2017-05-18

Graham Colclough

“O que as pessoas querem e aquilo de que precisam é, muitas vezes, diferente”

Graham Colclough esteve em Lisboa, para conhecer o projecto Sharing Cities. Co-fundador do Urban DNA, o britânico está entre os mais conceituados especialistas internacionais sobre cidades inteligentes, fazendo parte da Parceria Europeia para a Inovação Smart Cities & Communities da Comissão Europeia. Perante as recentes mudanças políticas, Colclough olha para o futuro com apreensão, alertando que há uma “bomba relógio” à qual não se está a prestar a devida atenção: o envelhecimento da população.

 

Definir o que é uma smart city tem sido tema de debate. Estamos agora mais perto de uma definição comum?

Creio que estamos um pouco mais maduros no que toca a perceber o conceito. Estamos a alternar entre algo que é tecnologia para o entendimento de que há outras questões, relacionadas com circularidade e com o mudar todo o modelo das cidades. Não significa que a noção smart cities vá desaparecer, mas que se está a integrar com sustentabilidade, resiliência, circularidade, partilha. E isso é bom.

 

Há alguma expressão que seja agora mais adequada do que “smart”?

As palavras [na moda] mudam a cada dois a três anos. Às vezes, duram mais e não há problema. Mudamos as palavras que atraem as pessoas e o “smart” tem sido, de forma interessante, uma das que tem durado mais tempo. Isto não quer dizer que, quando surja uma nova, a antiga se deite fora. Penso que vamos continuar com “smart” por uns tempos, mas há outras que estão a emergir, como resiliência, circularidade, partilha. Destas, partilha é aquela que é capaz de ressoar melhor com pessoas. Partilha é smart, circularidade é smart e resiliência é smart

 

Aponta o crescimento populacional como um dos principais desafios actuais. No seu entender, é algo a que está a ser dada a devida atenção?

Não, infelizmente. Continuamos a viver nas nossas pequenas bolhas. Para mim, a principal questão é que não estamos a ver as implicações de coisas que estão a acontecer. Um dos principais desafios nas cidades é que temos políticos eleitos a cada quatro anos e assumimos que, assim que são eleitos, se tornam especialistas. É claro que isso não acontece, mesmo que tenham conhecimento e sejam competentes. Tal significa que nós, enquanto indivíduos na sociedade, temos de assumir responsabilidade rumo a um novo futuro e ajudar a usar o poder dos oficiais eleitos e das câmaras municipais como convocador no futuro. Temos cidades que envolvem os cidadãos? Muito poucas. Temos cidades que compreendem a sociedade? Quase nenhuma...

 

Significa que as cidades europeias não estão mais “inteligentes”?

Se entender inteligente no contexto de realmente compreender a procura... Dou-lhe uma metáfora: no desenvolvimento da cadeia de abastecimento na indústria, fala-se do “efeito chicote”. Compreender a procura é segurar o chicote do lado certo e, neste momento, uma vez que não compreendemos verdadeiramente a sociedade, estamos no lado oposto e, por isso, somos incrivelmente ineficientes. O que é maravilhoso, pois significa que podemos tornar-nos eficientes, mas temos de pensar qual é a natureza da procura. O que as pessoas querem e do que precisam não é o mesmo. Muitas vezes, é fundamentalmente diferente. Temos de pensar como podemos gerir a montante questões como a saúde, o consumo de energia, a mobilidade, etc. Isso significa estar na cabeça dos indivíduos, o que é muito difícil de fazer. Mas não podemos distanciar-nos do facto de ter de ser feito.

 

Há um foco na energia e mobilidade. Faz sentido que assim seja?

Sim. Essas são as temáticas que as cidades em todo o lado estão a abordar. Mobilidade e energia são muito, muito importantes, porque estão ligadas, e a energia é uma questão crucial. Estou satisfeito com o facto de as cidades estarem a centrar-se nisso, o que não me agrada tanto é o facto de não estarem a partilhar, de forma suficientemente estruturada, o que aprendem sobre o tema, nem a agir como um grupo de cidades que vai mudar a forma como a indústria, a oferta, responde a essa necessidade. Estamos a resolver problemas ao nível específico da cidade, o que é correcto, mas os componentes que usamos para resolver os problemas podem ser os mesmos e o conhecimento pode ser mais bem disseminado. Temos de conseguir resolver a questão dos transportes e da energia rapidamente porque há algumas vagas na nossa direcção, sendo que a maior, que é uma bomba relógio, é o envelhecimento da sociedade e o custo com os cuidados com a população idosa.

 

É possível atenuar essas questões?

É possível transformá-las com soluções digitais, interacção com as pessoas. Já foi feito em partes do mundo, como a China, que está a prestar cuidados de saúde através de smartphones.

 

Que papel pode uma entidade pan-europeia, por exemplo a Comissão, desempenhar neste percurso?

Sendo de um país que está prestes a sair da Europa, respondo: um grande papel! Na Comissão Europeia (CE), estão a esforçar-se para o fazer e a tentar mudar. A CE está na sua terceira “fase”. A primeira foi a de tirar dinheiro das nações e entregá-lo às regiões. Quantias de dinheiro, tipicamente muito pequenas, com as quais todo o tipo de planos interessantes haviam de crescer. A CE olhava e dizia “que planta mais bonita” e leva lá pessoas para mostrar o que fazia, mas esta acabava por morrer porque ninguém cuidava dela. Foi a fase de experimentação. A segunda foi quando se aperceberam de que as plantas e as flores estavam a morrer porque não se sabia qual delas regar e, por isso, decidiu-se tomar decisões com propósito e investir em projectos de maior dimensão que se podem controlar, ou seja, pilotos de larga escala, o que é bom, mas o problema está no facto de que, quando acaba o financiamento, o projecto pára. A terceira fase é sobre estas Parcerias Europeias de Inovação (EIP).

 

Por que são importantes?

Porque estão a juntar a indústria dos investidores e a procura, não é ainda um veículo a quatro rodas, mas a existência de uma terceira parte vai fazer a diferença para circundar a sociedade e melhorar as coisas. Logo, irá ser algo mais sustentável, o que significa que as iniciativas, em oposição aos projectos, vão continuar. Isso é importante.

 

Em que medida a CE interfere?

Em primeiro lugar, a CE pode criar um mercado e a EIP é um instrumento importante para isso. Em segundo lugar, a regulação e política movem-se mais devagar do que a digitalização e transformação, pelo que a CE pode descobrir como ser mais ágil e inovadora no que toca à gestão do processo de reforma regulatória. Esse é um componente importante. Bruxelas é uma besta de movimentos lentos, logo haverá desafios enormes em fazê-lo. Em terceiro lugar, a Europa precisa de ter em conta, económica e sustentavelmente, quais são os seus meios no mundo... A Europa é relevante para o resto do mundo no que toca à sustentabilidade e é economicamente importante para as pessoas que nela vivem. Mas temos de pensar em exportar. Neste momento, Narendra Modi [primeiro-ministro indiano] está a gerir o mundo. Ele é muito inteligente e diz, por exemplo, para a Suécia, “podem ter estas três cidades”, ou, para a América, “fiquem com estas cinco cidades”… Ele está a gerir a oferta de forma muito inteligente. Em oposição à Europa, que não tem qualquer estratégia sobre como estar [como um todo] nas cidades indianas. E isso é errado, na minha opinião. Temos algumas nações europeias que vão para a Índia e competem e temos outras nações, também europeias, como Portugal, que não tem capacidade de enviar delegações comerciais com real significado. Na minha opinião, a CE tem uma lacuna no que toca à nossa relação com a Índia. Temos algo com a China, mas não é suficientemente bom, e qualquer coisa na América do Norte. Mas na Índia é preciso fazer algo...

 

Com todas as alterações políticas a que estamos a assistir, como o Brexit ou Trump, haverá espaço para a união, ou os estados podem progressivamente isolar-se uns dos outros?

Há 15 anos, lembro-me de, na Finlândia, se falar de uma dupla mudança no poder. Efectivamente, estava a falar-se, por um lado, do Estado-Nação, que, na sua essência, na perspectiva política em grandes programas, precisa de olhar mais para pontos comuns acima da escala de país. Por outro, a segunda grande viragem no poder tem a ver com os indivíduos e a separação de poderes. As experiências com Trump e Brexit só reforçam um ponto muito importante que é o facto de as pessoas estarem realmente mais preocupadas e precisarem de estar envolvidas. A não ser que escutemos esta mensagem, fico verdadeiramente preocupado com o que pode acontecer com os meus filhos e netos. Essa é a questão chave, como fazê-lo? Não o fazemos de forma abstracta, a nível nacional, ou até, a nível abstracto, numa grande cidade, temos mesmo de envolver as pessoas.

 

É um sinal alerta para acordarmos?

Sim, mas não o estamos a ouvir. Estamos a voltar a adormecer. É bastante assustador e, enquanto o despertador toca a cada 15 minutos, há uma vaga a vir na nossa direcção e precisamos mesmo de abanar e acordar grande parte dos políticos, das pessoas – porque não é uma solução unicamente política, nem só das pessoas, é de ambos. Juntar essas duas partes de forma sensata, ao nível local, faz sentido e espero que o passemos a fazer.

 

O que pode o cidadão fazer em todo este processo?

Cabe a cada um. É uma escolha pessoal que cada indivíduo deve tomar, o que significa que é preciso estar informado. O papel do governo é o de convocar, informar, e, por vezes, de direccionar. De forma absoluta, as pessoas têm de fazer uma escolha informada. Há algumas áreas, nas quais as pessoas pensam que estão informadas mas não estão e é aí que é preciso algum nível de chamada de atenção e há uma certa subtileza nisso, o que é humano, mas com o qual não tivemos de lidar no passado, mas que temos de fazer agora. Uma coisa certa é que as pessoas precisam de escolher e de estar envolvidas, caso contrário não vamos resolver as questões e não vamos caminhar para uma vida boa. Não sei qual a solução, mas sei que somos muito imaginativos enquanto seres humanos e, se conseguirmos partilhar e aprender em conjunto, conseguimos resolver questões muito rapidamente. Vai ser um trabalho em contínuo durante muito tempo, mas, neste momento, há uma onda a vir na nossa direcção.

 

Olhando para algo mais positivo, do que ouviu da experiência de Lisboa, o que lhe parece?

Gosto muito da oportunidade à volta da Carta Potencial Solar [aproveitamento da energia solar], porque mostra que há visão, um novo futuro e que há claramente paixão do lado da cidade para fazer algo sobre isso. É um exemplo muito bom para elevar uma cidade a um paradigma completamente novo. Gosto muito do facto de os portugueses fazerem as coisas. Quando se trata de tornar coisas realidade, de forma muito pragmática, isso é Portugal – digo isto com base na minha experiência de trabalhar com vários países no mundo. Relativamente à estratégia de Lisboa, diria que o desafio, e não é apenas de Lisboa mas de todas as cidades, é se Lisboa percebe verdadeiramente as necessidades e os desejos dos seus habitantes e, se pensa que sim, provavelmente, é preciso repensá-lo, porque nenhuma cidade compreende totalmente a sociedade tão profundamente quanto é necessário para obter resultados. A segunda observação que faço é que Lisboa está a avançar e há algumas temáticas interessantes, como a energia, mas faltam as conexões entre estas questões.

 

E esse é um desafio que deve ser abordado individualmente ou em conjunto?

As cidades precisam de perceber a espinha dorsal financeira do seu sistema económico. Deverá cada cidade tentar inventar a solução para a espinha dorsal do seu sistema económico?! Porque isso é algo complicado! Se mudarmos os diferentes níveis políticos, as acções ou os locais, que efeitos vai isso ter?! As cidades não sabem. Deverá cada cidade individualmente encontrar a sua espinha dorsal financeira? Absolutamente que não! Mas é aqui que a CE pode intervir e dizer “vamos compreender os backgrounds financeiros das cidades”, “vamos definir, com cidades que são muito boas, um conjunto de ferramentas que todas possam usar”. Resolver um problema que Lisboa ainda não resolveu não deve ser feito por Lisboa sozinha. Deveria resolver-se com projectos como o Rescue, o Sharing Cities, para lidar verdadeiramente com isso enquanto um colectivo.

 

A partilha de conhecimento é fundamental para o sucesso?

Sim, mas precisa de ser feita de forma estruturada. As cidades partilharam conhecimento durante anos, [as equipas responsáveis] visitam-se, falam entre si, depois voltam para casa e ficam ocupadas novamente. Isso não é útil. O que precisamos agora é de fornecer uma ferramenta, um enquadramento comum que possa ser personalizado à cidade. Por exemplo, se tem uma dor de cabeça, vai à farmácia e dão-lhe uma série de aspirinas que não são personalizadas. Toma duas, três ou nenhuma, a escolha é sua. Esta deve ser a mesma metáfora para as cidades. “Aqui estão as aspirinas, agora têm de descobrir como usá-las”. Isso é aprendizagem estruturada. Não há nenhum mecanismo competente para fazer isso no mundo.

 

Neste caminho para a inovação e a experimentação, como evitamos cair no ciclo dos projectos piloto?

No que toca à experimentação e apoiar novas ideias, digo às cidades que têm de perceber como fazer com que as suas PME falhem rapidamente. Em Londres, há mil novas empresas registadas a cada semana e 950 morrem, se não mais. Como ajudá-las a falhar rapidamente? O lado da inovação precisa de ser muito ágil e dinâmico e descobrir como fazer com que as coisas escalem muito rapidamente. Esse é o contra-argumento e é necessário tê-lo sobre a inovação. Focar no crescimento. Para a experimentação, os living labs são bons. Os projectos piloto podem ser sobre coisas que não sabemos e que levam à inovação, porque não se inova em coisas que são óbvias.

 

Estamos a insistir em inovar em coisas óbvias? Não são necessárias?

Infelizmente, um grande número de cidades está ainda a experimentar e a fazer pilotos em coisas demasiado pequenas que são óbvias... É preciso um certo grau de coragem dos políticos, empresas e colaborações, para ir para a frente com coisas com as quais simplesmente é preciso avançar, como a iluminação, o estacionamento. É por isso que os roadmaps e as lideranças são importantes. É óbvio e tem de ser feito à escala e não só da cidade, ao nível colaborativo com outras cidades. Estes são os meios pelos quais se mostra à sociedade que se fizeram coisas úteis, porque são óbvias. Inovação e experimentação são também importantes, mas têm de o ser em questões que o merecem.



*O artigo foi publicado, originalmente, na edição #14 da revista Smart Cities. Aqui, com as devidas adaptações. 

 

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