2018-01-24

A economia solidária na construção da cidade justa

Ana Baptista de Oliveira*

Nos últimos anos, têm sido múltiplos os apelos ao espírito crítico e participativo e ao envolvimento de cada um de nós na construção de uma comunidade mais cívica e mais consistente na sua cidadania activa.

 

Correndo o risco de sublinhar o óbvio, as cidades são feitas por e para pessoas, quer em termos familiares, quer em termos escolares, sociais ou empresariais. Desta forma, a simplificação e a criação de mecanismos simples e acessíveis para aproximar as pessoas dos agentes decisores têm sido particularmente relevantes.

 

Esta participação de proximidade move e alimenta a transformação da cidade numa criação transgeracional necessária. Como tive oportunidade de escrever antes, projectos que permitam a consolidação de laços sociais e comunitários pertinentes são não apenas louváveis mas absolutamente necessários para a sobrevivência a médio e longo da humanidade que pulsa nas cidades.

 

No entanto, e ainda que reconhecendo o caminho extraordinário que já foi feito, acredito que a cidadania activa implica ainda uma ousadia maior. Implica um compromisso com a comunidade que nos permita voltar a um modelo prévio, em que o contacto directo com a sociedade (e não apenas aquele mediado por fontes secundárias) era fonte de apoio, de estrutura, de partilha e de orientação.

 

Um movimento particularmente interessante são os projectos de economia solidária, muitos formados a partir de centros e ateliers ocupacionais que se aperceberam de forma clara do impulso que podem imprimir na comunidade. O conceito parece novo, mas não é mais do que a devolução à comunidade do seu papel cuidador e estimulante de novas competências e papéis, de forma justa e na medida em que serve os interesses da própria comunidade. De forma simples, a economia solidária identifica e satisfaz necessidades que são aferidas pela e na sociedade.

 

A partir do momento em surge uma necessidade que é identificada e que um determinado elemento da comunidade poderá satisfazer, este modelo preconiza que, ao invés de apenas resolver de forma pontual essa necessidade, esse determinado elemento da comunidade é convidado a partilhar o seu conhecimento e a dotar outros de competências mais ou menos básicas e de forma mais ou menos continuada nessa área. A pessoa que partilha ferramentas, estratégias e saberes é justamente recompensada pelo tempo que dedica, sendo garantido que todos os materiais e elementos necessários à concretização da partilha estão assegurados. Cada pessoa interessada em receber esta informação, útil não apenas para si mas também para a comunidade, é chamada a envolver-se tanto através do empenho na aprendizagem, como também através da contribuição para a realização da partilha. A grande diferença é que, em termos económicos, todos saem a ganhar, pois esta contribuição, dado que não visa o lucro mas sim “apenas” o justo pagamento do trabalho de quem partilha, ao ser dividida por todos, se torna quase simbólica e sustentável. Tudo isto ao mesmo tempo que fortalece laços sociais e competências comunitárias.  

 

Sabemos que é cada vez mais necessário consolidar a participação cívica de cada um, e todas as formas que encontrarmos de encorajar de forma consistente e diversificada esta cidadania são pontos importantes na construção de um projecto social mais justo, mais envolvente e mais humano.

 

 

 

*Ana Baptista de Oliveira é psicóloga e formadora. É coordenadora clínica na equipa de apoio psicológico numa multinacional de serviços EAP (employee assistance programs), na qual se foca na intervenção em crise e na gestão de riscos psicossociais nos locais de trabalho. Trabalha também em intervenção clínica no Espaço Maiores, colaborando ainda com projectos na área dos Direitos Humanos. É voluntária da Ordem dos Psicólogos para intervenção em situações de catástrofe. Tem formação pós-graduada nas áreas da mudança e desenvolvimento humanos e da psicoterapia. Aprecia particularmente conceitos como empoderamento, consciência, competência, responsabilidade, e outros que traduzam a “inesgotável maravilha da potencialidade humana”.

 

#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

 

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