todas as cidades o deviam ter! As cidades pagam por muitas destas coisas... Porque não a cidade arranjar um designer local ou fazer um concurso para desenhar as cadeiras da cidade e ensinar as comunidades locais a construí-las para ter fabricação no local? Assim, geramos capacidade de criação, é algo desenhado e fabricado localmente e, sempre que há um problema, há alguém da comunidade para o resolver. Isso foi muito inspirador para mim e estamos apenas a falar de cadeiras! Pode ser aplicado a tudo!

 

De que forma essa geração de capacidade pode ajudar as comunidades?

No caso da gentrificação, por exemplo, temos de pensar como ensinar os residentes formas e truques e todo o tipo de coisas para que consigam melhorar o local e torná-lo seu. Muitas vezes, os locais estão a degradar-se, precisam de reparações... Dar as ferramentas e os recursos para isso às pessoas é fantástico, assim como permitir que captem a riqueza para si também, em vez de entregá-la a outros.

 

Que sugestão teria para Lisboa?

Estive aqui poucos dias, mas diria que vocês já têm muitos sucessos. É preciso pensar em replicá-los. Há algumas áreas que estão estagnadas. Aí, temos de perguntar o porquê e o que podemos aprender. Este é um desafio de todas as cidades. Muitas das coisas construídas nos últimos 100 anos não o foram para os humanos, mas sim para mover as pessoas rapidamente, em carros. É preciso repensá-las. 

 

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