2017-06-26

FabCity – o próximo passo?

Inês Santos Silva*

Nos últimos anos, temos assistido ao surgimento de uma série de movimentos e iniciativas que nos fazem repensar os processos de fabricação e também o posicionamento das cidades nesta sociedade produtiva.

 

Lembro-me de que, em 2013, quando frequentei o Global Solutions Program da Singularity University, fiquei muito surpreendida com o potencial da impressão 3D, com os FabLabs, TechShops, Hacker Spaces e Biocurious, que já estavam a proliferar um pouco por todo o mundo, e com as Maker Faires, que já juntavam milhares de “makers” nos Estados Unidos e noutras partes do globo.

 

Passados quatro anos, existem mais de 1000 FabLabs um pouco por todo o mundo (17 dos quais em Portugal) e existe uma grande vontade de levar estes conceitos mais além. Recentemente e devido ao trabalho que tenho desenvolvido com a Ouishare, um think-tank e do-tank que trabalha nas áreas de economia colaborativa e futuro do trabalho, descobri o conceito de FabCity, uma iniciativa que começou em 2011 na conferência FAB7 em Lima e que foi lançada pelo Institut d’Arquitectura Avançada de Catalunya, o MIT Center for Bits and Atoms, a Fab Foundation e câmara municipal de Barcelona e que tem como objectivo a criação de um novo modelo para cidades auto-suficientes que produzem localmente, mas que estão globalmente conectadas. Hoje, já fazem parte desta iniciativa nomes como Boston, Shenzhen, Amesterdão, Toulouse, Paris, o Reino do Butão e Santiago do Chile.

 

Com esta iniciativa, pretende-se criar um novo ecossistema de produção no qual iniciativas públicas e privadas, grandes e pequenas, conseguem co-habitar e gerar conhecimento. Se, por um lado, temos os Fablabs, locais para experimentação onde se podem prototipar novos modelos de produção e distribuição, por outro, temos empresas como o Ikea, a Adidas, a Nike ou a Airbus a aproximar a produção do consumo e estão especialmente interessadas na cultura em torno da tecnologia, bem como nas novas tendências da sociedade aberta, inovação aberta, redes distribuídas e blockchain.

 

A visão por detrás da FabCity é de longo prazo, sempre focada em tornar as cidades mais sustentáveis e resilientes, assentes nas noções da economia circular, com a meta de, em 2054, ter cidades auto-suficientes, nas quais:

  1. As cidades produzem, pelo menos, 50% do que consomem;
  2. Existe um repositório global de projetos de código aberto para soluções da cidade;
  3. Os materiais são localmente gerados através da reciclagem e materiais digitais.


Em Portugal, para além dos 17 FabLabs, já tivemos três edições da Maker Faire Lisboa, uma edição muito recente da Mini Maker Faire Castelo Branco e, na semana passada, foi anunciada a iniciativa “Made in Baixa”, apoiada pela Call for Activities do ScaleUp Porto, que tem como objectivo o envolvimento de negócios locais, empresas, escolas, universidades e startups num hub de experimentação de novos sistemas de produção e interação, promovendo a economia circular.

 

Termino assim com um desafio: porque não uma FabCity em Portugal? Não seriam só as cidades e os seus cidadãos que ficariam a ganhar, mas também as empresas e a economia local.

 

 

 

 

*Inês Santos Silva é a diretora executiva da Aliados | The Challenges Consulting, uma consultora de inovação focada na resolução de desafios com triplo impacto. Paralelamente, Inês tem-se especializado nas questões do Futuro do Trabalho.

 

 

#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

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