2017-10-16

FAROL URBANO: Jogar ao Monopólio (Parte 1)

Vítor Pereira

Quando o jogo do Monopólio foi inventado, há dezenas de décadas, ninguém diria que se tratou de uma das mais engenhosas, inteligentes e bem sucedidas fórmulas de disseminação daquilo que é o capitalismo na atualidade. E, contudo, o objetivo inicial do jogo era totalmente o oposto.

 

O primeiro protótipo foi patenteado em 1904 por uma feminista, Lizzie Magie, simpatizante “esquerdista”, e tinha como objetivo demonstrar todos os males e pecados de um sistema monopolista e capitalista com base nas rendas do imobiliário.

As dificuldades para encontrar um distribuidor do jogo eram evidentes e assim foram quase como ativistas, fazendo demonstrações e jogando pelo país em círculos intelectuais “de esquerda”. Na altura, o autor e filósofo Henry George liderava o movimento que propunha uma “taxa única”, já que, segundo defendia, os proprietários de terras e imobiliário usufruíam de um rendimento que não era merecido de benefícios providenciados às suas propriedades como infraestruturas diversas, ligações de trânsito e proximidade exponencial a clientes, fornecedores e outros negócios e empresas.


Estas rendas cobradas pelos proprietários gananciosos tiveram como consequências diretas o desemprego, o empobrecimento, a inflação e desigualdade. A solução, acreditava, era “substituir todos os impostos com valor da propriedade, transferindo uma fatia pesada dos impostos para os proprietários e especuladores abastados, deixando livres o ‘trabalho e o capital’ para florescer em melhores condições”.

 

No jogo original, e tal como na versão moderna, os jogadores que ficavam para trás na corrida à aquisição das casas rapidamente ficaram reféns do crédito e, sem misericórdia, eram esmagados pelas rendas, taxas e impostos até à bancarrota final, escravos de um só plutocrata que terminava o jogo “dono de tudo”.

 

Contudo, os jogadores, poderiam então votar por jogar sobre regras “cooperativas e solidárias” – por exemplo, em vez de pagar rendas ao titular da propriedade com imobiliário, o dinheiro era transferido para um “saco” comum, socializando rendimentos que não eram merecidos “riqueza especulativa” e, assim, conseguindo uma distribuição da prosperidade por todos. A mesma coisa com os serviços e equipamentos como os caminhos de ferro, distribuição postal, água, eletricidade, etc. Também a “Cadeia” se transforma em “Escola Gratuita”.

 

Simulando estas condições, fatores e desafios de uma economia livre de monopólios de especuladores imobiliários e oferecendo uma solução, os autores do jogo tinham esperança de disseminar esta lógica de justiça e equidade social, sendo o jogo, uma demonstração prática de que o sistema em vigor de aquisição de propriedade e consequente taxação de rendas aos outros jogadores era totalmente inaceitável.

 

E, em vez de Monopólio, poderia ter-se chamado “Jogo da Vida” já que contém todos os elementos que fazem o sucesso e os falhanços no mundo real, sendo também demonstrativo daquele que parece ser o grande objetivo que a raça humana, de uma forma geral, parece ter: a acumulação de riqueza.

 

Mas o jogo, entretanto, tornou-se o oposto e existem inclusive estudos psicológicos sobre os comportamentos de quem joga e ganha e da empatia (ou falta dela) para com os “desafortunados”. Obviamente que é um jogo, dizem. Mas, na vida real, com toda a propaganda do sistema capitalista e com a crescente necessidade de todos competirem contra todos, começando nos infantários e terminando nas empresas, está a promover-se um clima pouco são para as gerações futuras. A solidariedade não pode ser um asset do marketing que funcione como impulsionador para mais riqueza “não merecida”.

 

Também o momento que se vive nos centros das cidades com a especulação imobiliária em crescendo, gerando fenómenos como a gentrificação não deve ser usada para fundamentar ideologias. Não há certos nem errados, esquerda ou direita nas smart cities. Mas há caminhos alternativos. E assumir esses caminhos, por vezes, faz a diferença de quem está a correr pela “riqueza especulativa” e quem realmente se preocupa com as pessoas. E, por mais incrível que possa parecer, há alguns casos bem sucedidos no mundo que não estão a vir dos setores ideológicos que muitos pensam ser os tradicionais opositores das “grandes fortunas”.

 

FAROL URBANO é uma crónica (opinião) publicada em todas as edições da revista Smart Cities e da autoria de Vítor Pereira.


(Continua na edição Outubro/Novembro/Dezembro 2017)

 

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