2017-04-26

O turismo e a poesia do tempo

Gonçalo Antunes*

Não é novidade que as grandes cidades portuguesas estão na moda e que têm sido alvo de crescente interesse turístico. O aumento do número turistas que percorre os centros históricos resultou, como não poderia deixar de ser, em diversas repercussões no território e, actualmente, não falta quem coloque em causa o desenvolvimento do fenómeno turístico nas duas principais cidades do país. O debate agora levantado em Portugal não é novo, trazendo a perspectiva de que os residentes têm mais a perder do que a ganhar, e tem sido tema recorrente em discussões políticas, reflexões académicas e também em documentários, como foi o caso de Welcome Goodbye (sobre Berlim), The Venice Syndrome e Bye Bye Barcelona.

Para aqueles que não se deixam levar pela argumentação de um passado sempre mais poético e prestigioso do que o presente, não é fácil assimilar a ideia de que o turismo acarreta consigo mais ameaças do que oportunidades. Centrando a análise na realidade nacional, convém recordar que o centro das duas principais cidades portuguesas se encontrava até há pouco tempo num paulatino processo de abandono, tanto do ponto de vista residencial, com a preferência pela casa nova construída na periferia, como comercial, com a disseminação de grandes centros comerciais dispersos nos arredores das cidades. Este caminho, percorrido nas últimas décadas do século XX, levou à desqualificação dos centros históricos, no domínio privado, visível nos edifícios de habitação em ruínas, e no domínio público, com espaços públicos degradados e descurados pelas entidades competentes.

Depois de décadas de incúria e desinteresse, convirá realçar que foi em grande medida o turismo o catalisador da transformação e requalificação urbana dos centros históricos. É certo que o turismo não vai trazer o mundo perfeito e acarretará consigo diversas perversidades urbanas e sociais, mas certamente que teremos todos mais a ganhar com ruas cheias do que com ruas vazias; com espaços comerciais actuais (mesmo de multinacionais ou de souvenirs) do que com lojas entaipadas; com hotéis e apartamentos de luxo do que com prédios decrépitos a ameaçar a ruína a qualquer momento.

Deixemos, então, os lamentos da “cidade perdida”, que nunca existiu e que poucos visitavam, e abracemos a natural adaptação e transformação urbana das nossas cidades às exigências do século XXI, neste caso, com um turismo inteligente, que saiba conciliar a cidade tradicional com a demanda contemporânea.

 

 

 

*Gonçalo Antunes é geógrafo, doutorando na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde tem trabalhado sobre políticas sociais de habitação promulgadas em Portugal desde 1820. É também docente convidado na FCSH-UNL, na ESEIMU, e colaborador no CICS.NOVA.


#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

 

 


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