2017-07-03

Episódio 2 - Comportamento Emergente

Pedro Portela*

O comportamento emergente é um fenómeno característico de sistemas adaptativos complexos. É um tipo de comportamento global mas que resulta da interacção individual de centenas, milhares ou milhões de indivíduos, sem coordenação central.

 

O mundo animal está repleto de exemplos de comportamentos emergentes. Vejam este exemplo de um bando de pássaros criando padrões no ar sem comando ou controlo central. Não existe nenhuma ave chefe ou nenhum “controlo de tráfego aéreo” que possa ser responsabilizado pelos padrões criados. No entanto, centenas de indivíduos voam a grande velocidade evitando colisões e criando padrões que, vistos de fora, parecem ser coordenados. Outros exemplos do mundo animal encontram-se nas abelhas, nos cardumes de peixes, nas formigas.

 

Este tipo de fenómeno observa-se também em sistemas criados pelo Homem, como, por exemplo, no mercado bolsista.

 

O comportamento emergente em sistemas sociais (tais como os das Cidades) é um dos mais fascinantes tópicos de investigação dos tempos modernos pois, no meu entender, é neste tipo de fenómenos que reside uma das soluções para os problemas mais complexos do século XXI. De acordo com a mudança de paradigma da qual falei no primeiro episódio, as cidades inteligentes do século XXI serão aquelas que, percebendo e integrando na gestão estratégica, a sua natureza complexa, criarão condições para o comportamento emergente positivo. A diferença para a actual forma de pensamento é subtil e reside nas perguntas que os responsáveis públicos se colocam.

 

A mais importante, por ser a mais mobilizadora e aquela que mais significado tem para o ser humano, é o “Porquê?”. A partir do “Porquê”, isto é, de um propósito para a Cidade claro, construído e partilhado pelos cidadãos, o papel dos gestores da cidades inteligentes do século XXI passa a ser o de criar os elementos necessários do ecossistema, a fomentação e conservação das redes de relações de interdependência entre eles (a terminologia anglo-saxónica é “stewardship”). Mais do que impor comportamentos, trata-se de criar condições para que estes apareçam colectivamente e espontaneamente, apoiar e alavancar as pequenas iniciativas que contribuem para o Propósito da cidade, criar mecanismos de feedback e instituições independentes que promovam o diálogo e a participação cidadã.

Os tempos da gestão centralizada terminaram e o paradigma dos sistemas complexos oferece inovadoras perspectivas sobre como gerir sistemas sociais complexos (Cidades) de forma distribuída tornando-os consequentemente mais resilientes.

 

Este é um processo que requer tempo, paciência mas, sobretudo, transparência, confiança e o virar do foco novamente para as relações humanas, pois são estas as que realmente produzem impacto.


*Pedro nasceu em 1980 no Porto, onde viveu, estudou e trabalhou até 2016. Criou o Blog “O Elefante na Sala”, no qual divulga o seu interessa pelos novos paradigmas de gestão baseados na Teoria da Complexidade e Caos e no impacto que a forma como nos organizamos para trabalhar tem no indivíduo e na sociedade. É membro de várias redes formais e informais, das quais se destaca a Rede Global de Complexidade Social(Global Complexity Network). Reside actualmente em Amarante, onde colabora com a Casa da Juventude nas áreas da sustentabilidade e da capacitação social.

 

#CIDADÃO é uma rubrica de opinião semanal que convida ao debate sobre territórios e comunidades inteligentes, dando a palavra a jovens de vários pontos do país que todos os dias participam activamente para melhorar a vida nas suas cidades. As opiniões expressas são da responsabilidade dos autores e não reflectem necessariamente as ideias da revista Smart Cities.

 

 

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