2017-05-08

A Cidade Circular

Jorge Saraiva*

A cauda longa do sucesso em projetos para smart cities

 

Encontrar casos de sucesso cujas opiniões sejam unânimes é como encontrar uma agulha no palheiro. Nikolaos Kontinakis, gestor de projetos smart da Eurocities, considera que as smart cities atravessaram várias fases de maturidade e, adoptando uma tendência, atreve-se a afirmar que entramos numa era de Smart Cities 4.0. Pessoalmente, concordo mais com a opinião de Chris Cooper, da KnowNow, que refere: “implementações smart cities ainda nem sequer começaram… Ainda!”.

 

Na pesquisa que encetamos, não colocamos nenhum projeto de fora. Ao todo, mais de duas centenas de projetos foram analisadas sobre a sua eficácia em três parâmetros que caracterizam a valoração de qualquer projeto de acordo com o paradigma da nova economia: capacidade de gerarem receitas, tração ou número de utilizadores e, finalmente, a sua replicabilidade.

 

Ao quantificar os projetos sobre estes três parâmetros, detectamos que os resultados se apresentam sob a forma de uma cauda-longa. Ou seja, menos de 10% das iniciativas reúnem mais de 90% da quantidade total em qualquer critério (receitas, utilizadores ou replicabilidade). Os restantes 90% tendem para o zero mas nunca chegam a atingir verdadeiramente transformado qualquer gráfico em uma cauda-longa.

 

As abordagens e respectivo impacto na cidade

 

Com o desenho da Smart Cities Wheel, por Boyd Cohen, identificaram-se os silos desta indústria. De acordo com o estudo das Nações Unidas, não existe uma única cidade que tenha, de forma consistente e integrada, projetos em todas as seis áreas. Utilizamos esta metodologia (que é utilizada para o ranking) como base para medir o impacto dos projetos. Desta vez, dividimos as iniciativas de acordo com a sua abordagem: de cima para baixo (ou seja, dos governantes ou sector público para os cidadãos e economia local) ou de baixo para cima (dos cidadãos, empresas, associações, empreendedores e restantes stakeholders de uma cidade).

 

De uma forma sucinta, as abordagens de cima para baixo representam investimentos substancialmente superiores aos das abordagens de baixo para cima. No que concerne ao impacto societal, contudo, as abordagens da base para o topo reúnem maior reconhecimento, identificação, adoção e notoriedade. Um inquérito encomendado pela DigitalTown à Universidade de Greenwich demonstra que apenas 4% dos inquiridos na rua conseguiu responder de forma coerente à pergunta: “o que é uma smart city?”. O mais curioso é que menos de 1% conseguiu identificar mais do que um projeto smart city. Talvez Chris tenha mesmo razão, quando diz quem ainda nem sequer começámos.

 

Na segunda parte do mesmo inquérito (depois da apresentação de alguns conceitos como mobilidade, ecologia, qualidade de vida e etc.), foram dados alguns exemplos de empreendimentos de elevado impacto nas cidades (como Facebook, Uber e Airbnb). O reconhecimento destas marcas e da sua importância no dia-a-dia foi imediato.

 

Na verdade, além das tradicionais abordagens topo-base ou base-topo, existe uma outra que afeta as cidades de forma e impacto esmagadoramente superior a qualquer outra iniciativa: as plataformas peer2peer.

 

A economia extrativa e as plataformas peer2peer

 

Representando mais de 90% em qualquer critério de avaliação, é fundamental avaliar o impacto que estas plataformas causam nas cidades. A maioria destas plataformas funciona sobre o paradigma de economia extrativa, ou seja, como multinacionais aproximam-se dos clientes finais em cada cidade, vendendo produtos e ou serviços que existem na cidade, subcontratando-os à medida que estes são necessários. O problema reside na medida em que as margens geradas para a plataforma são investidas na angariação de mais fornecedores e clientes na cidade. O que aparentemente parece um investimento natural torna-se num maior poder de negociação, com os cada vez mais fornecedores dependentes e consequentemente perdendo valor nas suas margens. Com maiores margens e mais dinheiro a ser extraído da cidade, o ciclo repete-se, diminuindo progressivamente o valor acrescentado (e pago) aos elementos da cidade e, obviamente, reduzindo a riqueza da mesma.

 

A cidade circular

 

A cidade circular é um conceito formado com base na observação dos resultados deste estudo e do modelo de plataforma cooperativista como alternativa às plataformas extrativas. Acredito que este deve ser um princípio motriz para qualquer iniciativa.

Um projeto em smart cities deve criar um enorme impacto na cidade em qualquer um dos critérios acima demonstrados, mas os rendimentos gerados por esse projeto devem ser investidos novamente na cidade dinamizando o seu impacto. Aumentado o impacto, aumentam as receitas geradas completando-se assim o círculo. Ou seja, devemos sempre questionar quem realmente está a beneficiar com a iniciativa em questão. Se não for a cidade a médio ou a longo prazo e se a cidade não tiver a opção de tomar a propriedade sobre iniciativa a qualquer momento, então não deveríamos considerar esse projeto inteligente para a cidade, não concorda?

 

 

 

*Jorge Saraiva é vice-presidente para a Europa da multinacional norte americana Digital Town cotada na bolsa (DGTW), cuja plataforma para smart cities está a ser implementada em mais de 23 mil cidades em todo o mundo. Além da sua colaboração com a DigitalTown, é também co-chair em Citizen Focus nas smart cities da Comunidade Europeia e co-chair da iniciativa da Comunidade Europeia: Citizen City. Iniciou a sua atividade profissional em smart cities em 2012 e, durante estes cinco anos, esteve envolvido em dezenas de projetos e muitos eventos/debates sobre quais as melhores práticas. “Felizmente, a minha atividade possibilitou-me conhecer grandes intervenientes na matéria e acesso a alguns meios essenciais para uma análise fidedigna”, exclama.

 


#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

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