2017-12-13

Repensar as cidades inteligentes: Da tecnologia para um estado de felicidade

Boyd Cohen e Rob Adams*

É o momento de repensar as cidades inteligentes! Do enfoque na tecnologia para um estado de felicidade

 

 

O termo “cidades inteligentes” parece uma expressão da moda nos dias que correm. Poderia encher o seu calendário com todos os eventos que decorrem em redor das cidades inteligentes de todo o mundo. Poderia ler, durante todo o dia, os artigos e debates entre os especialistas no tema e tentar perceber o verdadeiro significado do conceito de cidades inteligentes e quem dele beneficia. As empresas de tecnologia emitem comunicados sobre as suas brilhantes soluções para tornar as cidades ainda mais inteligentes. Mas não se terão esquecido de algo importante?... O cidadão?

 

Pensamos que a definição de cidades como sendo inteligentes ou estúpidas é não só incorrecta, como limita também o enfoque em querer ser inteligente. Isto resulta num enfoque tecnológico, com o cidadão considerado como um mero sujeito. As cidades deveriam ter como prioridade as pessoas e não a tecnologia. Este é o momento de repensar as cidades inteligentes. Acreditamos que as cidades deveriam ser desenhadas em redor da felicidade e não da tecnologia ou da eficiência. Acreditamos na criação conjunta de espaços divertidos, envolventes e felizes para os cidadãos, um projeto e um bairro de cada vez, para transformar o mundo num local novamente feliz. E, nos tempos que correm, pensamos que isto é algo de que o mundo necessita.

 

Breve História do Pensamento das Cidades Inteligentes

 

Começámos a ouvir falar das cidades inteligentes há cerca de uma década. Num artigo publicado anteriormente por Boyd Cohen no Fastcoexist, as suas análises levaram a uma reflexão sobre a evolução das cidades inteligentes naquilo a que chamamos três gerações.

 

A geração de Cidades Inteligentes 1.0 era guiada pela tecnologia, na qual os integradores e vendedores tecnológicos multinacionais encorajaram as cidades a melhorar as eficiências através de implementações tecnológicas.

 

A geração de Cidades Inteligentes 2.0 foi liderada pelas próprias cidades e repleta de tecnologias, na quais os representantes municipais começaram a tomar uma posição de maior liderança no que toca ao desenvolvimento de uma visão do caminho que a sua cidade deveria tomar no futuro, emitindo, depois, pedidos de propostas a empresas maioritariamente multinacionais para ajudar a implementar essa visão.

 

A geração Cidades Inteligentes 3.0, capaz de coexistir com a 2.0, está concentrada na criação conjunta com os cidadãos. Neste modelo, o cidadão está no centro do movimento das cidades inteligentes, tomando mais a iniciativa para o desenvolvimento de uma visão para o futuro da sua cidade, assim como o desenvolvimento conjunto de projetos para a melhoria das condições.

 

Cidadãos Felizes

 

Quando, em 2016, estivemos no Smart Cities Expo World Congress em Barcelona, tivemos uma epifania. Aí, entrevistámos dezenas de especialistas em tecnologia para conhecermos aquilo de que mais gostam nas suas cidades, não enquanto profissionais, mas enquanto cidadãos. Aquilo que descobrimos é que a felicidade, nas suas diversas formas, era aquilo que mais entusiasmava estes especialistas.

Combinando os conhecimentos das três gerações de cidades inteligentes, das entrevistas feitas durante o Smart City Expo e dos conhecimentos obtidos a partir do trabalho na temática urbana nos passados anos e tirando proveito do trabalho da medição de felicidade por todo o mundo, particularmente da felicidade interna bruta do Reino do Butão, desenvolvemos o Hexágono dos Cidadãos Felizes. Unimos as qualidades resultantes da experiência com as cidades inteligentes com o pensamento de design, de forma a dispor de um enquadramento para a alteração do foco tecnológico das cidades para um estado de felicidade. O Hexágono dos Cidadãos Felizes possui seis componentes e três subcomponentes para cada uma delas. Vamos brevemente descrevê-las para compreender de que forma podemos aplicar este pensamento de design às cidades.

 

Segura e Saudável

 

Em muitas das nossas entrevistas com especialistas da esfera das cidades inteligentes, foram destacados os tópicos da segurança e da saúde nas cidades. A polícia da cidade de Coimbatore, onde reside cerca de um milhão de pessoas no Sul da Índia, lançou recentemente a “Operação Zero Crime”, que visa aumentar a consciencialização das pessoas para o crime na cidade e implementar vários programas de prevenção, muitos deles através do sistema de educação público e privado. Apesar de o “Zero Crime” ser praticamente impossível de alcançar, ambicioná-lo é o único caminho para uma maior felicidade dos cidadãos. Este talvez seja o momento acertado para mencionar que haverá muitas soluções de cidades inteligentes empregues para alcançar os cidadãos felizes. Por exemplo, para alcançar o “zero crime”, a tecnologia de videovigilância pode ser muito útil quer para a redução do crime, quer para nos vermos livres do medo, já que os residentes se sentem mais seguros sabendo que os elementos dissuasores estão visivelmente implementados.


Voltando à Índia, a cidade de Surat, em Gujarat, experienciou uma redução de 27% no crime após a implementação de um projeto de Cidade Segura em colaboração com a Microsoft.

 

A “saúde mental e física” é obviamente fundamental para a felicidade dos cidadãos de todo o mundo. E, embora isto possa parecer óbvio, a sua colocação num modelo de cidades obriga a que o tópico faça parte da agenda das cidades. A Take Care New York 2020 (TCNY 2020) é uma iniciativa para a melhoria da saúde mental e física dos residentes da cidade de Nova Iorque, de forma a “melhorar a saúde de todas as comunidades e de dar enormes passos nos grupos com os piores resultados de saúde, para que a nossa cidade se torne num local mais equitativo para todos.”

 

Capacidade de ser percorrida a pé e acessibilidade

 

Parece que todos os meses lemos um artigo sobre a ligação entre o congestionamento do trânsito e os seus impactos negativos sobre a saúde e a felicidade. Devemos destacar que alguns académicos descobriram fortes ligações entre a capacidade de uma cidade de ser percorrida a pé e os níveis de saúde e uma relação mais débil entre a capacidade de ser percorrida a pé e a felicidade. No entanto, isto deve-se em grande parte ao facto de nenhuma componente ou subcomponente do Hexágono dos Cidadãos Felizes levar por si só às cidades felizes. É a combinação de todas elas que é necessária.

Estratégias, como a de um desenvolvimento orientado para o trânsito e um desenvolvimento de utilização mista, exigindo que os novos edifícios residenciais possuam espaços comerciais no primeiro piso, tiveram sucesso na melhoria da capacidade de Vancouver de ser percorrida a pé.
 

Fazer do “Peão e Ciclista” uma prioridade beneficia diretamente a capacidade de uma cidade ser percorrida a pé, melhora a saúde e faz desta um local mais feliz. Fomos inspirados pela quantidade de cidades de todo o mundo que se estão a transformar em prol das pessoas e não dos automóveis, removendo auto-estradas e substituindo-as por caminhos para peões e ciclovias, por parques, etc. Um dos mais impressionantes exemplos desta estratégia foi concebido em Seul em 2003.  Hoje, aquilo que antigamente era um auto-estrada elevada de dois pisos no centro da cidade tornou-se num espaço verde e capaz de ser percorrido a pé com uma via navegável recuperada e pontes para peões. Os pássaros assim como outra vida selvagem regressaram ao centro da cidade. 

 

Limpa e Verde

 

Na “Roda das Cidades Inteligentes” original, o ambiente inteligente era obviamente uma das subcomponentes. No entanto, quando se coloca o cidadão feliz no centro do modelo, existe uma necessidade de reestruturar o nosso pensamento sobre a cidade, pensando naquilo que preocupa os cidadãos.

Uma pequena percentagem dos cidadãos está preocupada com a percentagem de energia renovável ou com aquilo que a sua cidade está a fazer para lidar com as alterações climáticas, enquanto o tópico “Ar Limpo” foi apontado por vários dos especialistas que mencionámos aquando da sua reflexão sobre o que valorizam nas suas cidades. A contaminação atmosférica nas cidades é um grande problema à escala global. A Organização Mundial de Saúde (OMS) relatou recentemente que 98% das cidades situadas em países de baixo e médio rendimento com populações superiores a 100 000 não cumprem com os padrões de ar limpo e que 56% das cidades de igual tamanho mas em países de elevado rendimento falham também no cumprimento das normas da OMS. 

 

O acesso a “Espaços verdes” e a “Áreas de Lazer Exteriores” foi também várias vezes mencionado nas nossas entrevistas e estas áreas são normalmente destacadas em estudos de cidades saudáveis e felizes. A OMS recomenda 9 metros quadrados de espaço verde per capita. Viena “rebentou” totalmente com esse objectivo, oferecendo 120 metros quadrados de espaço verde per capita. Entretanto, na vizinha Munique, os residentes e visitantes têm a oportunidade de surfar uma onda fluvial constante ao longo do ano, criando cidadãos felizes (ainda que, talvez, um pouco frios)!

 

Prosperidade Partilhada

 

As cidades inclusivas e diversificadas são uma necessidade, caso desejem ter cidadãos felizes. As cidades com níveis elevados de segregação dos mais pobres em relação aos mais ricos ou por etnias não contribuem para a nossa felicidade.

Um dos nossos modelos favoritos que está a emergir é apelidado de educação ESTEAM. Isto significa “Empreendedorismo, Ciência, Tecnologia, Artes e Matemática”. A disponibilização do acesso das crianças a estas capacidades por toda uma cidade, independentemente do seu nível de rendimento, é uma excelente forma de aumentar as oportunidades de inclusão para todos. “Acesso inclusivo à comida local e a energia, assim como habitações com uma boa orientação em relação ao trânsito”, são também muito importantes para a obtenção de cidades felizes.

Não incluímos o emprego neste modelo porque não estamos convencidos de que os trabalhos, tal e como os definimos atualmente, sejam abundantes no futuro, em vez disso, viramos a nossa atenção para o movimento “maker” local noutras partes deste modelo.

 

Socialmente Conectados

 

A nossa espécie é inerentemente social. Para além daqueles que buscam uma prosperidade partilhada, outro motivo principal para a massiva migração urbana consiste no desejo de fazer parte de uma comunidade. As cidades são capazes de suportar a densidade de colisão, o que melhora a inovação e a conectividade. A sobreposição com as ligações sociais e a proliferação da partilha ponto a ponto nas cidades é bastante forte. A Peerby, fundada em Amesterdão, facilita as ligações entre bairros, permitindo aos seus residentes partilhar artigos domésticos com os seus vizinhos.


De forma semelhante, o Repair Café, também fundado em Amesterdão mas a operar agora em 1200 cidades de todo o mundo, reúne pessoas que gostam de reparar coisas com pessoas que necessitam de algo reparado. Não há qualquer transação monetária e o objectivo consiste em criar mais ligações sociais, reduzindo ao mesmo tempo os resíduos ambientais. As reuniões facilitam também este tipo de interacção. Em Barcelona, por exemplo, existem actualmente 802 reuniões acessíveis a qualquer pessoa da comunidade.

 

Orgulho Cultural e Cívico

 

Conforme o nosso debate sobre a prosperidade partilhada e a conectividade social, as cidades que abraçam as culturas locais e internacionais são também mais felizes. As cidades que abraçam os costumes e as diversidades étnicas permitem que as suas crianças sejam expostas a outras culturas, melhorando as suas interações nas escolas e nos parques.

Ter um forte sentimento de pertença é também fundamental para a criação de cidades felizes. Isto é, honrando e celebrando aquilo que faz de cada cidade única em relação partindo do seu passado, presente e futuro. Em Barcelona, a arquitectura de Gaudi influencia a cidade e obviamente faz de Barcelona uma cidade diferente de qualquer outra. Barcelona dispõe de um parque, Parc Guell, desenhado por Gaudi, museus dedicados a Gaudi, tours de edifícios de Gaudi que atraem também imensos turistas (talvez demasiados?) para Barcelona.

 

Continuando em Barcelona para mais um exemplo, a emergência das “Fab Cities” faz parte desta componente, na qual consideramos as artes e as comunidades “maker”. A capacidade de produzir arte, música, comida, energia e até bens materiais (por exemplo, em Fab Labs) contribui para uma sensação de comunidade e poderá também ajudar a reduzir a dependência dos trabalhos e rendimentos tradicionais. “Fab Cities”, inicialmente fundada em Barcelona, encoraja as cidades a repensar o seu consumo e os sistemas de produção. Até hoje, 16 cidades de todo o mundo juntaram-se já à cidade catalã no compromisso de produzir, pelo menos, 50% de tudo o que é consumido nas suas próprias cidades até 2055, se possível até antes.

Finalmente, a democracia contínua deverá fazer parte de qualquer iniciativa de cidades felizes. Os cidadãos esperam e desejam cada vez mais fazer parte das decisões tomadas sobre a sua cidade e estar ainda mais envolvidos de forma directa na transformação das suas cidades. O movimento “Direito à cidade” consiste na recuperação das cidades e dos espaços urbanos comuns para os residentes locais. Já não basta a um habitante da cidade ser capaz de votar numa eleição autárquica de quatro em quatro anos. As cidades têm de mudar a sua perspectiva de impulsionar a agenda urbana para permitir a criação conjunta por parte dos cidadãos.

 

Conclusão

 

Este é o momento de reestruturar o debate das cidades inteligentes e de colocar verdadeiramente o cidadão no centro daquilo que fazemos, enquanto planeadores urbanos, investigadores, consultores, tecnólogos e activistas.

Temos a esperança de que o Hexágono dos Cidadãos Felizes possa contribuir para este debate. Publicamo-lo como uma licença Creative Commons, permitindo que qualquer um de vós o utilize ou adapte para as suas próprias necessidades. Nos meses futuros, esperamos também publicar um índice global de cidades felizes, fique atento! Se deseja sugerir alguma melhoria ou dispõe de outro feedback sobre o modelo, por favor contacte-nos através do endereço de e-mail info@happycitizendesign.com. 

 

 



Sobre os autores:

Boyd Cohen é o “inventor” da roda para as smart cities. Especialista em estratégias urbanas e climáticas, é um proeminente pensador e investigador na área das cidades inteligentes. É vice-director de Investigação na EADA Business School Barcelona.

 

Rob Adams é fundador da agência de inovação holandesa Six Fingers, na qual é actualmente Chief Expedition Officer. Quando era pequeno, queria ser astronauta e, hoje, gosta de desafiar os dogmas instituídos para expandir oportunidades ou identificar novos modelos conceptuais.

 

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