2017-05-15

As cidades, as comunidades e os ecossistemas startup (Parte I)

Rui Nuno Castro*

Hoje, assistimos ao proliferar por todas as cidades de pólos de inovação, incubadoras, co-works, tech hubs (e muitas outras designações pomposas e muito atuais que apelam a uma percepção de modernidade no posicionamento dos territórios), mas só raramente estas iniciativas são acompanhadas pela construção de políticas amigas e catalisadoras da inovação e do empreendedorismo. Não quero com isto menorizar a importância que as infraestruturas têm neste processo, mas também não passa disso mesmo. São apenas infraestruturas. A inovação faz-se com pessoas.

 

Um dos principais ativos de um ecossistema startup vibrante e atrativo é a existência de uma comunidade ativa e organizada de empreendedores que deve assentar a sua dinâmica em três pilares essenciais: a inclusão, a integração e a irreverência.

 

A comunidade deve ser inclusiva, aberta a todos os que queiram contribuir para a valorização coletiva do ecossistema. A filosofia Give-Before-You-Get tácita e generalizadamente aceite por todos será, porventura, um forma de auto-regulação que purgará os elementos estranhos a este ambiente. A vocação integradora da comunidade deve ser demonstrada pela capacidade de unir pontas, fazendo convergir todos os agentes para uma mesma direção, em convívio harmonioso, que os tornará ainda mais capazes de gerar valor em toda a cadeia de inovação. A irreverência da comunidade advém da capacidade criativa e disruptiva de atuação e posicionamento perante os desafios e as ameaças.

 

Sendo a existência de uma comunidade startup dinâmica um factor orgânico e intrínseco à cidade, o governo local – que, neste processo, é mais um agente do ecossistema – deve assumir essencialmente um papel de enabler.

 

Então, qual deve ser o papel dos municípios na construção/consolidação de um ecossistema startup?

 

Temos todos os tipos de cidades: cidades em que os governos locais consideram que a solução está nas infraestruturas, aquelas em que acham que replicar receitas bem sucedidas em cenários completamente distintos resultará de igual modo, havendo ainda as que, não conseguindo reunir qualquer das características fundamentais para afirmar a sua cidade como um polo de inovação, tentam por todas as formas contrariar o óbvio, e, por último, os piores, aquelas que, possuindo no seu território todas as condições para se impor como um líder natural de inovação e empreendedorismo, decidem ignorar olimpicamente essa realidade e desaproveitar de forma quase criminosa os recursos que poderiam transformar o seu território num dos motores da economia local e nacional. Felizmente, temos também bons exemplos e esses devem merecer a nossa admiração, atenção e até a nossa reflexão para que possamos aprender com os melhores.

 

O primeiro passo a ser dado, pelo governo local, no sentido da construção de uma cidade/região enquanto polo de inovação e empreendedorismo, deve ser a identificação dos líderes naturais da comunidade de empreendedores, porque deverão ser eles a  tomar as rédeas da comunidade e serão eles que poderão fornecer os melhores canais de interação com essa mesma comunidade. Só assim se poderá sentir e ficar a conhecer as dores, as necessidades, os anseios, as dificuldades e os objetivos dos empreendedores, para, em conjunto, trabalharem com o objetivo de identificar pontos de convergência e sinergia. Sendo que o acesso a talento, a capital e a mercado estão e estarão no topo das prioridades de qualquer startup e, por consequência, do próprio ecossistema.

 

Sozinhos vamos mais depressa, mas em conjunto vamos mais longe.




*Rui Nuno Castro é um empreendedor. Depois de ter passado alguns anos a trabalhar em multinacionais e em grandes grupos empresariais, tanto em Portugal como na Europa, dedicou-se à startup scene em Coimbra. É vice-presidente da Perceive3D, co-fundador da Invisiwall e CEO da BoomSell. É presidente e co-fundador da AlphaCoimbra, uma associação sem fins lucrativos fundada por empreendedores de Coimbra que tem por missão dinamizar e acelerar o ecossistema de inovação e empreendedorismo da região.


#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

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