2017-11-22

É importante usar os sentidos para compreender as cidades?

No final deste mês, o especialista em urbanismo norte-americano Chuck Wolfe vai estar em Portugal para partilhar uma nova metodologia para observar e compreender o crescimento e evolução da cidade através da criação de um “diário urbano”. LENS - Look, Explore, Narrate, and Summarize é a proposta deste advogado, especialista em Ordenamento do Território, Lei Ambiental e Licenciamento. Autor dos livros Urbanism without Effort e Seeing the Better City e do blogue myurbanist.com, Wolfe é um dos nomes grandes da edição deste ano do evento Smart Travel, que acontece dias 30 de Novembro e 1 de Dezembro em Bragança. Mas, para além da cidade transmontana, Chuck Wolfe vai também estar no Porto (29 de Novembro), Guarda (4 de Dezembro) e em Lisboa (5 de Dezembro) com um programa especial no qual convidará os participantes a “verem a melhor cidade” (seeing the better city, expressão no inglês que dá mote ao livro e à fundação criada por este especialista de Seattle). Em antecipação à sua visita a Portugal, Chuck Wolfe explica à Smart Cities porque é importante usar os sentidos para compreender a cidade que nos rodeia, numa era em que as inovações tecnológicas se sucedem e na qual dispomos de cada vez mais ferramentas digitais para o efeito.

 

 

"Podemos habitar a mesma cidade, mas vivemos em mundos diferentes. A nossa compreensão das cidades onde vivemos é baseada na percepção sensorial – o que vemos, ouvimos e cheiramos na nossa vizinhança, a caminho do trabalho, no mercado. Mesmo quando nos deparamos com a mesma situação, podemos vivenciá-la de forma diferente. Considere, por exemplo, qual será a vista do último degrau da Catedral da Sé em Lisboa… se estiver numa cadeira de rodas.

 

As nossas percepções individuais são, na realidade, um tesouro ao nível de informações e poderiam ser utilizadas para criar cidades melhores para todos. Mas essas informações não são normalmente transmitidas – ou, pelo menos, suficientemente transmitidas – ao planeamento e políticas urbanas.
 

Isso pode mudar. Felizmente, todos nós possuímos a capacidade de avaliar e comunicar aquilo de que gostamos e não gostamos sobre o que nos rodeia; para responder com alegria, tristeza, medo ou fúria e para descobrir a melhor maneira para melhorar o mundo à nossa volta. Ao desenvolver a concepção e política urbanística, temos de fazer mais e melhor no que diz respeito a encontrar uma forma de contribuir com a experiência sensorial humana.

A imagem visual é, em particular, uma ferramenta poderosa e necessária para observar e interpretar as cidades. Coloca de parte os chavões e o jargão académico que saturam as discussões sobre cidades e permite a utilização de uma linguagem universal para todos. No meu novo livro, Seeing the Better City, ofereço uma ferramenta – um 'diário urbano' – que permite recolher o poder da narrativa visual para transformar a forma como as nossas cidades evoluem.

Um diário urbano tira proveito daquilo que muitos de nós já estão a fazer com as suas câmaras e smartphones: registar aquilo que vemos e aquilo de que gostamos e não gostamos nas cidades onde que vivemos. Este diário encoraja os residentes a observar e documentar as cidades através de fotografias, esboços ou notas – utilizando o método 'LENS - Look, Explore, Narrate, and Summarize' (Olhar, Explorar, Narrar, Resumir, na tradução). Ao capturar esta informação visual, os residentes, funcionários públicos e decisores estão mais bem preparados para planear as cidades e dar resposta à mudança urbana.

 

Um diário urbano pode ser utilizado de diversas formas – como um exercício introdutório sobre 'como ver', por exemplo, ou como uma forma de melhorar os processos de ordenamento do território ou reanalisar a concepção do território, que actualmente depende dos convencionais dados escritos. O diário urbano pode proporcionar uma alternativa inclusiva a prescrições hierárquicas e abstractas, promovendo o diálogo cívico com um conjunto diverso de residentes da cidade.

 

Abordagens semelhantes já se encontram em utilização. Na minha cidade natal, Seattle, o Yesler Terrace Youth Media Project utilizou a plataforma Photovoice para catalogar as preocupações dos estudantes sobre uma remodelação em larga escala ainda pendente das habitações sociais da comunidade. Vozes que, de outra forma, não teriam sido ouvidas proporcionaram aos gestores de projecto da Seattle Housing Authority (entidade responsável pela Habitação em Seattle) e aos funcionários municipais, informações visuais valiosas sobre a percepção dos habitantes mais novos sobre a remodelação.

 

Os dados visuais e os de outros sentidos também podem guiar as escolhas do sector privado. Fui recentemente recordado da originalidade desta abordagem numa das minhas palestras e tour com membros do Urban Land Institute de São Francisco. Durante as apresentações iniciais, vários participantes presentes na sala disseram: "Sou um profissional da mediação imobiliária e não estou aqui devido ao meu trabalho, mas quero compreender melhor as cidades que visito". Ao que eu respondi, 'Espera!, isto é sobre o teu trabalho, já que o aspecto visual e sensorial dos ambientes urbanos é imensamente importante para o que funciona ou não a nível de mercado.'

Todos — independentemente do seu passado, disposição ou profissão —podem utilizar os seus sentidos para explorar e observar o espaço urbano. Podemos registar o que é inspirador e evocativo, o que parece funcionar para incentivar uma cidade inclusiva, habitável e equitativa e o que não funciona. Desta forma, podemos vislumbrar uma cidade melhor de todos os ângulos."

 

 

 Para mais informações sobre a visita de Chuck Wolfe a Portugal, clique aqui.

*Chuck Wolfe trabalha com developers e municípios no desenvolvimento de políticas e criação de estratégias de envolvimento da comunidade, oferecendo uma perspectiva única de quem escreve sobre urbanismo. Contribui regularmente para publicações como o The Atlantic, CityLab/The Atlantic Cities e Huffington Post. É fotógrafo e lecciona Lei de Ordenamento do Território na College of Built Environments na Uni. Washington.

 

 

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